Arena dos politizados

A ação social é dominante nas obras da 31ª edição da Bienal de São Paulo

ANTONIO GONÇALVES FILHO, O Estado de S.Paulo

31 de agosto de 2014 | 04h27

O que deve impressionar o visitante da 31.ª Bienal de São Paulo à primeira vista é o tom retromaníaco que domina muitos trabalhos da mostra - alguns ancorados no velho muralismo mexicano de 100 anos atrás (com toda a sua carga ideológica), caso das pinturas murais do brasileiro Éder Oliveira e do indiano Prabhakar Pachpute, autor do cartaz da mostra, para ficar apenas em dois exemplos.

Outras obras, quase libelos políticos, transportam o público para meio século atrás, reeditando inserções no circuito ideológico dos anos 1960 - caso do grande painel criado pela dupla holandesa Bik Van der Pol (Turning a Blind Eye/Olhar para Não Ver) com mensagens sobre eventos recentes no Brasil e no mundo. Na mostra, os grandes individualistas foram substituídos por coletivos como esse, grupos nos quais nem sempre o consenso e o bom senso vigoram. Prevalece a ação social sobre a arte.

É possível argumentar, como faz Esche, que uma pintura mural como a do paraense Éder Oliveira, impressa na primeira página do Caderno 2, tem um caráter monumental justamente por tornar visíveis personagens marginalizados (detentos, no caso), transpostos dos grafites de muros de Belém para as paredes da Bienal, mas cabe dizer que, expostos assim, à revelia, num espaço nobre, os marginais são duplamente estigmatizados, perdendo sua identidade. "Mas não é justamente o que fazem os jornais ao divulgar fotos de presos?", retruca Esche.

O curador da Bienal não se incomoda com o anacronismo muralista. Considera positivo o retorno à figuração no século 21, atribuindo-o ao excesso de informação visual em nossa era - consequência natural, arrisca Esche, da superexposição pessoal em redes sociais como o Instagram e Facebook.

Para ele, no entanto, a onda figurativa não é um aggiornamento da "nova figuração" que dominou a arte brasileira nos anos 1960. Não existe entre os artistas mais novos, segundo o curador, nostalgia de ícones da rebeldia como Hélio Oiticica - "até mesmo porque Oiticica foi absorvido pelo mercado de arte", argumenta. Tampouco idolatria. Não faria sentido, segundo o curador, fazer uma bienal histórica - "para isso existem os vários museus da cidade, que dão conta da missão".

Seu engajamento é com o aqui e agora. Ele cita como exemplo de artista politizada, que lida com questões contemporâneas, a jovem Clara Ianni, de 27 anos. Ela exibe na mostra internacional imagens de cemitérios clandestinos criados durante a ditadura militar, elegendo como porta-voz de seu discurso Débora Maria da Silva, que perdeu um filho, morto por policiais há sete anos. "Tanto Clara como Gabriel Mascaro, para citar dois exemplos, não falam do passado, mas se relacionam com o presente", observa o curador. Em tempo: Mascaro documentou imagens de tênis usados durante os protestos de rua de 2013, alguns de cores tão berrantes que serviram como provas criminais contra os manifestantes.

Coincidência ou não, em plena campanha política, Ana Lira, de Caruaru, mostra restos de cartazes manipulados por pichadores rebeldes e militantes nas eleições para prefeito de Recife há dois anos. Vale lembrar que bem antes dela, o italiano Mimmo Rotella (1918-2006) manipulou fragmentos de outdoors em décollages do 'nouveau réalisme' (anos 1960). A obra de Ana Lira, porém, não foi selecionada por evocar esse movimento artístico do passado, garante Esche, que insiste: "Não há ideologia aqui, mas a ideia de que a democracia se constrói em conjunto". E a polêmica também: além da contestação dos artistas palestinos e libaneses à presença do dinheiro de Israel no orçamento da Bienal, há ainda um possível escândalo a caminho: a obra coletiva Dios es Marica, que deve chocar fiéis religiosos.

Primeiro, a questão palestina: a diretoria da Fundação Bienal, dizem 40 artistas, não deveria ter recebido o dinheiro que Israel destinou à mostra internacional (cujo orçamento é de R$ 24 milhões). Dando apoio aos artistas, os curadores argumentam que as fontes dos fundos culturais têm profundo impacto sobre curadorias independente e a narrativa artística de um evento. Pode ser. O reverso também vale. Qual departamento de marketing de empresa privada gostaria de patrocinar um trabalho chamado Dios es Marica? Criação coletiva de artistas do Peru, México e Chile, entre outros, Dios es Marica registra corpos andróginos e relações homoeróticas em frente a imagens religiosas como a Virgem de Guadalupe.

Deus sempre foi e continua alvo preferencial de artistas rebeldes. Ele também é criticado em outra criação conjunta do grupo Etcétera, a instalação Errar de Dios (2014), que presta tributo ao artista argentino Leon Ferrari (1920-2013), ateu que morreu provocando a Igreja e ganhou, em 2007, o Leão de Ouro na Bienal de Veneza, justamente por sua obra La Civilización Occidental y Cristiana.

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