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Arquitetura com conforto e poesia

O fenômeno da globalização da arquitetura chegou com tudo ao Brasil no final da década, junto com a guinada econômica que o País vive. É talvez o dado mais relevante a se analisar sobre a movimentação da arquitetura no mundo desde os anos 1990 - um movimento de cima para baixo, dos desenvolvidos em direção aos emergentes. O velho modernismo que reinou no século passado começou a se preocupar com suas ruínas - como os estados delicados da Glass House de Philip Johnson ou a Casa da Cascata de Lloyd Wright.

Jotabê Medeiros, O Estado de S.Paulo

26 de dezembro de 2010 | 00h00

Há vários sinais dessa mudança na paisagem ou em curso. O escritório dos arquitetos suíços Jacques Herzog e Pierre de Meuron foi contratado pelo governo do Estado de São Paulo para projetar o Teatro de Dança no centro da capital paulista, um projeto de cerca de R$ 1 bilhão. O Rio de Janeiro, que já ergueu a controversa Cidade da Música do francês Christian de Portzamparc, prepara-se para abrigar edifícios do espanhol Santiago Calatrava e dos americanos Diller, Scofield & Renfro; Porto Alegre ergueu a elogiada sede do Instituto Iberê Camargo, projeto do português Álvaro Siza (que rendeu ao autor o Leão de Ouro da Bienal de Arquitetura de Veneza).

O comum a todos esses projetos, além do orçamento acima dos sonhos do País em tempos recentes, é sua tentativa de enfatizar o espaço público, em detrimento do privado. "Depois dos devaneios, acrobacias e masturbações estéticas de tantos arquitetos, a arquitetura sai do campo da moda, do show e das tendências ególatras. A crise econômica abriu uma grande possibilidade para que a arquitetura retome seu importante papel de servir à sociedade, melhorar a vida das pessoas e comunidades, trazer mais conforto para todos com eficiência e poesia. Com menos recursos financeiros, abre-se o campo para o refinamento, para o rigor, para a unidade técnica e poética", analisou o arquiteto paulistano Marcelo Carvalho Ferraz.

Prevaleceu a tese defendida pelo holandês Rem Koolhaas, sua ideia da "enclosed city", uma paisagem urbana interior que minimize o espaço privado e maximize o público - na qual o edifício é uma miniatura em si da cidade, com as possibilidades que esta proporciona e como uma extensão das atividades humanas e que possibilite o uso generoso usos e pessoas.

É justamente esse espírito que move o maior projeto arquitetônico apresentado para São Paulo na década, o Teatro de Dança. O arquiteto suíço Jacques Herzog, da dupla ganhadora do Prêmio Pritzker, em entrevista ao Estado, em 2009, disse: "Estamos desenvolvendo um edifício que na verdade não é um edifício isolado no sentido clássico, mas mais uma interseção entre aberto e fechado, público e privado, espaços grandiosos e intimistas nos quais todos juntos vão responder às possíveis necessidades dos usuários envolvidos no plano".

Analisando o movimento arquitetônico contemporâneo, o arquiteto João Filgueiras Lima, o Lelé, disse que a exportação de arquitetura é também a exportação de cultura, e deveria ser tratada como questão de Estado. "A Europa faz investimentos maciços em sua arquitetura. Aqui, esses edifícios acabam sendo "avis raras" que você vai pinçando aqui e ali. Não é um investimento sério como se vê na Europa. A própria Fundação Guggenheim investe em arquitetura como cultura, e nem sempre é uma edificação para guardar um acervo precioso. A própria arquitetura é que é preciosa. Há muitos casos em que nem existe um acervo, como é o caso do museu Guggenheim de Bilbao, que foi fundamental para o desenvolvimento daquele entorno e daquela cidade", considerou.

Pastiche. Lelé, no entanto, diz que os evidentes exageros, como a arquitetura faraônica cheia de pastiches de Dubai, devem ser evitados. "Evidentemente é porque eles têm muito dinheiro para gastar. Eu diria que esses edifícios são proezas arquitetônicas. Há proezas bonitas e feias. É preciso separar o joio do trigo. O Guggenheim de Bilbao é uma proeza feita pelo Frank Gehry, que tem uma obra arquitetônica que vai ficar".

Em 2008, em entrevista ao Estado, Álvaro Siza ponderou assim sobre a arquitetura mundial: "Há continuidade, mais do que rupturas - e há rupturas, que geralmente têm a ver com aspectos os mais variados, como grandes mutações sociais. Houve momentos em que se acreditava que se fazia uma arquitetura para um homem novo. O homem de fato evoluía, mas não há um homem novo, é o mesmo homem, essencialmente ele é o mesmo".

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