Sérgio Neves/AE
Sérgio Neves/AE

Ari coração-de-boi

A vida e a obra do zagueirão corintiano que atravessou o caminho de Pelé e foi condenado por um ‘e se...’

CHRISTIAN CARVALHO CRUZ, O Estado de S. Paulo

23 de outubro de 2010 | 15h41

 Opa! Aquele é o Ari Clemente? O Ari Clemente do Corinthians? Aquele do pontapé que quase tirou o Pelé da Copa de 58? O rottweiler que deixou os campos e entrou para a história soterrado pela reputação de “violento”, “duro”, “desleal”, “conhecido por sua maldade”, o homem do “carrinho por trás”, da “sanha”, da “rasteira”, da “caixa de ferramentas”? É aquele senhor ali encolhido no sofá da sala, as pernas juntas equilibrando uma bandeja, e se fartando de duas mangas coração-de-boi? Ari Clemente do Corinthians? “Eu mesmo, ao seu dispor”, ele diz, já de pé, enquanto limpa os lábios com as costas da mão esquerda e estende a direita num cumprimento molenga. O “ao seu dispor” é resquício dos 11 anos que trabalhou como recepcionista da diretoria do Banco Safra, depois de pendurar as chuteiras, em 1971.

As mãos do Ari são enormes. Os cabelos, grisalhos e poucos. Os olhos estão meio embaçados, mas a queixada é a mesma de antigamente. A boca exagerada também. O corpo de 71 anos continua musculoso. E os chinelos pretos de couro, desmanchando de tão velhos. “Senta. Não repara na bagunça. Eu ia começar a ver o jogo do Barcelona.” A “bagunça” são os bordados, almofadas e toalhas que a dona Elenita, mulher do Ari, uma alagoana arretada, faz para engrossar a féria da família. “Hoje em dia o meu véio é craque nisso aqui, ó”, ela se empolga, esticando uma bolsinha preta com miçangas brancas, autoria do casal. “Ele me ajuda muito, sabe? Corta os panos, vai comigo na 25 de Março comprar as coisas...” O Ari ri, encabulado.

 

Quarta-feira, quatro e meia da tarde. O Ari Clemente que abre sua casinha de quarto-sala-cozinha-banheiro no Imirim, zona norte de São Paulo, e se ajeita diante da antiga TV de tubo, embora chupando manga, não se parece com o Cão que a lenda pintou. Ele já sabe o motivo da visita: Pelé fazendo aniversário redondo, o septuagésimo, e não querendo dar entrevistas... Bem, sempre sobra pros coadjuvantes do Rei. Até que fazia tempo que não procuravam o Ari. Ele jogou no Corinthians e no Bangu nas décadas de 60/70. Era um lateral-esquerdo parrudo, de 1,80 m e 83 kg, nada a ver com esses de hoje, que vão ao ataque, fazem cruzamentos, gols e outros bichos. “Eu era marcador de ponta-direita.” Ponto. Tinha uma missão simples e única: impedir a passagem do atacante adversário que vinha com gracinhas por aquela beirada do campo. E o Ari pegou muito engraçadinho pela frente, os melhores que o Brasil já teve: Garrincha (Botafogo), Jair da Costa (Portuguesa), Dorval (Santos), Joel (Flamengo) e Julinho (Palmeiras). “O Garrincha era o mais complicado. Quando parava na minha frente eu sabia direitinho o que ele ia fazer, por onde ia escapar. Porque, vou te dizer, eu não era um João dele, não. Eu era esperto. Mas, mesmo assim, quem disse que dava pra parar o homem?”

 

O Ari não alisava. Se era para frear alguém, ele conjugava o verbo em todas as pessoas e declinações. Subiu balão, desceu balão e lá estava o Ari dando chutão. “Ele jogava firme, chegava junto. Sem muita técnica, mas sem maldade também”, relembra o santista Dorval, aos 75. “Era um bom defensor. Forte e sério”, emenda o meio-campista Zito, de 72, também do Santos. “Como os dois eram vizinhos na Penha, o meu pai vivia dando carona pro Ari depois dos clássicos. Você acha que ele faria isso se o Ari detonasse as canelas dele?”, questiona Carlos Botelho, filho do Julinho do Palmeiras. Quiseram os alfarrábios futebolísticos, contudo, que o Ari se tornasse um tremendo vilão sem nunca ter sido. Tal qual o Barbosa, goleiro “culpado” pela derrota nacional na Copa de 50. Talvez pior, porque o caso do Ari, como naquela canção do Chico Buarque, foi mais um “e se...” E se, por causa do Ari, o Pelé tivesse ficado fora da Copa de 58? O Brasil venceria o seu primeiro mundial? Teria se livrado do tal complexo de vira-latas do Nelson Rodrigues? Seríamos penta? Neymar existiria? E se o Chico, deus nos livre, tivesse rimado “E se o Arapiraca for campeão” com “E se o Ari não tivesse quebrado o Negão?”

 

Tudo aconteceu no dia 21 de maio de 1958. A Seleção fazia a sua última apresentação em solo brasileiro antes de embarcar para a Suécia: um jogo-treino contra o Corinthians. O Pelé tinha 17 anos, um fiapo. O Ari, aos 19, já era assim um Ari Clemente em termos de tamanho. Um choque entre os dois, se tele-transportado para os dias atuais, seria algo acontecido entre um Maicon e um Robinho. E o choque aconteceu. Pelé deixou o campo com o joelho direito machucado, e a comissão técnica temeu pelo pior. Três relatos em letras de forma:

A bola estava no chão, rolando, Pelé avançava quando recebeu um pontapé de Ari no joelho. A dor derrubou-o. Quis levantar-se rápido, estufar o peito, enfrentar Ari, mas ficou no chão. Segurou o joelho entre as duas mãos cheias de barro. (Mario Filho, na biografia romanceada Viagem em torno de Pelé, de 1963)

 

Ari Clemente largou a bola e acertou um pontapé arrasador em Pelé. Não era a sua primeira tentativa de esquartejamento. Pelé rolou em campo com as duas mãos no joelho direito. Seu grito de dor foi ouvido no túnel. (...) Ao ver Pelé sendo carregado chorando, Ari Clemente procurou no gramado um buraco onde esconder a cara. (Ruy Castro, na biografia de Garrincha, Estrela solitária, de 1995).

 

Pelé já passara três bolas por debaixo das pernas de Ari Clemente, seu alvo preferido quando jogava contra o Corinthians. (...) E quando preparava um novo drible no zagueiro, este não perdoou. Pelé ainda tentou saltar, mas foi pego no joelho pela chuteira de Clemente. (Tom Cardoso e Roberto Rockmann, na biografia de Paulo Machado de Carvalho, O marechal da vitória, de 2005)

 

Quanto ao Ari, quase todas as memórias futebolísticas que ele tinha a água levou, numa enchente de meio muro que anos atrás estragou fogão e geladeira e esfarelou suas fotos e recortes de jornais. As lembranças que sobraram devem estar guardadas no relógio em forma de escudo do Corinthians pendurado na parede da sala. É para ele que o Ari olha sem ver enquanto dá a sua versão dos fatos. “Estava garoando. A seleção atacava para o gol da concha acústica e o Pepe bateu uma falta para dentro da área. A bola não pingou, porque a grama estava molhada. Ela bateu no chão e deslizou. Eu fui de sola para afastar a bola dali, da entrada da área, perto da meia-lua. Então o Pelé surgiu chutando. Mas em vez de acertar a bola ele acertou meu pé esquerdo. Eu não quis machucar. O juiz nem deu falta.” Pepe, de 75 carnavais, não se lembra. Pede para dizer quem fez os gols, quem sabe isso lhe refresque a memória. Dois dele mesmo, dois do Garricha – o engraçadinho que deveria estar aos cuidados do Ari – e um do Mazola. Brasil 5, Corinthians 0. “Ah tá. Foi de noite esse jogo. O lance com o Pelé foi uma dividida normal. O negócio é que ele, ainda menino, não tirava o pé de dividida. Não afinava. Muito menos o Ari Clemente”, conta o ex-ponta-esquerda. Zito completa: “E não foi por causa dessa contusão que o Pelé começou a Copa no banco. Ele fez tratamento quando paramos na Itália e já chegou recuperado à Suécia. Só entrou na terceira partida por opção do (técnico) Feola”. Se há algo de que o Ari pode ser acusado é de ter jogado mal pra burro naquele dia. A edição do Estado da manhã seguinte anotou que ele fez um pênalti em Garrincha (Didi bateu pra fora) e também bobeou num dos gols do Pepe. Além de quê, Sua Majestade já concedeu clemência ao Ari. Em 2008, Pelé disse: “Quando tive a contusão, que foi casual, começaram a dizer que o Ari Clemente foi maldoso, mas ele não teve intenção”.

 

Pingos nos is

 O Ari nunca carregou esse peso, porque na primeira oportunidade que teve foi esclarecer as coisas com o Rei. Pacaembu de novo, 14 de setembro de 1958, Santos x Corinthians. Eles conversaram antes de a bola rolar, o Pelé disse que tudo bem, esquece isso, coisa e tal. Mas nem por isso deixou de marcar o seu golzinho: Santos 1, Corinthians 0. E assim foi até o Ari trocar o Parque São Jorge por Moça Bonita, no Rio, onde foi defender o Bangu do finado bicheiro Castor de Andrade, que ele respeitosamente ainda chama de “doutor Castor”. Nunca mais o Corinthians do Ari venceu o Santos do Pelé em Campeonatos Paulistas, por irritantes 11 anos. Teve um quase, recorda o Ari, justamente na sua despedida, em 1964. “O Santos ganhou de 7 a 4, só que o Pelé marcou 4. Se não fosse ele, teríamos vencido por 4 a 3”, gargalha. E daí surgiu a lenda, também amarrada ao pé do Ari, de que o Pelé ficou tão fulo com a contusão às vésperas da Copa que espichou uma urucubaca: “Enquanto eu jogar, o Corinthians jamais será campeão!” O Ari não crê, mas vai saber. “Eu nunca ouvi isso da boca dele, só que contra nós o neguinho arrebentava...” O Timão só voltou a ganhar um título paulista, o famoso de 1977, doze dias depois de o Pelé encerrar a carreira. No Almanaque do Timão, do jornalista Celso Unzelte, maior conhecedor de assuntos corintianos de que se tem notícia, o verbete “Ari Clemente” possui 20 linhas – 6 de biografia, 14 de lenda.

 

O Ari não sabe disso, nem quer saber. Hoje, prefere falar dos tempos em que trabalhou no Safra e, depois, como vigia na casa de um dos seus diretores. “Joguei bola dez anos. Trabalhei mais 20 depois. E foi por causa desses 20 que comprei um teto e posso ter a minha aposentadoriazinha (R$ 2.000 por mês). Até o meu primeiro carro, um Corcel II, só fui ter nos tempos do banco, quando me sortearam numa rifa. Eu ia pros treinos de ônibus. O futebol não me deu dinheiro.”

 

Araraquarense, filho de um maquinista e uma quituteira, oito irmãos, o Ari vingou um camarada religioso e feliz com o que a vida lhe deu. E ele põe tudo no mesmo patamar. O Corinthians, o Bangu, o casamento de 46 anos com a dona Elenita, os três filhos, seis netos, o joguinho solitário pela seleção (um 3 x 2 contra o Paraguai, em 1961), os gols que nunca fez, a única expulsão da carreira (por dar uma carreira num árbitro), a força pra caminhar toda santa manhã e o prazer de ser conhecido pelos vizinhos como um homem bom e de receber o padre do bairro aos domingos pra almoçar lasanha. Eis o Ari . “Eita, que o Messi marcou mais um, o segundo dele hoje. Essa canhotinha dele é um veneno, vou te contar”, comenta feliz o Ari, voltando-se definitivamente para a TV e trazendo a bandeja de mangas para o colo outra vez.

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