Arquivo do Estado lança livro sobre "Última Hora"

Por que tu não fazes um jornal? Com essas palavras, Getúlio Vargas anunciou o nascimento de um dos jornais mais inovadores e controversos da história da imprensa brasileira, o Última Hora. As palavras do presidente ditas em 1951 ao jornalista Samuel Wainer vieram à tona em seu livro de memórias Minha Razão de Viver, no qual o jornalista deixa claro que o nascimento do jornal estava vinculado à figura do presidente. Para além das questões políticas, o Última Hora teve um papel importante na renovação da imprensa brasileira ao inaugurar o uso de cores, ao pôr o futebol e as artes na primeira página e ao criar as histórias em quadrinhos nacionais para jornais. Além disso, ressuscitou a figura do colunista, lançando nomes como Nélson Rodrigues e Adalgisa Nery. O acervo do jornal está em poder do Arquivo do Estado de São Paulo. Para divulgar o acervo e atrair o público, o Arquivo - em parceria com a Imprensa Oficial do Estado de São Paulo (Imesp) - lançou a coleção de livros Arquivo em Imagens. O Grupo Estado publica com exclusividade fotos do quinto volume da série, dedicado às artes, que tem previsão de lançamento para fevereiro de 2001. Uma das características marcantes do Última Hora era o uso das fotografias, um recurso até então explorado mais como ilustração de reportagens do que como instrumento jornalístico. Por conta disso, os livros da série Arquivo em Imagens privilegiam o acervo iconográfico do jornal. O primeiro volume fazia resumo das diversas seções do jornal, o segundo foi dedicado ao futebol, o terceiro às ilustrações (prêmio de melhor livro de ilustrações da Associação Brasileira de Cartunistas) e o quarto à política. O quinto volume traz fotografias que foram publicadas no jornal e algumas inéditas. Além das imagens, o livro traz textos de pesquisadores e profissionais de cada área artística contemplada pelo jornal. O novelista Walter Negrão escreve sobre TV, o professor aposentado de História da Cultura da USP Arnaldo Daraya Contier sobre música e Márika Gidali, diretora do Ballet Stagium, sobre dança. "A pesquisa incluiu também livros sobre a época e sobre artes, além dos jornais que estão no Arquivo", conta a historiadora Beatriz de Arruda, coordenadora do setor de Estudos e Pesquisas. "Isso é importante, pois os estudantes, por meio dessa pesquisa, têm contato com esse acervo e podem no futuro aprofundar esse trabalho." O acervo do Última Hora já foi utilizado para pesquisas dos mais variados tipos, como para o doutorado da professora de História Contemporânea da USP Maria Aparecida de Aquino, que abre o primeiro volume da série. "Para melhor observar as ações e reações da imprensa, em relação ao projeto autoritário do Brasil pós-64, um de meus objetos de pesquisa foi o jornal Última Hora, consultado pelo acervo disponível no Arquivo do Estado", diz ela. "Os livros tentam mostrar a relevância histórica sem deixar de lado as fotos divertidas que eram também uma marca do jornal", lembra Beatriz. Por conta disso, o volume dedicado às artes traz desde fotografias de propaganda de Holywood, como a do casal de atores Paul Newman e Joan Woodward, com o Oscar nas mãos, até fotos inusitadas de artistas nacionais desglamourizados pelo jornal. Assim, há fotos das rainhas do rádio sendo maquiadas, assim como Roberto Carlos e Paulo Autran na mesma situação. "Há muitas fotos engraçadas, como as de atores holywoodianos nas praias cariocas de roupa e sapatos", lembra a pesquisadora Carolina Vasconcelos. O acervo conta com 165 mil fotografias de artes. A previsão inicial era que fossem publicadas cerca de 120, mas o livro tem 216 imagens. "Foi difícil a seleção, pois a qualidade delas é muito boa", conta o pesquisador Anderson Batista, que participou da pesquisa de todos os volumes. Além das curiosidades, o livro traz registros históricos importantes, como fotografias de peças que marcaram a história do teatro, como O Rei da Vela, do Teatro Oficina, e O Arquiteto e o Imperador da Assíria, com Rubens Corrêa. Há imagens antológicas de Flávio de Carvalho com sua saia-parangolé e Nélson Rodrigues como ator em sua peça Perdoa-me por me Traíres. Há também mestres em plena obra, como Heitor dos Prazeres pintando um quadro, a psiquiatra Nise da Silveira em imagem inédita esculpindo e Iberê Camargo pintando um painel. Outra curiosidade são as fotos que registram encontros históricos entre artistas nacionais e estrangeiros, como Vinícius de Morais com Pablo Neruda e Ella Fitzgerald com sambistas cariocas. "Vamos mostrando as fases pelas quais o jornal passou", afirma Beatriz. Assim com a chegada da ditadura e a suspensão da liberdade de imprensa, o jornal mostra a luta de artistas pela liberdade em manifestações e os enfrentamentos com a polícia. As imagens trazem Flávio Rangel sendo preso, a atriz Vanja Orico agredida pela polícia e atrizes como Tônia Carrero e Norma Benguel em manifestação contra a censura. "Isso fazia parte do ideal do jornal de retratar o dia-a-dia do País em suas páginas", lembra Beatriz. Por conta disso, as reivindicações trabalhistas não deixam de estar presentes nem nas páginas de cultura. Há fotos sobre o movimento grevista dos trabalhadores do rádio em meio à dissolução do império radialista com o surgimento da TV. "Foi interessante ver como o rádio teve sua época de glamour, com as rainhas do rádio e suas platéias enormes e depois sendo substituídas pelas personalidades da TV", lembra Carolina. Assim, há fotografias antológicas dos primórdios da televisão, como a de um beijo de Tarcísio Meira e Glória Menezes, casal símbolo das telenovelas, até foto do mito Leila Diniz imortalizada por seu despudor em expor sua gravidez em um biquíni nas praias cariocas, com roupa de freira em novela da época. "Levamos um susto ao ver essa foto", conta a pesquisadora Valéria Fontes. Vedetes - Além do rádio, o teatro de revista é fartamente documentado, até o seu declínio com o fim do reinado das vedetes. "Uma foto que fizemos questão de colocar foi a da Wilza Carla magra e gloriosa como rainha do carnaval", conta Valéria. Essas e outras peculiaridades das artes retratadas durante todo o período em que o jornal Última Hora existiu - de 1951 a 1971- estão retratadas no livro e estão presentes no acervo, que é aberto ao público. O trabalho do Setor de Estudos e Pesquisa tem como principal proposta diversificar o perfil de seu público. "Aqui, há muitas coisas de interesse geral, como mapas raros e acervo de documentos privados", lembra Beatriz. Para facilitar o acesso a seu acervo, o Arquivo oferece também visitas monitoradas, além de estágios para alunos de história. "Queremos mostrar para os estudantes de história que há um vasto campo de trabalho para eles dentro de um arquivo." Atualmente, o setor de pesquisa faz um levantamento das revistas do arquivo, que tem Eu Sei Tudo, preciosidade do começo do século, até as atuais Veja e IstoÉ. "Futuramente, esses acervos serão colocados na Internet", diz Beatriz. Os estudos realizados no Arquivo são divulgados também na Revista Histórica que lança artigos referentes às pesquisas realizadas pelos funcionários do arquivo e por pesquisadores que se utilizam de suas fontes. A publicação é semestral e o último número está atrasado. "Esperamos lançá-lo até o fim do mês", diz Beatriz. Todas as publicações do Arquivo podem ser encontradas na Livraria Histórica, situada no próprio Arquivo ou em livrarias como a Cultura, em São Paulo. "Com nossas publicações, abrimos uma brecha para que as pessoas entrem em contato com a própria história e a do País", acrescenta Beatriz. Arquivo do Estado de São Paulo - Rua Voluntários da Pátria, 596, Santana. Telefones: 6959-1924 e 6959-4785.

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