Arquivo britânico coloca na internet cerca de 2 mil relatos de soldados da 1.ª Guerra

Já foram digitalizadas mais de 1,5 milhão de páginas, que serão disponibilizadas ao público de cinco anos

O Estado de S. Paulo

14 de janeiro de 2014 | 19h04

Às vésperas do centenário do início da Primeira Guerra Mundial, o Arquivo Nacional Britânico publica na internet o primeiro lote de diários escritos por soldados durante o conflito que matou milhões de combatentes entre 1914 e 1918, no Reino Unido. Ao todo, já foram digitalizadas mais de 1,5 milhão de páginas, que serão disponibilizadas ao público ao longo da celebração da data, que na Inglaterra terá duração de cinco anos.

Por ora, podem ser consultados, gratuitamente (o download é pago), 1.944 diários escritos entre o começo da guerra, em 28 de julho de 1914, e a partida das tropas da França e de Flanders, em 1919. São relatórios sobre as atividades cotidianas – de trabalho e de lazer, e são, sobretudo, relatos dos horrores que os soldados vivenciaram naquele período.

O público e pesquisadores podem fazer buscas por regimento, batalhão, brigada ou divisão no site www.nationalarchives.gov.uk.

Os diários dos soldados do Primeiro Batalhão do País de Gales, por exemplo, estão entre os documentos digitalizados. Eles dão uma mostra da ansiedade e do terror que pairavam na abertura do conflito – com as batalhas de Marne e Aisne. Eles também revelam inúmeras competições de cabo de guerra, partidas de rúgbi e jantares de despedida que marcaram o fim da guerra.

O material reflete os anseios e temores daqueles que estiveram no front da batalha. “Por toda a parte os mesmos sinais severos e implacáveis da batalha e da guerra”, relata, de uma trincheira, rodeado de corpos e roupas manchadas de sangue, o capitão James Paterson em seu diário pessoal.

“Há pobres rapazes mortos, caídos em todas as direções. Alguns são os nossos soldados”, escreve o militar britânico em uma das 1,5 milhão de páginas conservadas pelo arquivo do Reino Unido, um país para quem a Primeira Guerra Mundial é motivo de controvérsias entre historiadores e políticos.

O material divulgado ontem representa um quinto dos diários de seu acervo e abarcam os registros de três divisões de cavalaria e sete de infantaria do exército britânico. Os arquivos originais podiam ser consultados desde a década de 1960, mas o Arquivo Britânico acredita que sua publicação na internet ampliará seu acesso.

“Disponibilizar as páginas dos diários da Primeira Guerra Mundial online permite que pessoas de todo o mundo descubram as atividades diárias, histórias e batalhas de cada grupo. A iniciativa também oferece a oportunidade de o público, dos interessados em História, familiares dos soldados e historiadores explorarem informações que podem levar a novas descobertas e perspectivas acerca desse importante período da história”, diz William Spencer, especialista da instituição.

Um século depois que o Reino Unido lutou ao lado dos Aliados, o conflito ainda é capaz de criar polêmica no país, como a iniciada há poucos dias pelo ministro da Educação, o conservador Michael Grove, que acusou “historiadores de esquerda” de minimizarem a disputa.

Em um artigo no jornal sensacionalista Daily Mail, o ministro criticou o professor da universidade de Cambridge e colunista do diário Guardian, Richard Evans, que havia atacado a “ideia de honrar os sacrifícios” dos soldados da Primeira Guerra Mundial. Grove lamentou que o historiador pense que os soldados “se equivocaram” quando, em 1914, se alistaram para lutar “pela civilização, por um mundo melhor e pela paz” e salientou que o conflito foi, acima de tudo, “uma guerra justa”.

Evans reacendeu a polêmica dias depois ao escrever que “nunca quis sujar a memória dos soldados britânicos” e sugeriu que Grove assistisse a “algumas palestras de história feitas por profissionais que ele tanto despreza para aprender a citar corretamente as fontes”.

Outra polêmica relacionada ao centenário envolve uma das moedas comemorativas – em que foi impresso o busto do ex-ministro de guerra britânico Horacio Kitchener. Mais de 30 mil pessoas assinaram uma petição online pedindo que a moeda seja retirada de circulação por ser uma ofensa a milhares de pessoas que morreram na trincheira.

Operação. Em parceria com o Imperial War Museums e Zooniverse, ambos da Inglaterra, o Arquivo Britânico convoca “cidadãos historiadores” a se engajarem no projeto e ajudarem a “revelar a história daqueles que lutaram no conflito mundial que moldou o mundo que vivemos hoje”.

Voluntários podem ajudar a identificar nomes, datas e locais dos eventos, além de classificar o tipo das páginas, as atividades e os dados encontrados nos diários. O endereço do projeto é www.operationwardiary.org.

Essas informações ajudarão em outra iniciativa, o IWM’s Lives of the First World War (Vidas da Primeira Guerra Mundial), que será apresentado em breve. Trata-se de uma plataforma digital por meio da qual será possível lembrar e compartilhar as histórias daqueles que lutaram no front. 

COM AGÊNCIAS INTERNACIONAIS

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