Arquipélago da razão

Arquipélago da razão

Freud descobriu o inconsciente e viu nele a sexualidade reprimida, certo? Errado. É por isso que ler e reler Freud, de quem acabam de sair no Brasil três dos 20 volumes das Obras Completas traduzidas por Paulo César de Souza (Companhia das Letras), é sempre bom para lembrar como seu pensamento é distorcido ou mal resumido. Ele não descobriu o inconsciente: desde Platão se fala num cerne animal, indomável, da natureza humana, e foi em Schopenhauer que Freud declaradamente encontrou sua inspiração direta, com seu conceito de "vontade" e sua ênfase nos impulsos sexuais. E Freud não viu no inconsciente apenas a repressão sexual, mas muitos processos mentais que não são informados à consciência senão por uma "percepção incompleta e suspeita".

Daniel Piza, O Estado de S.Paulo

04 de abril de 2010 | 00h00

Essa expressão está em Uma Dificuldade da Psicanálise, um dos textos do volume 14, que abrange anos fundamentais (1917-1920) para a revisão de suas primeiras ideias (em livros como A Interpretação dos Sonhos, de 1900, e Três Ensaios de uma Teoria da Sexualidade, de 1905). Nesse texto de 1917, Freud diz que o narcisismo humano sofreu três grandes abalos na história do pensamento: o primeiro quando Copérnico demonstrou que a Terra não é o centro do universo; o segundo quando Darwin mostrou que o homem é um animal como os outros, com equivalências no corpo e na psique; e o terceiro quando a psicanálise demonstrou experimentalmente, mediante o exame de pacientes neuróticos, que o Ego (Eu, na tradução de Souza) "não é senhor em sua própria casa" - o que tantos artistas captaram antes, como Shakespeare.

Reli também o texto anterior, Além do Princípio do Prazer (1920), que não poderia ser mais útil no momento. Ele mostra que em alguns casos, como as neuroses traumáticas, até mesmo a função regular dos sonhos - simular a realização dos desejos - se modifica, porque o paciente se fixa na cena do trauma e não em lembranças saudáveis nem na possível cura. Isso fez Freud perceber que os instintos não são apenas impulsos transformadores, mas também conservadores, pois seguem uma "compulsão à repetição", uma vontade de conservar o estado precedente. Daí revê seu pensamento e diz que não existe oposição entre consciente e inconsciente, "mas sim entre o Eu consciente e aquilo que é reprimido", entre impulsos de vida e morte. O inconsciente quer ser consciente, afinal, e a psique não vive apenas em função de obter prazer e evitar desprazer. Há outros instintos primitivos além da libido - e Freud, que ao contrário de tantos seguidores sabia que havia muita especulação em seus ensaios, lamenta que não os conheçamos.

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Quem também andou relendo Freud é Martin Scorsese, ou melhor, Dennis Lehane, autor do livro (cujo título original é Passageiro 67) adaptado para o filme Ilha do Medo. É um filme freudiano e, como dificilmente poderia deixar de ser, hitchcockiano. E é um baita filme, injustamente descrito como "mais do mesmo" da parte de Scorsese, que jamais trabalhou tanto com a violência psicológica em vez da física. Teddy Daniels, o personagem de Leonardo DiCaprio, como sempre nas histórias de Lehane (Sobre Meninos e Lobos), é um traumatizado, e duplamente: sofreu o trauma da Segunda Guerra, na qual se viu matando com a mesma prazerosa crueldade aqueles que odiava por fazerem isso; e sofreu o trauma familiar, depois de se deparar com o que a mulher tinha feito aos filhos. O filme nos põe dentro de suas alucinações neuróticas.

Scorsese cortou algumas informações do romance, porque não caberiam todas num filme só, como a cena do sexo entre os duplos e uma que me parece ainda mais importante, na perspectiva freudiana: o xerife teve outro trauma, na infância, que foi o afogamento do pai. Mas o filme segue o livro quase passo a passo e extrai sua força da encenação e do fato de que ela é guiada pela metáfora do título original, Shutter Island, que remete a fechar ("shut") e também ao obturador ("shutter") da câmera, ou seja, ao mecanismo que regula a entrada de luz. A fotografia do filme lida com isso o tempo todo, da luz forte que o ofusca, levando à enxaqueca, às luzes que lutam com as sombras. Este é o caso das duas grandes cenas: o momento em que tenta ver o rosto de quem imagina culpado e risca fósforo atrás de fósforo como se a lucidez lhe escapasse; e o encontro com Rachel na caverna platônica, onde ela explica a condição do louco, cujos momentos "normais" só reforçam a classificação.

Outra bela passagem do livro e do filme é aquela em que ele vai à torre onde supostamente se fazem experimentos de lobotomia, mas ela só tem um guarda que é uma criança com rifle desarmado. É uma metáfora da falta de mecanismos de defesa para proteger as verdades mais recônditas, e que Freud explica da seguinte maneira em outro texto do volume, Introdução a "Psicanálise das Neuroses de Guerra": "Nas neuroses de guerra (...), o Eu do indivíduo se defende de um perigo que o ameaça desde fora, ou que é corporificado numa postura do próprio Eu; (...) o que se teme é, afinal, um inimigo interno." Os sósias dele e da esposa moravam em sua mente. Apesar de enfático demais na música e na interpretação de DiCaprio, o filme é mais enigmático que o livro, porque deixa em suspenso se estamos vendo fatos reais ou imaginados ou quais são eles. Mas, por mais que nos sintamos dentro de um artifício bem ao gosto atual, um jogo de quebra-cabeça (vide Shyamalan, David Lynch, Haneke, Lars Von Trier, etc.), o espectador se projeta na narrativa e percebe a insuficiência de nosso autoconhecimento. E nada mais freudiano que isso.

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A grande contribuição de Freud não foi apenas chamar atenção para a mobilidade dos impulsos sexuais diante dos mecanismos repressivos, a qual se traduz nas representações do sonho, mas também pôr em questão a unidade psicológica. A obra de Lehane e Scorsese satiriza a crença em pílulas salvadoras, que subestima a maneira como a memória pode refazer circuitos em outras áreas além daquelas afetadas pela medicação. Freud hoje acompanharia com enorme interesse - ao contrário de muitos discípulos, volto a dizer - as pesquisas com imagens do cérebro e os tratamentos com drogas diversas; e também concordaria com autores como Oliver Sacks que investigar a história pessoal é fundamental na cura. A consciência é uma chama em constante luta para não se apagar em definitivo, e para iluminar um pouco a seu redor. Não é uma voz unificadora, com comando pleno das informações que se processam ali dentro.

O que, porém, mudaria em seu pensamento? Como os textos depois da Primeira Guerra indicam, acho que ele buscaria entender as outras forças da "herança arcaica" que se imprimem em nossa conduta, pelo caminho da experimentação científica, pois não acreditava em metafísica e "inconsciente coletivo". E assim tentaria ir além do dualismo que já o incomodava muito no final da vida, pondo a ênfase nas interações entre inconsciente e consciente e revendo o conceito do complexo de Édipo, que parece pesar sobre a natureza humana como um pecado original, como se a libido fosse um estoque de energia sexual pronto a se perder em perversões. Talvez não tivesse uma visão da razão como uma espécie de ilha no oceano de atividades cerebrais, e a visse mais como um conjunto de ilhas próximas, com correntes marinhas em comum - um arquipélago de onde podemos observar a guerra ao redor, ajustando a vista às luzes.

Por que não me ufano. José Serra e Dilma Rousseff se despediram de seus cargos na quarta e fizeram discursos de abertura da campanha presidencial. Se realmente essas falas derem o tom dos próximos seis meses, como dizem os analistas políticos, então o cenário é triste. Serra criticou a roubalheira e disse que o Brasil precisa melhorar, mas não falou como fará isso. Dilma pregou a continuidade e exaltou o crescimento do período Lula. Depois de 16 anos de uma política baseada no dueto estabilidade monetária & assistência social, iniciado pelo governo FHC e aprimorado pelo governo Lula (mais crédito e mais bolsas, por exemplo), pelo jeito o máximo que a dupla de candidatos tem a dizer é que vai investir na infraestrutura; se Serra exibe obras como Rodoanel, Dilma propagandeia o PAC-2, a segunda parte do Programa de Aceleração da Campanha.

Primeiro, em ambos os casos, o setor continua muito abaixo do prometido, com muitas obras atrasadas, caras e maquiadas, e para dar um salto será necessária a criação de um ambiente produtivo muito mais adequado do que o brasileiro, com suas burocracias, impunidades e taxas. Segundo, assuntos como educação precisam ser encarados a sério. No governo estadual, os professores tiveram só uma correção de 5%; no governo federal, o conteúdo do ensino continuou a ser um vexame internacional. E as reformas política e tributária? Não haverá nada além da melhora inercial, nos próximos anos, se elas não forem feitas. A questão será ver quem quer e pode.

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