Ardido como pimenta

Em 'Rangos Reais', que sai apenas em e-book, Will Self trata com ironia da baixa gastronomia

Ubiratan Brasil, O Estado de S.Paulo

01 de junho de 2013 | 02h08

Não convide o escritor inglês Will Self para jantar, pois você pode ouvir comentários indigestos sobre o cardápio servido. Aos 51 anos, Self é um polemista confesso – certa vez, em uma entrevista à imprensa britânica, declarou: "Vejo meu papel na sociedade como o de um legítimo provocador". E, antes de ser acusado de falastrão, começou a construir uma obra baseada tanto na inteligência como na falta de indulgência com as besteiras que assolam o mundo.

 

Um bom exemplo estará disponível a partir de segunda-feira, quando a editora Objetiva, por meio de seu selo Foglio, lança Rangos Reais (tradução de Cássio de Arantes Leite), seleção de ensaios gastronômicos que Self publicou na revista New Statesman, a partir de 2009. Como o Foglio é um selo exclusivamente digital, Rangos Reais estará disponível por enquanto apenas em e-book (por R$ 5), assim como os demais lançamentos: Alzheimer, de Andrew Lees, e Infância, de Arnaldo Jabor, colunista do Estado.

 

Ao contrário da corrente que valoriza a alta gastronomia, Self decidiu visitar os restaurantes mais procurados pela maioria da população, o que acabou conduzindo-o para as dezenas de cadeias de fast-food. Ou seja, antes de glamourizar a comida, ele preferiu as refeições prontas, os tira-gostos de bares e, claro, aqueles sanduíches cuja falsa exclusividade e relativo preço baixo convencem milhares de pessoas em todo o mundo a formar diariamente filas intermináveis atrás do caixa quase sempre comandado por jovens imberbes.

 

"A ideia era simples: quase tudo que se escreve sobre comida, assim com a crítica de restaurantes, diz respeito ao ideal, ao modo como cozinhando aqui, jantando ali, você pode de alguma maneira ingurgitar uma nova – ou, em todo caso, melhorada – persona social, estética e até espiritual", observa, no texto de abertura. "Meu objetivo era virar essa proposição de cabeça para baixo e, em vez de comentar sobre onde e o que as pessoas deveriam comer, eu consideraria onde e o que elas de fato comiam."

 

Assim, ele escreve sobre templos do fast-food como McDonald’s, KFC e Pizza Express (onde acredita ter comido boa parte das 6.530 pizzas que calcula ter devorado ao longo da vida). Self também avalia (e arrasa com) café da manhã em hotéis, comida de avião e pratos típicos (veja abaixo trechos de colunas).

 

Não espere, porém, avaliação de paladar – Self pode até ter um gosto apurado, mas o que lhe interessa é mostrar como a comida – e, em particular, fazer refeições fora de casa – se tornou a ideologia cultural da era. "Por um tempo, no início dos anos 1990, eu fora crítico gastronômico do jornal Observer", continua explicando, na introdução.

 

"Fiquei bastante interessado na teatralidade da experiência com restaurantes e no modo como isso possibilitava que a burguesia (e, durante o governo Blair, mais ou menos todo mundo começou a se autoidentificar como classe média) desempenhasse seus papéis e imposturas."

 

Nos anos 2000, a mania gastronômica mostrou-se ainda mais poderosa e desigual. Self nota que as nuvens ameaçadoras da recessão econômica estão começando a enfatizar "austeramente o fato de que, embora alguns poucos ocupem os dentes com exorbitância, a vasta maioria se alimenta pobremente".

 

O olhar arguto marca a obra de Self, boa parte dela felizmente publicada no Brasil. Mas não se trata de uma escrita fast-food – em Como Vivem os Mortos (Alfaguara), por exemplo, uma velha senhora judia morre de câncer e é levada ao mundo do além-túmulo por um taxista cipriota. A mulher é modelo do politicamente incorreto: racista, misógina, homofóbica e insuportável na vida e na morte. "Como ela representa a maioria, então considerei importante tratar de um personagem assim", justificou, na época (2007). Com idêntica franqueza, ele respondeu por e-mail as seguintes questões sobre Rangos Reais.

 

O que sente que havia realizado quando entrou num mundo gastronômico?

 

Sou um crítico de restaurantes – não estou minimamente interessado em comida, o que, para mim, é apenas a antecipação do bolo fecal. Me interesso por restaurantes como uma forma de teatro sociocultural onde a burguesia faz o papel de si mesma para uma plateia de si mesma. Aqui, na Grã-Bretanha, em particular, a mudança cultural no último quarto de século foi registrada pela alteração dos hábitos de comer em público – basicamente, a lúmpen burguesia é definida pelo Neoliberalismo Thatcher/Blair como qualquer um que pode arcar com uma comida grumosa em restaurantes de cadeias, a maioria dos quais moldados em formas arcaicas de "exclusividade", que agora receberam marcas para as massas. Ao mesmo tempo, há o fenômeno de uma cultura de "pastagem" em massa: uma multidão de restaurantes de fast-food socada no aparelho gastrointestinal da nação para substituir a cozinha do lar – e, na verdade, o próprio lar. Esse fenômeno também me intriga.

 

Pretende fornecer um antídoto para a indústria de fast-food?

 

Odeio a indústria de fast-food como odeio a maioria dos aspectos do capitalismo tardio que rouba do indivíduo a real capacidade de realização e experiência – mas não posso dizer que odeio a indústria de fast-food em particular. Afinal, todos temos que comer, e eu próprio sou um cliente habitual de lojas de fast-food. O capitalismo tardio prospera acomodando nossas ambivalências, e é este o aspecto paradoxal do fast-food – sua habilidade de encapsular simultaneamente apetite e repugnância – que eu tendo a investigar em minha escrita, e não alguma crítica política direta – quanto mais nutricional.

 

Você consegue fazer coisas incríveis com a língua inglesa. Usou o poder das palavras para transformar uma coisa atraente em desprezível e vice-versa?

 

Bem, espero que não. Usar a língua para dizer o que não é, é o que esperaríamos de um Josef Goebbels. Eu diria que boas coisas são ruins e coisas ruins são boas, mas somente no espírito de uma ironia bem inglesa. A Inglaterra ainda é uma sociedade dominada por classes e, por isso, dominada pela ironia social: um mecanismo para confundir o novo rico expondo o fato de que ele realmente não compreende o que é. Eu inverto esse método para expor os próprios gozadores. Assim espero.

 

Tomou notas ao visitar os restaurantes? Ou as memórias do estômago foram suficientes?

 

Bem, de novo: a comida não tem nenhuma consequência para mim. Acho a fetichização do comer no mundo desenvolvido contemporâneo revoltante, tão revoltante quanto a fetichização da gratificação anal. O que me atrai são os aspectos teatrais dos restaurantes – aliás, eu tomo notas, e tiro fotos também. A câmera digital foi uma dádiva incalculável para o escritor! Não tão boa para fotógrafos profissionais, porém – eles são expostos pelas fraudes que são, em sua maioria.

 

Qual a sua opinião sobre a grande quantidade de informação sobre alimentos na mídia?

 

Veja acima. A imprensa alimentar não é apenas emocional, espiritual e psiquicamente corrupta – é também, com frequência, financeiramente corrupta. A grande maioria das palavras e imagens produzidas para a imprensa alimentar é paga, direta ou indiretamente, por partes interessadas – são relações públicas ou puros e simples anúncios em forma editorial e, como tal, devem ser tratadas com asco e desprezo.

 

A gastronomia algum dia será vista como uma forma de arte?

 

Bem, ela certamente pode ser vista como um ofício muito avançado – e certos tipos de culinária são imensamente artísticos e interessantes. Ela tem um grande significado cultural – a culinária – onde ainda está enraizada em culturas regionais e não foi corrompida de alguma maneira. Mas as pretensões da chamada "cozinha molecular" e seus praticantes são risíveis (de todo modo, risíveis se você não se importa de rir até vomitar). Afinal, toda verdadeira arte pode dizer alguma coisa de si mesma, e do mundo, e da relação entre ela e o mundo. Tudo que a arte da culinária diz é: arroto!

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