Arquitetura da ficção

Na USP, evento discute relações entre língua e território

MARIA FERNANDA RODRIGUES, O Estado de S.Paulo

01 de novembro de 2012 | 02h10

A língua como patrimônio cultural, e o patrimônio como objeto de estudo da arquitetura. Para pensar a relação entre os dois, e também entre o projeto de um romance e o de uma casa, por exemplo, está sendo realizado desde segunda-feira, na USP, o seminário Espaços Narrados - A construção de Múltiplos Territórios da Língua Portuguesa.

A comunicabilidade, que não é do domínio do mesmo idioma, mas mais profunda, ontológica; o papel da língua na compreensão do espaço da cidade; a literatura funcionando como uma espécie de guia da arquitetura moderna; e a viagem como uma forma de aproximação são, segundo o coordenador Luís Antonio Jorge, as diretrizes do encontro. Para conversar sobre essas questões, ele convidou profissionais daqui e de outros países lusófonos.

Hoje, no encerramento, o escritor moçambicano Mia Couto fará uma conferência a partir das 18 h. Há vagas, mas elas estão sujeitas à lotação do auditório da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo (Rua do Lago, 876. Cidade Universitária). Antes dele, passaram por lá os arquitetos Paulo Mendes da Rocha (Brasil) e Eduardo Souto de Moura (Portugal). José Forjaz (Portugal/Moçambique) fala hoje. A cineasta Suzana Vargas, que fez, entre outros filmes, A Hora da Estrela, baseado em obra homônima de Clarice Lispector, substituiu o escritor português Gonçalo Tavares, que cancelou sua vinda ao País.

Na programação, estava ainda Milton Hatoum, arquiteto de formação e escritor por vocação. Mais de 30 anos depois de terminar os estudos, Hatoum, que é também cronista do Caderno 2, voltou na terça-feira à universidade onde se formou para conversar com alunos e pesquisadores.

Entre suas lembranças, a da fuga das aulas de hidráulica para frequentar a Faculdade de Letras. "Eu não sabia o que ia acrescentar na minha vida calcular o diâmetro de uma tubulação, então ia assistir às aulas de Davi Arrigucci Júnior, de Leyla Perrone-Moisés, ia ler Cortázar, Stendhal", conta.

Hatoum nasceu em Manaus, em 1952, e mudou-se para Brasília quando a capital tinha apenas sete anos. "A passagem da cidade na floresta, com história, para Brasília me causou um estranhamento radical. Eu achava que aquilo era coisa de outro mundo, inimaginável aos olhos de um amazonense", diz. A pluralidade dos sotaques e a convivência com gente de todo o País impressionaram o então garoto. "Essa experiência foi fundamental para a minha formação de leitor e do arquiteto que nunca fui, e foi decisiva nas narrativas que eu iria escrever depois."

Se Milton Hatoum não chegou a projetar uma casa real, que seria construída com tijolo e cimento, ao menos ele desenhou os espaços das histórias que estava criando para seus livros. E a casa onde situa seu primeiro romance, Retrato de Um Certo Oriente (1990), existe de fato no papel. "Fiz uma série de esboços dessa casa e minha tradutora alemã pediu a cópia desses desenhos porque queria entender melhor o lugar. Os alemães são muito obstinados", brinca.

Sobre as relações entre suas duas profissões, Hatoum diz que a arquitetura depende de muitos outros fatores para além da linguagem, o que não acontece com a literatura. Para o escritor, bastam caneta, papel, imaginação - e também um pouco de técnica e uma formação de leitor. "Projetar um edifício não é o mesmo que projetar um romance, mas há coisas em comum aos dois que é o desenho e o desígnio, que convergem no desejo."

Ele explica que a não ser nos romances água com açúcar e nos livros de autoajuda, a busca da felicidade é sempre frustrada na literatura. E que é desse desejo que não se realiza que é feita a boa literatura. Já a arquitetura projeta para o bem-estar das pessoas, e nisso não constam o trágico e o dramático. Porém, quando essa arquitetura é mimetizada e sem compromisso estético, ela fracassa. "Aí o arquiteto vai repetir padrões comuns, vai construir caixotes visando só àquilo a que se destinam. Isso é visto em São Paulo, uma cidade incrivelmente feia. A linguagem é pobre, como a de alguns romances que querem mimetizar a realidade. Ao andar por São Paulo e ler um desses best-sellers vemos que o mundo está muito uniformizado."

Livro. Um e-book com os 90 trabalhos selecionados para o seminário, apresentados durante a semana, foi entregue aos participantes e será disponibilizado, em breve, aos interessados.

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