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Humberto Werneck
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Arqueologia sentimental

E aí, assim do nada (como se fosse possível), você se lembra de uma pessoa há muito diluída no passado: que fim levou? Por onde anda, se é que anda? Muitas vezes, morre nesse ponto a vontade de atualizar lembranças que, aparentemente sem motivo, a memória regurgita. Morre por não valer tanto a pena; por preguiça; por medo de que, reaberto o baú, dele saltem miasmas e esqueletos do que não convém ressuscitar.

HUMBERTO WERNECK, O Estado de S.Paulo

16 de março de 2014 | 02h09

Não estou inventando (li num velho exemplar da revista Realidade) a história da mulher madura que, décadas depois, vira uma esquina e dá de cara com o deflagrador dos sentimentos que um dia convulsionaram seu coração de moça. Fisicamente, por detrás da flacidez generalizada e sob os cabelos ralos de quem já teve topete (e em mais de um sentido...), até que restou alguma coisa do objeto daquela paixão.

Mas que tristes são as coisas, diria Drummond, consideradas sem ênfase. De pé ali na esquina, ela teve a temerária ideia de perguntar ao ex-moço o que anda fazendo - e o que ele anda fazendo, meu Deus, é trabalhar como representante de um pó para fixar dentaduras.

Se nas histórias da vida real houvesse trilha musical, caberiam agora, subitamente impregnados de mau gosto, os acordes de Lábios Que Beijei. Tudo bem, é bom que as dentaduras, quando fora do noturno copo d'água, permaneçam firmes no lugar, o que sem o pó específico pode ser problemático - mas precisava desse prosaísmo que, retroagindo, veio aniquilar o que restava de gostável nas lembranças? Só a vida, resumiu o Guimarães Rosa, é que tem dessas rústicas variedades.

Já que me apoiei na muleta das citações, vou em frente - e recorro a outra voz afiada, a de Antônio Maria, que numa crônica antológica (até literalmente: está na coletânea Boa Companhia: Crônicas) descreve o seu encontro acidental com uma ex-namorada, os dois de repente enredados numa viscosa mescla de embaraço, cerimônia e dolorida nostalgia. Na falta do que dizer, ele faz uma pergunta, e logo se arrepende: "Como é melancólico chegar-se à paz tão perfeita de perguntar-se pela saúde da pessoa que se amou".

Se reencontros ao acaso tantas vezes já nos proporcionam momentos penosos, para que remexer deliberadamente no passado? Sei dos riscos, e até paguei contas pesadas; mas sou a favor da arqueologia sentimental. Sou dos que vão atrás de saber de alguém que, tendo sido em nossa vida uma presença relevante, por fratura ou mero esgarçamento desapareceu de cena. Vou atrás, não com a veleidade ingênua de entronizar essa pessoa no lugar que ocupava e viver tudo de novo, mas para não deixar em mim algum fio desencapado.

Pode ser amargo o fruto da pesquisa arqueológica, mas acho que ainda assim vale a pena a aventura de ir buscá-lo. Não custa pensar naquele camarada que saiu de Lisboa para comprar noz moscada na Índia e, atolado numa calmaria, acabou por descobrir um Brasil. Ou na Philomena, a extraordinária personagem do filme - uma história real - a que deu nome, decidida a tudo, na velhice, para saber do filho que lhe tomaram quando, jovem mãe solteira, vivia por isso encarcerada num convento na Irlanda.

Com ou sem sentimentalidade, aliás, vejo aí um esplêndido filão para uma imprensa que se disponha a fugir do previsível: a retomada do que chamo de carcaça de notícia - assuntos que nós, repórteres, tratamos intensivamente e depois abandonamos no caminho, frustrando o leitor que se pergunta: mas, afinal, no que deu a história? O que foi feito de fulana ou fulano?

A quem vem este papo? Vem a propósito da história que contei aqui faz um mês, da moça de 18 anos que ao se casar, num subúrbio carioca, quis como presente que lá comparecesse, com um discurso para a ocasião, o poeta Paulo Mendes Campos, cujas crônicas na revista Claudia ela não perdia.

Se você leu e se lembra: este sonho, a Thereza viu realizar-se. E quanto aos demais? Foi o que, meio século depois, a repórter Clarissa Thomé e o fotógrafo Marcos de Paula, do Estado, batalharam para saber. Como no caso da Philomena, nada correu à maravilha - sem que com isso se possa dizer que a história, ainda em curso, não teve um bonito desenrolar.

Mas chega de papo. Se eu fosse você, ia correndo reencontrar a Thereza, aqui pertinho, no caderno Aliás.

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