Arquétipo do fora da lei americano

Estudo publicado nos EUA diz que a prosa de Henry Miller segue uma deformação cultural do país: o anti-intelectualismo

Sheila Heti, Bookforum, O Estado de S.Paulo

10 de março de 2012 | 03h10

Numa carta endereçada à sua amante Anaïs Nin, Henry Miller escreveu que possivelmente ele era o único escritor do nosso tempo que tinha a sorte de escrever apenas o que lhe dava prazer. Este tipo de hipérbole caracterizou o monólogo, audacioso e pornográfico, do romance Trópico de Câncer, publicado nos Estados Unidos há 50 anos (depois de a Suprema Corte anular sua proibição).

Agora, em Renegade (Renegado), o acadêmico Frederick Turner faz uma reavaliação dessa obra, defendendo que o livro e o seu autor são tão intrinsecamente americanos quanto Walt Whitman e Mark Twain. O trabalho de Turner faz parte da série da Editora da Universidade de Yale intitulada Ícones da América, que contempla tesouros nacionais como a Estátua da Liberdade, o hambúrguer, Jackson Pollock, Bob Dylan, Fred Astaire, outros homens mais e uma única mulher: a stripper Gipsy Rose Lee. O objetivo desta série é oferecer "uma nova e original visão da história e da cultura americanas", por meio desses ícones. E Turner remonta à peregrinação de Miller na metade do século 20, pelos meandros obscuros da história dos Estados Unidos, até os "caçadores de búfalos, os colonizadores, os matadores de indígenas e os bandidos das pocilgas urbanas e da zona rural" da jovem nação, afirmando que Henry Miller (conscientemente ou não) adotou como modelo para si próprio e seus livros o arquétipo do fora da lei americano.

O protagonista de Trópico de Câncer (o alter ego de Miller) é um aventureiro que, segundo Turner, foi enviado para "explorar... o deserto da cidade".

E esse deserto urbano, Miller descobre, inspira os mesmos sentimentos medonhos que caracterizaram os primeiros exploradores americanos - xenofobia, arrogância, violência e ilegalidade. Turner também assevera que a prosa de Henry Miller é parte de uma profunda deformação na cultura americana que desconfia de qualquer coisa que cheire a intelecto, especialmente a literatura, e exalta a conversa, adora contar bazófias: não é só um peixe, mas o maior peixe. Ora, no caso de Miller, não era somente uma vagina, mas a maior vagina. É uma boa história e funciona para tornar Trópico de Câncer uma obra mais americana do que nunca.

Mas seria bom se Turner tivesse feito um relato convincente de Henry Miller, o homem... Pelo contrário, ele retorna à antiga história que o próprio Miller contava a seu respeito - faz uma caricatura de uma caricatura.

Turner retrata o processo de criação do romancista de maneira excessivamente simplista: "As coisas simplesmente jorravam como se Miller tivesse instalado uma torneira ligada diretamente na fonte".

Talvez exista alguma verdade nisso - talvez Miller estivesse atravessando um período de sorte - mas a linguagem é negligente. Qual era a "fonte", afinal? Deus? Ambição? Libido? Vingança? É uma pergunta interessante, na qual Miller e seu psicanalista, Otto Rank, estavam profundamente envolvidos. Mas Turner não chega até lá. Inversamente, o que ele nos oferece é: "Talvez fosse essa luta feroz, solitária, para se tornar um escritor, que o despojou não só de suas pretensões e ilusões, mas tirou também tudo o que havia de humano nele, restando unicamente o escritor, o artista".

Esta, porém, não é uma imagem romântica do artista - um ícone, um fora da lei do interior primitivo - que escreveu Trópico de Câncer. Mas de alguém que visitava o analista.

Henry Miller escreveu certa vez que "a arte consiste em ir ao extremo. Se você começa com tambores tem que terminar com dinamite ou TNT".

Trópico de Câncer nos remete à eterna preocupação do escritor de penetrar inteiramente no que há de mais primitivo do ser - um modo de vida inspirado que o mundo busca "esmagar" no seu medo e ódio do "milagre da personalidade", como afirmou o escritor.

O grande êxito de Trópico de Câncer foi como suas cadências extáticas conseguiram personificar a pura alegria de viver, expressar um ideal de vida completamente livre, sem neuroses ou preocupações.

E como seria muito mais interessante e útil se hoje, quando nos referimos a Henry Miller (ou qualquer artista) nós prometêssemos ir também até o extremo. Significaria não eliminar a complexidade, o paradoxo e o humor que tornam uma vida humana o que ela é, humana, embora esta seja uma operação necessária para criar um ícone.

"O modelo que Miller se erigiu" não era, como Turner escreve, "heroico ou heroicamente impossível". Era uma visão a aspirar, como a visão de qualquer artista. Henry Miller foi um homem que escreveu cada palavra num momento em que enfrentava a dor de um casamento arruinado e as humilhações da pobreza e que, como cada um de nós, viveu diariamente o sutil e inefável "milagre" de existir. Talvez falar dessas coisas ainda seja obsceno, mas ler como uma pessoa penetrou no deserto interior e escreveu Trópico de Câncer seria TNT. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

©Bookforum, Feb/Mar, 2012, por Sheila Heti

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