Arquiteto vira escritor de sucesso

À noite, ele sentava à beira da cama do filho para lhe contar histórias. E, numa dessas noites, lamentou, em silêncio, que havia uma distância temporal entre os dois que jamais seria vencida. Pai e filho seriam sempre de gerações diferentes - porque o tempo corria para os dois, na mesma velocidade.Qual a saída? Marc Levy, um arquiteto de sucesso, divorciado, então com 37 anos (hoje tem 40), imaginou uma saída: deixar escrita uma história para que seu filho, hoje com 11 anos lesse apenas 20 anos depois. Uma irmã que trabalhava na televisão encontrou o manuscrito e insistiu que ele o mandasse para uma editora. A Robert Laffont foi o único a recebê-lo e decidiu, em apenas dez dias, apostar na obra.Uma história tão perfeita que talvez fosse o caso de perguntar quem foi o roteirista. Pelo menos essa é a história oficial do primeiro e até agora único livro de Marc Levy, E se Fosse Verdade... (lançado no Brasil pela Bertrand Brasil, 256 págs., R$ 30), um romance água-com-açúcar que se tornou um best seller na França. Vendeu mais de 500 mil no país e tornou-se a sensação da Feira do Livro de Frankfurt de 1999.No maior encontro mundial de negociação de direitos autorais, a obra chegou às mãos da agente Suzanna Lea, responsável pelo sucesso mundial dos romances egiptomaníacos de Christian Jacq. Mais que isso, caiu no gosto do cineasta norte-americano Steven Spielberg (diretor de Inteligência Artificial), cuja produtora, a DreamWorks, pagou US$ 2 milhões pelo direito de transformar o enredo em filme (até agora, a produção ainda não foi definida e Levy diz que não pode falar sobre o assunto)."Não posso dizer ainda que sou um escritor; é preciso esperar meus próximos livros", disse ele, por telefone, de Paris. Atualmente, ele vive entre Londres e Nova York, mas, quando escreveu, vivia entre a capital francesa e São Francisco. "O interesse de Spielberg ajudou, mas, na França, meu livro tornou-se um sucesso graças ao boca a boca", afirma Levy. "É uma história de amor que provoca um sentimento de bem-estar; é uma metáfora do encontro no mundo contemporâneo e da solidão do cotidiano."A metáfora de que fala Levy pode ser assim resumida: uma médica residente nomeada, Lauren, sofre um acidente e entra em coma profundo; um arquiteto chamado Arthur muda-se para uma casa alugada em São Francisco. A aproximação acontece dez dias depois de Arthur mudar-se para o imóvel, quando, no banheiro, ele ouve uma voz saindo do armário. Abre e encontra uma jovem. Ela conta sua história: seu corpo está no hospital em que trabalhava, em coma, mas ela é capaz de ver e sentir tudo o que ocorre à sua volta. Ele evidentemente a chama de louca, mas, pouco a pouco, vai se convencendo de que talvez aquilo tudo possa ser verdade. Mas a história não é tão simples: no hospital, questiona-se se é justo mantê-la viva, com morte cerebral. Será preciso resgatá-la reunir corpo e alma, em outras palavras.O autor nega que o fato de o protagonista ter a mesma profissão que a sua e viver na mesma cidade transforme-o num alter ego. Como bom francês, tem a resposta para a questão já decorada, de tanto ouvir escritores repetirem-na nos programas de televisão sobre literatura: "Acho que todos os personagens que inventamos acabam revelando uma parte da gente, mas não é possível identificar um personagem específico; não sou eu quem pode melhor responder a essa questão, mas os leitores."O fato é que a história do amor de Arthur por Lauren transformou Levy numa celebridade na França. Recebe cartas, e-mails, é abordado na rua. "Para minha decepção, mais por homens que por mulheres", brinca. "Mas acho que meu público é equilibrado; falo para os dois sexos."O sucesso do livro fez com que Levy fosse acusado de plágio. Para a escritora russa Tatiana Garmach-Roffé, o coração da história (acidente, coma, história de amor, crescimento, etc.) reproduz a estrutura de um livro seu, "O Amor sem Memória", que enviou em russo, com um pequeno resumo em francês à editora Robert Laffont em 1994. "É um absurdo", diz Levy, publicado pela mesma Robert Laffont, que, segundo a versão de Levy, decidiu publicá-lo apenas dez dias depois do envio dos originais. "Por que a editora roubaria um livro de uma escritora desconhecida para entregá-lo a outro escritor desconhecido? Não faz sentido. Registrei meu romance antes de apresentá-lo ao editor."Enquanto a russa não consegue provar que a idéia é sua (Marc Levy também rejeita a idéia de que seu livro lembre o filme Ghost, especialmente porque sua personagem não morre), há apenas a versão oficial, um sonho de amor americano escrito por um ex-arquiteto francês (que agora se dedica apenas à literatura; Levy anuncia que sua próxima história de amor vai se passar entre Nova York e Honduras). A propósito, o filho de Levy Louis, já leu o livro. O que não tem importância, segundo o autor: o que vale é que ele o releia no tempo certo.Num mundo em que aviões derrubam arranha-céus, o gênero em que se inscreve Levy (não apenas o de seu romance, mas de todo o melodrama que serve para justificar sua origem) merece, absolutamente, o velho rótulo de alienante. Mas tudo é uma questão de quantidade: consumido em pequenas doses, não chega a fazer mal.

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