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Humberto Werneck
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Arqueologia afetiva

Tenho andado em busca de pegadas de Carlos Drummond de Andrade em Belo Horizonte, onde o poeta viveu os anos cruciais de sua formação – entre 1919, depois que um colégio de jesuítas de Nova Friburgo lhe deu bilhete azul por “insubordinação mental”, e 1934, quando, já pai de família, ele se mandou para o Rio de Janeiro. Falta apurar se ainda existe, na praça da Estação, o prédio do Hotel Internacional, pouso de chegada da família na cidade e em cujo térreo ele pôs pela primeira vez os pés num jornal de verdade. Não longe dali, segue firme o viaduto cujos arcos Drummond transformou em passarela, trafegando a quase 20 metros de altura. E não deve ser difícil saber onde ficava a casa em que, certa madrugada, ele e Pedro Nava tocaram fogo, recurso extremo para ver de camisola as moças da família Vivacqua. Não deu certo, e ainda pegaram fama de incendiários.

Humberto Werneck, O Estado de S. Paulo

18 Agosto 2015 | 02h00

Alguma coisa, portanto, já está na mão – mas quero muito mais. Gostaria mesmo é de ter coincidido com Drummond na sua mocidade belo-horizontina. Cheguei tarde: quando ali pousei, desdentado e analfabeto, já fazia onze anos que o poeta tirara o time. Há pouco tempo, encontrei consolo ao saber que no prédio da maternidade onde nasci, o Hospital São Lucas, morava àquela altura dona Julieta Augusta, que vinha a ser a mãe do poeta. 

Dessas coisas que talvez só em Minas: viúva e já sem filhos que cuidassem dela, dona Julieta Augusta, ainda em gozo de saúde, como se usava escrever nas cartas, encontrou abrigo não em hotel, mas naquele hospital. Entrou em 1941 e só saiu para morrer, sete anos mais tarde, na sua Itabira. De vez em quando, sem fazer marola, Carlos vinha do Rio para estar com a mãe. Num acesso de apoteose mental, imagino o dia, digamos 10 de fevereiro de 1945, em que o papo dos dois foi perturbado pelo choro sem descanso de um renascido. “Chatinha, essa criatura”, terá reclamado o quarentão Drummond, já distante daquele 1927 em que teve em casa o berreiro da filha única, Maria Julieta. “Repara não, Carlito”, terá suspirado a mãe, “é só um futuro cronista querendo chamar atenção...”.

Não sou o único, é claro, a se ligar em lugares onde aconteceram coisas. Tenho o gosto da arqueologia sentimental. Já me peguei pensando no que em outras eras pode ter acontecido neste cubo de ar que é hoje o escritório onde perpetro estas e outras trivialidades. Terá transitado por aqui, antes da minha, uma cabeçorra de mamute, talvez mais iluminada? Na juventude ainda, eu passava um fim de semana em Belo Horizonte quando uma apendicite me devolveu ao Hospital São Lucas, fundado por meu avô Hugo e situado num canto da praça que hoje tem o nome dele. A circunstância de ter nascido ali me fez sentir-me em casa – mais do que isso, no útero. Pena que o encantamento tenha sido rispidamente desfeito por uma infecção hospitalar só debelada semanas mais tarde, já de volta a São Paulo, graças ao olho literalmente clínico do dr. Luís Sterman.

Tenho o gosto, também, dos registros históricos. Quando meus filhos nasceram, guardei para eles os jornais do dia e do dia seguinte, sem esquecer os cadernos de classificados; ainda não me animei a perguntar o que foi feito daquela papelada. Por descuido meu, esqueci de copiar, como planejara, na secretaria da maternidade, os nomes do pessoalzinho que chegou ao mundo no mesmo dia e local, apostando num futuro que viesse confirmar camaradagens de berçário. 

Fotografei meu filho, adolescente, diante da Maternidade São Paulo, na rua Frei Caneca. Fiz bem: outro dia, passando por ali, me dei conta de que o prédio da maternidade recentemente foi ao chão. Logo agora que a descoberta de uma coincidência me levou de volta àquele ponto da cidade – lugar que para mim, mineiro transplantado, veio ganhar importância: naquela quadra, desenhada pela avenida Paulista e pelas ruas Frei Caneca, Antônio Carlos e Ministro Rocha Azevedo, não só nasceu meu filho como, 43 anos antes, morreu o já citado avô paterno, carioca que uma tuberculose convertera em mineiro e que outro mal trouxe a São Paulo, para morrer no há muito extinto e demolido Instituto Paulista.

Mas a que vem essa febre maluca que outra vez se acende em mim? Melhor anotar aqui, de público, para que me lembrem se esquecer: preciso, urgentemente, voltar ao Hospital Samaritano, e fotografar, antes que venha ao chão, o prédio em que, faz hoje uma semana, desembarcou o infante Valentim Quintanilha Werneck, para ser um instantâneo e irrevogável amor neste coração de avô. 

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