Árido Groove

Lambada, Fellini, Erasmo Carlos, Nancy Sinatra. As referências que a cantora e compositora Céu enumera vão ao encontro da sensação que as primeiras audições de seu terceiro disco provocam: seu som mudou. A pulsação que pendia pro reggae e pro samba agora aponta para algum lugar entre o brega nordestino e o rock. As letras projetam a imagem recorrente da estrada e a produção é mais crua. As composições próprias, maioria absoluta no repertório gravado nos dois discos anteriores (Céu, de 2004, e Vagarosa, de 2009), são apenas seis entre as 13 faixas do recém-lançado Caravana Sereia Bloom. E até a voz, que sempre saltava à frente nos arranjos, agora aparece um pouco menos cintilante na mixagem. O desvio de rota até poderia levá-la para um beco sem saída, mas Céu encontrou o atalho para escapar do caminho fácil da continuidade comportada, sem ousadia.

RAMIRO ZWETSCH , ESPECIAL PARA O ESTADO, O Estado de S.Paulo

11 de fevereiro de 2012 | 03h10

Ela não chegou lá por acaso, havia um norte a ser perseguido mesmo antes de as gravações começarem. A imagem de beira de rodovia que aparece no clipe divulgado da faixa Retrovisor guiou o processo desde o início - há cerca de um ano e meio - e todo o material que surgia era guardado em uma pasta de seu computador batizada como "estudos da estrada". Os compositores Lucas Santanna e Jorge Du Peixe (vocalista da Nação Zumbi) foram convocados a escrever sob essa inspiração e o produtor do disco Gui Amabis - autor do bem falado Memórias Afro-Lusitanas (de 2011) e pai da filha da cantora, Rosa, de 3 anos - levou também seu punhado de 'road songs'. Céu, que a princípio queria compor ainda menos pro disco, acrescentou seus versos e as canções agrupadas deram liga, esboçaram um roteiro que reflete a experiência da vida nômade de artista. As versões do rocksteady You Won't Regret It (de Lloyd Robinson e Glen Brown) e do samba Palhaço (de Nelson Cavaquinho, registrada sob inspiração 'felliniana' e com o pai de Céu, Edgard Poças, dedilhando uma valsa ao violão) completam o diário de bordo.

"Toda viagem é uma saída da zona de conforto. Em São Paulo eu tenho minha família, minha casa, minhas coisas. Em turnê, de repente você vai ter outras pessoas em volta, acordando, dormindo e comendo com você. É muito legal, mas cansa, você volta um bagaço", ela ri, prestes a cair na estrada com o novo disco e a velha banda, Brasil e mundo afora.

Essa ambiguidade não foi só ponto de partida, como também indicou o caminho de alguns arranjos. Sereia e Fffree, as duas faixas em que Céu toca tudo além de cantar, surgiram como esboços registrados nas turnês. Embora não fosse o plano gravar daquele jeito cru, a cantora foi convencida pelo produtor e pela banda a preservar o estado bruto delas. "Eu assumi umas coisas de rascunho do (software) garage band, sabe? Isso rola muito na estrada, ter uma ideia e anotar. Não é tosco mas é simples." Mesmo a voz, antes regravada quantas vezes fossem necessárias, foi registrada em poucos dias e takes. "O Gui levanta muito a base do jeito dele e a galera se norteia pelo que ele faz."

A produção também destaca a guitarra de Dustan Gallas, talvez o mais efetivo entre os vários instrumentistas que tocam no disco - os bateristas Bruno Buarque, Curumin e Pupillo, os guitarristas Fernando Catatau e Lúcio Maia, os baixistas Lucas Martins e Dengue, o saxofonista Thiago França, as cantoras Anelis Assumpção e Thalma de Freitas, etc.

Os timbres e o acento tanto em solos como nos riffs ajudam a pincelar a paisagem árida de asfalto, mato e terra. O rock reverbera no ataque das seis cordas, mas por filtros bem específicos. "Amo Jimi Hendrix, piro em Velvet Underground, mas não é essa referência. É mais jovem guarda, Nancy Sinatra, Erasmo Carlos", explica. "Eu estava ouvindo coisas que eu realmente não ouvia antes: discos da origem da lambada, coisas de guitarrada, carimbó. Esse é um disco mundano, a palavra é essa." Essa é a Céu de Caravana Sereia Bloom.

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