Ariano Suassuna saúda Obama na Fliporto

Autor de 'A Pedra do Reino' só espera que ele não se comporte como Condoleeza Rice

Antonio Gonçalves Filho, de O Estado de S. Paulo,

07 de novembro de 2008 | 19h50

A eleição de Obama marcou a abertura da quarta edição da Festa Literária de Porto de Galinhas (Fliporto) dedicada ao tema Trilhas da Diáspora: Literatura em África e América Latina. Do discurso do governador de Pernambuco, Eduardo Campos, à aula-espetáculo ministrada pelo escritor paraibano Ariano Suassuna, o novo presidente norte-americano foi saudado como um exemplo para o Brasil, formado com a histórica participação dos povos africanos. O autor de A Pedra do Reino, ao apresentar o espetáculo Nau, idealizado por ele para revisitar justamente as tradições africanas, indígenas e portuguesas, brincou e finalizou suas observações sobre o presidente americano eleito com uma comparação com Condoleeza Rice: "Espero que Obama se comporte melhor que ela". Nau, o novo espetáculo dirigido por Suassuna, já foi visto por 45 mil pessoas em Pernambuco, estado do qual Suassuna é secretário de Cultura. Com músicas de Antônio Madureira, seu colaborador desde os tempos da criação do Quinteto Armorial, Nau tem a participação do próprio autor e do grupo Arraial. Os cenários são de autoria de Dantas Suassuna, filho do escritor, e a coreografia de Maria Paula Costa Rêgo, que descobriu novos talentos de dança numa favela de Porto de Galinhas ironicamente chamada Chão de Estrelas, entre eles um excepcional, o bailarino Gilson Santana. Ao destacar, emocionado, sua presença no palco, além de outros bailarinos saídos do âmbito da cultura popular, como Pedro Salustiano e Jáflis Nascimento, Suassuna justificou seus esforços para montar o espetáculo itinerante "Nau", marcado pela linguagem da dança e a polirritimia popular, traduzida em peças que evocam algumas das principais referências da cultura brasileira (maracatu, frevo, maxixe, dobrado, toré e canções de inspiração ibérica). Suassuna insiste que o encontro de artistas populares com músicos de formação erudita como os do grupo que tocou no espetáculo de abertura da Fliporto norteia seu trabalho na Secretaria de Cultura de Pernambuco. Seu projeto A Onça Malhada, a Favela e o Arraial, do qual faz parte o espetáculo Nau, segue uma estratégia de resistência contra o que o escritor chama de " processo de descaracterização e vulgarização da cultura brasileira". A apresentação na Fliporto, disse, não foi uma concessão para agradar os escritores africanos convidados, entre os quais se encontram autores de Moçambique (Paulina Chiziane), Angola (Agualusa, Ondjaki e Pepetela), Guiné Bissau (Tony Tcheca) e outros países do continente. O curador da Fliporto, Antônio Campos, disse na abertura que a escolha do tema da diáspora africana é mais do que natural, por ser o balneário Porto de Galinhas um antigo porto de tráfico de escravos. Apostando não só nesses premiados autores como em nomes menos conhecidos, ele reafirmou seu compromisso de fazer da festa literária não um veículo de entretenimento, "mas de formação humanística", concluindo que a abolição da escravatura é um trabalho ainda processo "que precisa incluir os deserdados".

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