Márcia Kranz/ Divulgação
Márcia Kranz/ Divulgação

Arranjador Soberano

Mario Adnet dá sequência a projeto com composições de Tom Jobim em disco e show

Lucas Nobile, O Estado de S.Paulo

25 Junho 2011 | 00h00

Quando Chico Buarque escreveu, em 1993, "meu maestro soberano foi Antonio Brasileiro", no disco Paratodos, extremistas caíram matando. Rasos, reduziram aquele que foi um honesto tributo e exageraram ao alegar que Tom Jobim fora um grande compositor, mas nada extraordinário como regente.

Hoje, 18 anos depois, quem presta justas homenagens a Tom é o compositor e violonista Mario Adnet, em show de lançamento, no Auditório Ibirapuera, de seu mais recente disco, + Jobim Jazz. Quem conhece os trabalhos anteriores sobre as obras do mestre Moacir Santos (1926-2006), no duplo Ouro Negro (2001) e em Choros e Alegria (2005), e de Baden Powell (1937-2000), em Afrosambajazz (2009), sabe que não é nenhum desatino afirmar que Adnet é um arranjador soberano, com lugar cativo entre os melhores do País.

O álbum que acaba de ser lançado é uma continuação de Jobim Jazz, de 2007, e novamente comprova que Adnet não é um caroneiro oportunista ao tocar na obra de Tom.

Mesmo sem ter tido ligação pessoal estreita com Jobim, ambas as famílias se conhecem de longa data. O arranjador, compositor e violonista conhecia de perto Paulo e Beth Jobim (filhos de Tom) e sua irmã, Maúcha Adnet, fazia parte da Banda Nova, última formação a acompanhar Jobim. Aliás, foi Maúcha, morando em Nova York, que levou a Tom uma fita demo com cinco arranjos feitos por Adnet para temas jobinianos. O compositor se encantou principalmente com o trabalho realizado para Maracangalha (escrita por Dorival Caymmi) e acabou gravando a música, com arranjo de Adnet, em seu último álbum, Antonio Brasileiro, de 1994.

Naturalmente seguindo a linha do primeiro Jobim Jazz, este novo trabalho mostra a sinceridade e a competência de Adnet em atuar como um arqueólogo de temas escondidos. Para se ter uma ideia, o primeiro disco tinha somente Só Danço Samba representando os standards de Jobim. O restante trazia composições pouco conhecidas, como Domingo Sincopado (com Luiz Bonfá), Paulo Voo Livre (A Lenda dos Homens-Asa) e Polo Pony.

Desta feita, Adnet repete a dose. Das mais conhecidas, apenas Wave, Samba do Avião, Bonita, Samba de Maria Luiza e Ai Quem me Dera (majestosamente gravada no álbum Edu & Tom, de 1981). Do lado mais obscuro, joias como Takatanga, Mojave, Antígua e Marina Del Rey. O grande destaque do disco fica a cargo de O Barbinha Branca, outra parceria de Tom com Bonfá, registrada apenas no disco do violonista, Luiz Bonfá (1955), e que explica muita coisa - principalmente em termos de harmonia - sobre Um Abraço no Bonfá, um dos poucos temas compostos por João Gilberto.

"Eu respeitei profundamente a essência melódica e harmônica porque ninguém fez melhor do que ele. O convívio com o Moacir também me ajudou muito", diz Adnet. "Pensei na proposta e nos arranjos para metais. O Tom usava muita corda e flauta. Quis experimentar cores mais fortes, abrindo para improvisos de jazz, mas sem desconstruir. Existe uma corrente que faz isso e o sujeito tem de lutar para reconhecer qual é a música", completa. Como ocorrera com Moacir e Baden, o cancioneiro de Tom também está em boas mãos, novamente com o luxo de ser executado pelos maiores instrumentistas do Brasil, não com conservadorismo, mas encarado com extremas sobriedade e elegância.

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