Arquitetura de um poeta em crise

Os artistas podem ser criaturas fascinantes: teimosos, arrogantes, apaixonados, e contudo muito frágeis. Como harmonizar ou mesmo tolerar essas estranhas aves, tão obsessivas e obstinadas no que diz respeito à própria arte, tão distraídas e envolvidas em si próprias, mesmo quando não estão trabalhando, tão obcecadas, independentemente do sucesso, por seu brilho pessoal (ou será pela falta dele?). E como conseguem os artistas navegar num mundo em grande parte indiferente (quando não hostil) à sua espécie?

Heather Havrilesky, do Bookforum, O Estado de S.Paulo

06 de agosto de 2011 | 00h00

Harry, o narrador poeta do último romance de Kate Christensen, The Astral, personifica as melhores qualidades e os mais lamentáveis defeitos de um artista, ou pelo menos, de certo tipo de artista: ele é meditativo e no entanto cego em relação a si próprio; original, porém horrivelmente familiar; pomposo, entretanto atormentado por dúvidas sobre si mesmo; fascinante, contudo indulgente consigo mesmo. Encontramos Harry às voltas com uma grave crise familiar, uma crise que o faz balançar, beber demais e procurar alguém disposto a ouvir conselhos nos quais não se mostra remotamente interessado, ou mesmo disposto a aceitar. A esposa de Harry, Luz, acabou de descobrir o último trabalho dele, uma série de sonetos que falam sobre fazer amor com uma linda mulher. Suspeitando que Harry esteja tendo um caso com sua amiga de longa data, Marion, Luz joga o laptop de Harry pela janela do andar mais alto do Astral, o edifício de apartamentos onde moram, em Greenpoint, no Brooklyn. Com o trabalho destruído e a esposa, que o sustenta há anos, resolvida a entrar com uma ação de divórcio, Harry fica totalmente perdido e transtornado. Ele ama Luz e quer a sua vida de volta, mas não imagina como poderá convencê-la de que não está tendo nenhum caso.

Estranhamente, mesmo neste momento de crise, Harry não tem dificuldade em analisar com frieza as complexidades do seu casamento. Em algumas dezenas de páginas, ele elabora uma precisa avaliação do seu pacto interpessoal com a mulher e dos seus benefícios: "Eu queria que a minha musa, minha esposa, ocultasse de mim seu eu mais íntimo, que ela me julgasse e entendesse a minha necessidade, para que eu pudesse criticar-me, conquistá-la e convencer a ambos do meu valor escrevendo estes poemas insanamente disciplinados, intricados, elaborados. Isto me dava a liberdade, ou pelo menos eu imaginava, de inventar e escrever sonetos de amor a mulheres imaginárias. Tudo havia sido dosado e construído de modo a perpetuar-se. E eu queria isto de volta".

É claro que uma das maiores falhas do artista está frequentemente nele pressupor uma preocupação de nossa parte a respeito do seu processo de criação. Às vezes, preferiríamos receber indicações, tentar imaginar, examinar a obra em si, observar o artista em ação, em lugar de encontrar tudo esmiuçado. Mas Harry parece mergulhar em cada situação de olhos bem abertos, seja ao visitar o culto religioso onde seu filho, Hector, está se escondendo, ou viajar para conhecer o terapeuta pouco confiável de Luz, ou apenas indo a um bar local. Para um amante da poesia extremamente romântico, frequentemente bêbado, Harry parece bastante pragmático.

Contudo, não surpreende que não haja muito o que acrescentar ao quadro do casamento de Harry no decorrer do romance. E isto seria aceitável se o próprio Harry não estivesse obcecado por esse tema. Ele encontra um emprego e depois o perde; procura consolo com sua amiga Marion, e perde o contato com ela; consegue um lugar para morar na casa de uma mulher bondosa, e em seguida é escorraçado por reagir de maneira excessivamente entusiástica à companhia da filha dela. E o tempo todo, ele lamenta a perda da esposa. Ao que tudo indica, Harry considera a vida que desfrutava anteriormente imprescindível para o seu conforto pessoal, crucial para a sua arte, essencial para a sua identidade, embora admita as limitações do relacionamento emocional de ambos, e que este relacionamento se tornou indissoluvelmente vinculado às suas necessidades básicas.

Christensen já havia experimentado, e gostado, do terreno conturbado que é a alma de um artista, sobretudo em seus romances maravilhosamente bem escritos The Great Man (2007) e The Epicure"s Lament (2004). Assim como Oscar e Maxine Feldman, em The Great Man, e Hugo Whittier, em The Epicure"s Lament, Harry se defronta com o problema de ter de continuar criando e deleitar-se com suas criações, mesmo que esteja envelhecendo e tenha de encarar os problemas do casamento, as decepções na carreira, as amizades desfeitas, o fantasma da própria irrelevância. O que significa criar para deixar a própria marca na história? Às vezes, talvez, esta seja apenas uma desculpa para viver na própria bolha fantástica, mal agradecido pelo respaldo financeiro que tornou possível sua vida errática.

Mas enquanto The Great Man analisa ousadamente a existência de um pintor famoso através da ótica das mulheres da sua vida, The Astral, assim como The Epicure"s Lament, concentra-se no artista em si. Infelizmente, não só Harry não se compara ao insensível e inconstante Hugo, como, depois de algumas dezenas de páginas, temos vontade de ver Harry dissecado pela irrefreável sordidez e sagacidade de Hugo. Embora seja eletrizante ver o mundo pelos olhos detestáveis de Hugo, os pensamentos e as compulsões de Harry são embotados. E mesmo que ele seja único, em certo sentido, nunca temos a chance de penetrar em seus sentimentos; sua poesia, suas conversações, seus pensamentos - nada disso parece remotamente íntimo, insólito ou provocador.

Isso não surpreenderia se Christensen não fosse uma escritora dotada de um talento formidável. Em The Epicure"s Lament, ela nos incomoda com toda a intensidade do desprezo de Hugo, um ser que detesta a si mesmo, e dos seus remorsos, obrigando-nos a ver o mundo através de seus olhos, ora predadores ora divertidos. Hugo, este narrador cansado do mundo, tem uma reação amplificada em relação a todos os que habitam a sua esfera, desde sua estoica esposa até o ingênuo empregado adolescente da loja local, e transforma personagens comuns, em pessoas fascinantes.

Por outro lado, os que vivem ao redor de Harry parecem criaturas tão sem graça e incompletas quanto ele, desde a obstinada, mas de outro modo facilmente esquecível, Marion à sua filha idealista, Karina, cuja vida inteira parece extraída de um artigo de revista sobre ambientalistas que combatem o consumismo e vasculham o lixo para atender às próprias necessidades básicas. Marion e Karina se contrapõem a Harry, desafiando-o somente enquanto necessário para sustentar o fluxo constante do diálogo, e acrescentam à história pouca criatividade ou peso emocional próprio. Mesmo quando Marion e Harry finalmente discutem a tensão sexual que porventura existiu entre ambos o fazem como se fossem os anfitriões de um programa de entrevistas: "Luz está louca, sim, porque jamais quebramos a sua confiança", diz Marion a Harry, "mas acho que ela pôs o dedo em algo que sempre existiu, e não morreríamos nem a nossa amizade reconhecidamente platônica de várias décadas morreria, se pegássemos e olhássemos isto, pelo menos uma vez. Por que não nos casamos antes?", indaga. "Nunca saberemos", responde Harry.

A cena resume claramente as falhas de The Astral: tudo é explicado, delineado, analisado, fatiado, picado, conservado e finalmente guardado, para, alguns capítulos mais tarde, ser retomado, reaquecido, reexplicado e reexaminado sem nem por isso proporcionar uma maior compreensão ou mudança de perspectiva durante o processo. Não só a autora conta mais do que mostra, como ela conta, e conta, e conta a mesma coisa outra vez, e outra vez, até que Harry e seus colegas se tornam tão sem inspiração e redundantes quanto os convidados do Dr. Phil, que continuam voltando ao programa e discutem com pormenores os mesmos problemas do casamento, semana após semana.

Somos obrigados a respeitar os pensamentos recorrentes de Harry, suas conversas constrangedoras, sua má poesia e as explicações embaraçosamente óbvias com as quais ele tenta justificar sua má poesia, e o resultado é que a soma de tudo isso é mais fraca do que as partes. Enquanto as mulheres de seus 70 e poucos anos, ou quem sabe até mais, de The Great Man, e a autodepreciação de The Epicure"s Lament resumem os personagens vibrantes e dinâmicos que aparecerão na mente do leitor durante anos, depois que os romances acabarem, o resumo mais sugestivo de The Astral é o da própria Marion: "Que melodrama bobo! Não passamos de uns velhos boêmios". / TRADUÇÃO ANNA CAPOVILLA

HEATHER HAVRILESKY É AUTOR DE DISASTER PREPAREDNESS: A MEMOIR (RIVERHEAD)

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