Armando Lôbo e suas 'Técnicas Modernas do Êxtase'

Excesso ou ausência do medo da morte. São os extremos que podem revelar um profundo medo da vida. Armando Lôbo encontra o equilíbrio ao celebrar o gozo de toda a vida em "Técnicas Modernas do Êxtase", seu terceiro disco, lançado pelo selo Delira Música. Como o disco representa o arrebatamento, em suas mais variadas formas, o compositor bateu o pé até convencer a produção que, para divulgar o seu trabalho, release algum deveria ser escrito e enviado a imprensa. O disco deve possuir o ouvinte. O êxtase não pode ser explicado. "Eu até tinha pedido ao selo Delira para segurar o release, pois acreditava que o disco poderia comunicar pela sensibilidade", explicou.

ROGER MARZOCHI, Agência Estado

09 de setembro de 2011 | 10h37

O Lôbo do ouvinte ficou feliz em explicar apenas que este disco marca uma transição em seu trabalho: a partir de agora produzirá obras-conceito. Assim como "Suíte do Náufrago", do grupo À Deriva, é um exemplo de uma "música instrumental brasileira erudita", "Técnicas Modernas do Êxtase" é o mais puro expoente de algo que poderia se chamar "ópera": o êxtase é total da primeira à última música do disco. Em seu site na web (www.armandolobo.com), um texto divulgado tempo após o envio do disco às redações de jornais amplia seu sentido:

"Sim, o Êxtase não limita! As referências cruzadas e a mistura de tempos históricos são propositais no trabalho, tanto técnica quanto poeticamente. A obra homenageia de forma multifacetadamente pós-moderna o espírito do Barroco e Romantismo - por isso a presença de poemas de Santa Teresa d?Ávila e San Juan de la Cruz, da música de Richard Wagner e Gustav Mahler (que é homenageado pelos 100 anos de seu falecimento), e a citação do movimento literário pré-romântico ''Sturm und Drang''. A influência de um romantismo mítico também desponta no uso sombrio da temática folclórica, como o confirma a versão de ''Matinta-perêra'', do saudoso compositor paraense Waldemar Henrique. O disco resgata ainda a figura do poeta necrófilo mineiro Conde Belamorte, grande artista do verso grotesco e parnaso-simbolista, que vive atualmente esquecido em uma vila no bairro de Bangu/RJ. O poeta é autor do poema de ''Atrás das Máscaras'', espécie de manifesto anti-carnavalesco, moralista, violento e visceral."

Mas a obra não reflete um prazer mórbido. O êxtase é retratado no momento a vir, na transcendência, na transição, no renascimento. Independentemente do que causa o fim de uma vida, há nesse momento uma transmutação que, para alguns, é o caminho para o céu, inferno ou purgatório; para outros, espírito que volta à Terra várias vezes; para outros, renascimento mesmo. Mas para os ateus a morte é o fim completo. E ponto final.

O CD pulsa o êxtase do belo, da vida, do prazer de toda a fé, independentemente do que virá. E se acaso houver uma transcendência, para o além ou para o nada, existe agora mesmo anjos cantando "Morte em Veneza", a última música do disco, que o Lôbo da música divide com Gustav Mahler, numa livre adaptação do Adagietto de sua Quinta Sinfonia: "Vou pelas ruas, busco o relógio. Caio Sentado. Sinto o sol se aproximar. Se aproximar, se debruçar no horizonte. Sol! Vem me buscar, vem me buscar... Hoje à noite."

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