Ariano Suassuna clama por identidade cultural

Ariano Suassuna, convidado especial do seminário Conteúdo Brasil, realizado hoje no Tuca, numa promoção conjunta da PUC de São Paulo com a Rede Globo de Televisão, não deixou por menos. Sobrou até uma crítica aos promotores do encontro pela inclusão, no programa, de um ?coffee break? entre sua palestra e a formação dos grupos de discussão com notáveis como o cineasta Hector Babenco, o ator Antonio Fagundes e o escritor Zuenir Ventura. Não exatamente por causa da ?pausa para o café?, mas porque os organizadores permitiram o contrabando de uma expressão americana num seminário destinado justamente a repensar os rumos da produção cultural brasileira.O acadêmico paraibano é autor de O Auto da Compadecida e criador do Movimento Armorial, que defende há 30 anos a preservação da cultura nacional. Sua palestra não foi muito diferente do infatigável discurso contra o colonialismo cultural que repete todas as vezes em que ouve o nome de Michael Jackson e Madonna, os dois crucificados em sua aula-espetáculo aos participantes do seminário. Para provar que nem mesmo ele, quando jovem, escapou da lavagem cerebral colonialista, Suassuna lembrou de um antigo filme de George Stevens, Gunga Din, de 1939, em que três soldados ingleses reprimem um levante de rebeldes na Índia do século 19. Detalhe: com a ajuda de um carregador de água indiano de pele escura, que sonha ser um militar britânico loiro e de olhos azuis. ?Lembro que chorei quando Gunga Din morreu e foi enterrado com honras de herói?, revelou, estabelecendo uma correspondência entre guerra imperialista e colonização cultural.Suassuna, que detesta viajar, aceitou participar do seminário por acreditar que o brasileiro é capaz de escapar à síndrome de Gunga Din, reencontrando sua identidade perdida. ?Fico me perguntando se virei paranóico, mas parece claro que existe uma política de dominação por trás de tudo isso?, referindo-se à realidade transcultural do mundo globalizado. ?Se, antes, os Estados Unidos mandavam porta-aviões para dominar um país, hoje basta mandar Michael Jackson ou Madonna?, resumiu. Citou como exemplo de fusão híbrida ? ou bizarra, considerando sua expressão ? a música do pernambucano Chico Science, inventor do ?mangue-beat?, mistura de maracatu com rock.O escritor e dramaturgo, que ocupa a cadeira 32 da Academia Brasileira de Letras, criticou a influência da cultura estrangeira citando o escritor russo Boris Pasternak, autor de Doutor Jivago, um autor nacionalista banido pelo regime soviético e, segundo Suassuna, tão importante como Tolstoi. ?Como Pasternak, digo que é preciso cerrar os dentes e compartilhar o destino de nosso país.? E qual é esse destino? Não é o de preservar a cultura brasileira numa redoma, esclarece. É, sim, preservar as manifestações regionais e evitar um genocídio cultural. ?Como Michelet, acredito que uma nação se torne uma alma e que violar essa alma seja um crime?, concluiu, referindo-se ao historiador, apóstolo do nacionalismo francês no século 19.Suassuna também citou o sociólogo italiano Domenico De Masi, que critica a obsessão consumista nas sociedades pós-industriais e defende a idéia do ócio criativo, a mesma esboçada pelo escritor paraibano em sua peça Farsa da Boa Preguiça, de 1960. ?Esse é o caminho para nossa libertação?, sugeriu.

Agencia Estado,

12 de fevereiro de 2004 | 18h19

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