Adriano Machado/ Reuters
Adriano Machado/ Reuters

Área cultural se manifesta após entrevista da secretária Regina Duarte

Artistas e intelectuais usaram as redes sociais para se posicionar sobre a fala da secretária

Eliana Silva de Souza, O Estado de S.Paulo

08 de maio de 2020 | 09h53

No final da tarde de quinta-feira, 7, a secretária especial de Cultura, Regina Duarte, concedeu entrevista, exclusiva e ao vivo, à CNN Brasil. Sempre sorridente, buscando insinuar um clima de tranquilidade, ela pretendia falar de seus projetos para a área da cultura. Ao repórter Daniel Adjuto, porém, ela minimizou as torturas na época da ditadura, ao mesmo tempo em que cantarolou a música Pra Frente, Brasil, de Miguel Gustavo, jingle conhecido como um hino da seleção brasileira de 1970, mas que marcou a época de truculência no Brasil.

Durante e após a entrevista, o meio cultural se manifestou, criticando a secretária e questionando ações positivas para a área, que pena com a situação provocada pela quarentena e sem um retorno governamental a seu favor. Além disso, Regina foi ainda questionada sobre não se manifestar publicamente sobre as recentes mortes de artistas, músicos, intelectuais: "Será que a secretaria vai virar um obituário?".

E encerrou, abruptamente, a entrevista, ao ser questionada, por um vídeo enviado no mesmo dia, pela atriz Maitê Proença. A secretária se descontrolou, se dizendo traída, pois isso não "estava combinado". A conversa terminou quando um auxiliar de Regina entrou em cena, obrigando a emissora a tirar a cena do ar.

 


As repercussões nas redes sociais foram inúmeras, veja algumas abaixo.

Anitta, cantora 

"Vejo que a senhora me segue aqui no Instagram e gostaria de dizer algo como cidadã. Assisti sua entrevista na CNN e já vi em alguns lugares que nao foi combinado uma entrevista ao vivo etc e etc, mas, falando como artista que já passou por isso algumas vezes (se é que realmente foi isso), acho que haveria mil outras formas de se pronunciar sem ser grosseira com os demais. Uma pessoa que aceita assumir a secretaria de cultura está aceitando trabalhar para o povo, isso significaria escutar TAMBÉM os lados que pensam diferente da senhora e colocar sua posição sobre a questão. Se recusar a ouvir uma opinião contrária logo depois de enaltecer os tempos de ditadura me causa muito medo. Até porque eu e muitos dos meus amigos seríamos os primeiros censurados caso esse regime voltasse ao Brasil e nós continuássemos no exercício do nosso trabalho. Gostaria de dizer que a cultura no Brasil vai muito além do ballet clássico, das orquestras sinfônicas e dos livros de poesia (que também são incríveis e tem seu imenso valor). Governar apenas para os que te causam afeição não é governar para o povo. Nao seria mais inteligente responder com calma e sabedoria o que tem sido feito pela classe cultural em virtude dos acontecimentos do covid 19? Aliás, o que tem sido feito? Todas as prefeituras do Brasil possuem verbas de entretenimento para o povo. Agora, que não estão sendo utilizadas, pra onde está indo esse dinheiro? A senhora não poderia tentar fazer com que ele estivesse indo para os trabalhadores da indústria que estão sofrendo com o momento? Por mais que a senhora não tenha medo do vírus, não deveria trabalhar também para os que têm e estão levando a situação a sério? Seu cargo só governa para quem pensa semelhante à senhora? E as famílias que perderam parentes com a doença? Como se sentiriam ouvindo um depoimento de quem faz pouco caso do momento? Onde está a empatia? Meu intuito aqui não é insultar e sim questionar."

Walcyr Carrasco, dramaturgo

Bruno Gagliasso, ator João Vicente, apresentador Hildegard Angel, jornalista e irmã de Stuart Angel, morto pela ditadura militar Antonio Prata, escritor

Tatiana Salem Levy, escritora

Eduardo Lacerda, editor


Luiza Jorge, produtora

Renato Janine Ribeiro, cientista político

 


 

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.