Argentino Julio le Parc ganha mostras quase simultâneas no Rio e em São Paulo

Trabalhos do artista não eram vistos no País há 12 anos

Maria Hirszman - Especial para o Estado, O Estado de S. Paulo

02 de outubro de 2013 | 18h55

Após 12 anos sem expor no País, o argentino Julio le Parc volta em dose dupla, com exposições quase simultâneas que propõem sínteses significativas de sua produção. Juntas, as mostras reúnem quase uma centena de trabalhos, de estudos e desenhos preparatórios a grandes instalações imersivas, dando aos brasileiros a oportunidade de conhecer mais a fundo o alcance e os desdobramentos de uma permanente e irrequieta pesquisa plástica, pautada pela busca de uma comunicação direta com o público, baseada em elementos simples, rigorosos e sedutores.

Nesta semana é a vez de São Paulo. A Galeria Nara Roesler inaugura a mostra Uma Busca Contínua. A seleção, à cargo da curadora Estrellita B. Brodsky, procura mostrar como se dá a transição feita por Le Parc das obras bidimensionais para trabalhos em que explora com habilidade os efeitos da luz, da cor e do movimento no espaço. A seleção procura enfatizar o que a pesquisadora define como caráter “ambivalente, instável, não absoluto de sua produção”.

Na semana que vem, será a vez do Rio de Janeiro, com a inauguração da exposição Le Parc Lumière – Obras cinéticas de Julio le Parc. Trata-se de uma seleção de 30 trabalhos do artista construídos a partir de experiências com a luz que ocupará a nova sede da Casa Daros até fevereiro de 2014. A mostra será acompanhada de uma série de atividades paralelas, incluindo o lançamento de um alentado catálogo. As peças pertencem à coleção suíça e foram especialmente reunidas e restauradas para uma primeira mostra realizada em Zurich em 2005, pelos curadores Hans-Michael Herzog e Käthe Walser. O artista, que acaba de completar 85 anos, veio especialmente ao País acompanhar os trabalhos de montagem e participar de encontros com o público nas duas cidades.

Apesar do caráter multifacetado e da índole experimental de Le Parc, há em sua produção uma coerência e uma ênfase clara em algumas questões centrais: o rigor na pesquisa de construção da imagem, baseada em esquemas claros desenvolvidos a partir de trabalhos precursores como os de Mondrian e Vasarély, e a defesa da possibilidade transformadora da arte. O caráter dissimulado, restrito e elitista da arte sempre o incomodou. Em vez de aceitar os paradigmas em vigor no mercado internacional, buscou trilhar seu caminho em busca de um trabalho capaz de se comunicar mais diretamente com o público. “O espectador é deixado de lado. Mesmo atualmente, sua opinião não tem a menor importância; o que prevalece é a crítica, o mercado. O dinheiro decide”, lamenta.

A exposição em São Paulo remonta aos anos 1958 e 1959, com Le Parc recém-chegado a Paris, e traz uma série de estudos, combinações simples de formas e cores, em que predomina o caráter ainda projetual do que viria a se tornar um dos paradigmas da arte cinética. O artista vê-se então encantado com a possibilidade única de passar 24 horas do dia pensando, experimentando, fugindo dos esquemas reducionistas e excludentes do período. Segundo ele, o interesse não era tanto a geométrica, mas a busca de como provocar uma instabilidade visual. A luz, uma de suas ferramentas mais poderosas, é rapidamente incorporada aos trabalhos, a partir de 1960, e continua acompanhando-o até hoje, como será possível perceber nas instalações da Casa Daros. O reconhecimento, num mercado dominado pela arte figurativa e pelo abstracionismo lírico, só veio quase uma década depois, em 1966, com a realização de sua primeira mostra individual e o grande prêmio internacional de pintura da Bienal de Veneza.

Inicialmente, a estadia seria de apenas oito meses, graças a uma bolsa não renovável. Acabou estendendo-se até os dias de hoje, com apenas um intervalo: durante as manifestações de 1968, seu engajamento político – é neste ano que publica o texto Guerrilha Cultural – obriga-o a viver fora da França por um ano. Milita numa série de causas, participando de protestos contra a ditadura de Pinochet, no Chile, e do boicote contra a Bienal de São Paulo de 1969.

Desde as primeiras experiências ainda na Argentina, no contexto do Grupo Arte Concreto-Invención, passando pela reflexão no contexto do Groupe de Recherche d’Art Visuel, que ajuda a criar em 1960, o caráter coletivo da produção, e sobretudo da reflexão, impôs-se. Le Parc lembra-se de como eram intensas as trocas entre os vários artistas que circulavam por Paris e demonstravam interesse em pesquisas complementares às suas, também dos brasileiros com que conviveu no período, como Arthur Luiz Piza, Lygia Clark e Abraham Palatnik.

O artista concorda com o diagnóstico de que a arte cinética, que ganha corpo na França de meados do século 20, tem uma forte predominância de atores latino-americanos. E celebra o fato de que essas produções venham ganhando destaque nos últimos anos, como a grande mostra de obras de sua autoria realizada no ano passado no Palais de Tokyo, em Paris, que atraiu 180 mil visitantes. “São fenômenos normais de redescobrimento”, arrisca.

JULIO LE PARC

Galeria Nara Roesler. Avenida Europa, 655, Jardim Europa, 3063-2344. 2ª a 6ª, 10 h/ 19 h; sáb., 11 h/ 15 h. Grátis. Até 30/11.

Casa Daros. Rua General Severiano, 159, Botafogo, (21) 2138-0850. 4ª a sáb., 11h/ 19h; dom., 11h/ 18h. R$12 (4ª grátis). Até 23/2. Abertura dia 11/10, 18h.

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