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Arquiteto suíço vai mudar a paisagem do centro de São Paulo

Jacques Herzog, do premiado escritório Herzog&De Meuron, fala sobre polêmico projeto do Teatro da Dança

Jotabê Medeiros, de O Estado de S. Paulo,

11 de novembro de 2009 | 03h00

Famoso pelo projeto do Ninho de Pássaro, mirabolante Estádio Olímpico de Pequim, o escritório de arquitetura suíço Herzog & De Meuron prepara-se para modificar a paisagem de São Paulo com o novíssimo Teatro da Dança de São Paulo, na região da Luz.

 

Um projeto de 95 mil m² e custo que pode chegar a R$ 400 milhões (só o desenvolvimento do projeto custou R$ 3 milhões ao governo estadual, segundo adiantou o Estado em março deste ano), no epicentro da Cracolândia, o complexo deverá funcionar como uma nova "âncora" de recuperação do centro de São Paulo. A arquitetura é, como disse em entrevista exclusiva ao Estado um dos sócios do escritório, Jacques Herzog, "o maior sinal da vitalidade da energia cultural de um País". Ele e Pierre de Meuron estão entre os mais disputados arquitetos internacionais do momento.

 

Maquete do Complexo Cultural Teatro de Dança de São Paulo. Foto: Sergio Castro/AE

 

Durante o recente cataclismo financeiro, muitos arquitetos, assim como designers famosos, passaram a ser vistos como profissionais criando brinquedos extravagantes para gente rica, casas faraônicas e condomínios pedantes, projetos para ditadores, símbolos nacionais para países nouveau riche. Que tipo de papel social o sr. acredita que o arquiteto tem?

Arquitetura e urbanismo refletem a realidade de nossas sociedades, hoje e no passado. Arquitetos são muito tentados e geralmente seduzidos por oportunidades oferecidas a eles pelos líderes econômicos e políticos de suas épocas. Aqueles que não usam essas oportunidades para fazer algo mais que exercícios ecléticos e metidos de arquitetura certamente perdem a chance de oferecer contribuições socialmente relevantes. A arquitetura é, idealmente, uma forma de arte pública e só pode cumprir esse papel se investiga e explora todas as oportunidades oferecidas pelos espaços públicos em novos edifícios, os quais vão funcionar e serem aceitos pelo povo.

 

Após seu escritório ser criticado pela criação do Estádio Olímpico de Pequim, o sr. disse que a obra poderia ajudar no processo de abertura e mudança na China. Agora que faz um ambicioso projeto para São Paulo, cidade com grandes problemas de pobreza e criminalidade, que tipo de mudança acha que seu plano pode propor para os habitantes da cidade?

O Estádio de Pequim tem uma vida pós-Olimpíada muito interessante: está aberto a qualquer pessoa e recebe 30 mil visitantes por dia, mesmo cobrando ingresso. Funciona como um parque e tornou-se um espaço público real em Pequim, o que significa mais para a gente do que a atenção e o sucesso durante os jogos. Agora, nosso projeto para o novo centro cultural de São Paulo tem sido, desde o início, concebido como um espaço público - ou mais precisamente como um tipo de topografia pública, um conjunto de plataformas, ruas, praças e plantas acessíveis a todo mundo.

 

A arquitetura de São Paulo tem como marca uma caótica fragmentação: neoclássico italiano, modernismo, pós-modernismo, cortinas de vidro como em Chicago. Qual é a sua visão sobre o mélange que é a arquitetura de nossa cidade?

São Paulo é fascinante para todos aqueles que amam as grandes cidades. Nosso fascínio por São Paulo se deve a essa fragmentada e caótica estrutura onde tantas coisas incríveis podem ser descobertas. Estilo não importa, e o que nós amamos é aquilo que você certamente conhece.

 

A coreógrafa alemã Pina Bausch incluía tudo que a gente vê e sente em uma experiência teatral, viva. Por outro lado, os integrantes da New York School of Music, Painting and Poetry (artistas como Merce Cunningham, Jerome Robbins e Paul Taylor) combinavam e rejeitavam ao mesmo tempo as rivalidades entre dança moderna e clássica, absorvendo aspectos da vida comum, o movimento dos pedestres, o mundo natural e a vida na cidade. Como trabalhar tantas direções distintas da dança moderna em um único edifício? Qual é o maior desafio de projetar um teatro de dança?

Você pode dançar balé clássico em contextos muito contemporâneos e, de outro lado, também pode dançar formatos de dança contemporânea em teatros clássicos. Estamos desenvolvendo um edifício que na verdade não é um edifício isolado no sentido clássico, mas mais uma interseção entre aberto e fechado, público e privado, espaços grandiosos e intimistas nos quais todos juntos vão responder às possíveis necessidades dos usuários envolvidos no plano. Foi projetado para ser atraente - literalmente, para atrair e receber bem todo o povo de São Paulo.

 

Diferentemente dos seus pares, como Frank Gehry, Daniel Libeskind, Norman Foster, Oscar Niemeyer e Zaha Hadid, vocês não têm uma "assinatura" de estilo. Cada edifício que fazem é diferente do anterior. É uma filosofia deliberada? Por quê?

Quando jovens arquitetos, nós procuramos saber o que a arquitetura poderia ser. Não havia tradições a seguir, o modernismo parecia sem sangue, o pós-modernismo estava no horizonte e nós o odiávamos e não podíamos nos identificar com suas atitudes nostálgicas e ecléticas. Nós víamos a arquitetura muito mais como um caminho experimental e descobrimos diferentes campos que nunca tinham sido explorados antes, não do jeito radical que nós começamos a fazer. O minimalismo que só tinha sido desenvolvido como uma estratégia no mundo da arte; a materialidade da arquitetura; a potencialidade do ornamento como um novo conceito holístico para a arquitetura. Esse processo de investigação foi nos primeiros anos uma estratégia para nos estabelecer no mundo da arquitetura e do urbanismo, e logo nós nos tornamos mais e mais convencidos de que aquele era o caminho que procurávamos, e ainda estamos seguindo nele. Muito naturalmente, o resultado desse processo de pesquisa orientado é uma arquitetura sem um estilo claro. Nós vemos isso como uma vantagem, porque nos liberta de algum jeito de repetir o que já fizemos e deixa as portas abertas.

 

Seu trabalho para um anexo da Tate Modern, em Londres, é um tanto diferente de tudo, porque não se trata de criar um novo edifício em um novo espaço. É um pouco como a pirâmide do Louvre, um espaço onde já existe outro edifício. Vocês não têm medo de criar uma extensão que possa ser mais atrativa do que o edifício principal?

Se você faz dois edifícios no mesmo núcleo ou adiciona uma peça a um edifício pré-existente, você inevitavelmente vai se deparar com críticas e vozes em favor disso ou daquilo. Nós estamos trabalhando há muito tempo na Tate Modern Extension e mal podemos esperar para vê-la realizada. Estamos convencidos de que ambos os edifícios - o existente e o novo - necessitam um do outro para funcionar e que são fundamentais para a ambição da Tate Modern de ser um dos grandes museus do século 21. Tanto arquitetural quanto curatorialmente, os dois serão muito complementares.

 

O sr. já imaginou como poderão ser os edifícios do futuro? Pensa em termos de futuro quando desenha novos edifícios?

Nós vivemos agora. Se você pensa em algo mais do que naquilo que você faz agora, ou você pensa em alguém mais do que aquele que você é agora, você está perdido. Fazer um edifício é a mesma coisa. É para o agora, para as pessoas e as necessidades do agora. Se você não presta a maior atenção possível às pessoas e às fontes que você precisa para construir e manter um edifício, sua arquitetura nunca vai funcionar. Nem agora nem em algum ponto do futuro.

 

Muitos urbanistas acham que o futuro da arquitetura depende de descobrir novas tecnologias, matérias e fontes de energia que promovam uma harmonia com o mundo natural. Vocês desenvolvem alguma pesquisa especial nesse sentido quando estão trabalhando num novo projeto?

Nós não somos cientistas. Mas já existem incríveis ferramentas técnicas disponíveis no mercado para incrementar o consumo de energia e outras fontes. Projetos que geralmente começam com grandes ambições de usar essas ferramentas e, infelizmente, fracassam tão logo os orçamentos começam a sofrer cortes... Arquitetos podem se tornar famosos e ter visibilidade em todo tipo de revistas de celebridades, mas o fato é que nós não temos o poder real de transformar nossa sociedade.

 

Sempre ouvimos muito sobre sua arquitetura, mas não conheço muito seus pensamentos sobre paisagismo e interiores.

Oh, nós sempre nos mantivemos muito ocupados desenvolvendo móveis, lâmpadas, interiores. Alguns desses itens estão disponíveis no mercado, distribuídos por companhias como Artemide ou Vitra, e alguns talvez a gente distribua e produza pessoalmente num futuro próximo, por meio de uma plataforma na internet. Paisagismo é um campo no qual trabalhamos desde o início - basta ver nossas propostas radicais para Barcelona (1989) ou a Exposição Mundial em Hannover (1992). Concretamente, acabamos de entregar o plano mestre do que será a base da Exposição Mundial em Milão, em 2015. Trabalhamos num grupo pequeno com Stefano Boeri e Ricky Burdett num conceito focado em agricultura e paisagem como elementos dominantes da mostra - deixando de lado o papel tradicional dos pavilhões nacionais individuais.

 

A arquiteta ítalo-brasileira Lina Bo Bardi, muito respeitada no Brasil e que criou o Masp, na Avenida Paulista, disse uma vez que sua definição de arquitetura era "um homem conectado com os mais urgentes e simples problemas da vida humana, aquilo que na linguagem filosófica se chamava de Lebenswelt, a ‘verdadeira experiência’". O sr. concorda com essa definição?

"Leben" soa bem. A arquitetura molda, expressa e especialmente revela como nós vivemos. Arquitetura é muito psicológica.

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