Arquivo do Rio mostra como era a censura

A difícil relação do compositor Chico Buarque com a ditadura militar já é conhecida, mas documentos do Arquivo do Estado do Rio de Janeiro (Aerj) mostram agora alguns dos motivos dos militares para censurar o compositor e cantor. Lançada em 1976, a canção O que Será, um de seus maiores sucessos, foi vetada pelos censores, segundo documento confidencial do extinto Departamento Geral de Investigações Especiais (DGIE), órgão de inteligência da Secretaria de Segurança, obtido pelo Estado. Os militares acreditavam que a música era um claro exemplo de "antagonismo à política militar" e de incentivo à "revolução para a mudança", porque, segundo os censores, falava de "futuro", "custo de vida", "liberdade" e "política nacional". Datado de 26 de novembro de 1976, o documento é assinado pelo então diretor do DGIE, delegado Antônio Malfitano, e faz parte do prontuário do cantor, guardado no Aerj, que amanhã completa 70 anos de existência. O documento do DGIE é um dos selecionados para a exposição comemorativa de aniversário do Aperj, ainda sem data de inauguração. Segundo o filósofo Marcos Zarahi, coordenador da exposição, a idéia é montá-la na nova sede do Aerj, que ocupará o prédio em estilo eclético francês da Rua da Relação, 40, no centro do Rio, que foi sede da polícia política por mais de 60 anos. A diretora do Arquivo, Jessie Jane, quer transformar em espaço cultural o prédio, que ainda espera uma reforma orçada em R$ 7 milhões. No documento sobre a música de Chico, o delegado Malfitano alerta ao serviço de inteligência do Exército que as músicas do então "último disco" do cantor, principalmente O que Será, "estão sendo tocadas com insistência nos ônibus de Niterói e do Rio de Janeiro e em rádios comerciais". Em folha anexa, também confidencial, Malfitano reproduz a letra da música e, ao lado, suas interpretações. Para o delegado, o "antagonismo à política militar" está na primeira estrofe (que andam suspirando pelas alcovas/que andam sussurando em versos e trovas...). Já a referência à "política nacional" está nos versos "o que não tem decência, nem nunca terá/o que não tem censura, nem nunca terá/o que não faz sentido". É na última estrofe que o diretor do DGIE identifica o incentivo ao que chama de "revolução para mudança" (Que todos os avisos não vão evitar/porque todos os risos vão desafiar/porque todos os sinos irão repicar...). O delegado conclui que as três últimas frases da canção (o que não tem governo, nem nunca terá/o que não tem vergonha, nem nunca terá/o que não tem juízo) são "o motivo principal para a mudança" do regime. Outro documento já separado pelos pesquisadores do Aerj para a exposição é o relatório de oito páginas produzido pelo Cisa, o centro de informações da Aeronáutica, que vetou a peça Santo Inquérito, de Dias Gomes, em 1976. A peça, dirigida por Flávio Rangel, fazia uma crítica velada à ditadura, com enredo no Brasil do século 18 que envolvia a Inquisição e a Igreja. "Não é uma peça de subversão, mas de revolução, o que torna mais grave e caviloso o seu artesanato", afirmam os censores, que interpretam id, ego e superego dos personagens. Os militares do Cisa, porém, não se prendem apenas ao conteúdo do drama de Dias Gomes, "conhecido intelectual marxista com notória ligação com o PCB". Eles ressaltam dados técnicos para vetar a encenação, como a ausência de nota fiscal na venda do programa da peça ao público, o que constitui "ilícito fiscal, sendo lesada as Fazendas Estadual e Federal". Segundo Zahari, a exposição não vai se restringir ao período pós-64. O público poderá ver a análise do delegado Seraphim Braga, de Delegacia de Segurança Social, sobre o livro Marco Zero, de Oswald de Andrade. Datado de 8 de julho de 1944, o relatório policial conclui que a obra está "fundamentada num realismo tendencioso" e escrita "numa linguagem pornográfica, cujas as expressões atentam contra a moral e a sociedade".

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