Arctic Monkeys, fenômeno do rock a caminho do Brasil

O vocalista, Alex Turner, parece uma mistura do ratinho do filme Ratatouille com o ator brasileiro Kayky Brito. Ainda cheio de espinha no rosto, muito magrinho, olha os interlocutores com a cabeça meio baixa, ar de espanto com toda a badalação à sua volta. Sua voz sugere que ainda não trocou completamente de registro vocal, tem aquela estridência típica dos adolescentes quando vão virar homem. Certamente, na escola em Sheffield, ou no primeiro ano de faculdade que ele largou em Barnsley, na Inglaterra, ele seria a última opção das garotas para um namoro. Mas agora, Alex Turner e seus colegas de banda - o baterista Matt Helders, o baixista Nick O´Malley e o guitarrista Jamie Cook - não dão conta de desviar das meninas que os querem. Eles são os Arctict Monkeys, e estão no topo do rock - ganharam o Mercury Prize, três Brits Awards, e fizeram o mundo com apenas dois discos, o primeiro um fenômeno primeiro na internet, o álbum Whatever People Say I Am, That´s What I´m Not. A idade média da banda é de 21 anos. Mas impressiona a desenvoltura com que lidam com a nova situação. Não usam roupas extravagantes - são jeans e camisetas que se acham nos balcões de liquidação de qualquer loja de departamentos. "A fama é boa por dar a oportunidade de ir a lugares onde a gente nem imaginava que iria", diz o hiperativo baterista da banda, Matt Helders, em entrevista a um grupo de jornalistas brasileiros em Roskilde, Dinamarca. "Não sei quanto dinheiro ganhamos. Apenas nos divertimos tocando, não temos preocupação com dinheiro e coisas desse tipo", diz Helders, que conheceu seu parceiro Turner quando tinha apenas 12 anos, na Stocksbridge High School em Sheffield, Inglaterra. Para Turner, segundo afirmou, a melhor coisa de estar em uma banda de rock bem-sucedida é que ele não precisa encarar mais o que chama de "responsabilidades dos adultos." Rock sem frescura Helders conta que treinou boxe antes de iniciar a turnê anual dos Arctic Monkeys, que divulga o novo álbum do grupo, Favourite Worst Nightmare (mais de 200 mil cópias vendidas na Inglaterra, fenômeno para o momento). Todos na banda se exercitaram fisicamente, porque o desgaste é grande, e o show dos Arctic Monkeys, como os brasileiros verão em outubro, no TIM Festival, é rock sem frescura, com uma pegada irresistível. Quase não há baladas - uma das poucas é Mardy Bum, do primeiro disco, e não chega a ser exatamente uma baladinha. É uma catarata de hits com uma cozinha perfeita, uma pulsão de baixo e bateria (Turner também não é um guitarrista desprezível) que não deixa os moleques quietos, de Fake Tales of San Francisco até I Bet You Look Good on the Dancefloor. O Arctic Monkeys levou ao paroxismo as primeiras lições de fusão com a batida do reggae, que contaminou o rock inglês desde Gang of Four e The Clash, lição que já foi muito bem dedilhadinha pelos Libertines e pelo Babyshambles. Eles falam pouco e tocam muito. Quando Turner faz um gesto com a mão para o alto, e a platéia o imita, ele olha para o baixista e ri atônito, como se não acreditasse no súbito poder de seu rock´n´roll. São garotos, mas não tolos: recusaram-se a participar do Live Earth. Não porque achassem que não é uma boa causa, mas porque não querem parecer arrogantes de chamar para si a responsabilidade de curar os males da humanidade. Como todo mundo aqui na Europa, Matt Helders já ouviu e achou divertido o Bonde do Rolê e, como todos ali gostam de futebol, sabe que está indo para o lugar onde esse esporte foi reinventado. O baixista, Nick O´Malley, é fanático torcedor do Manchester United, e esteve com seus colegas até na fatídica final com o Milan de Kaká na Itália. Aqui em Roskilde, o Arctic Monkeys fez um show de grande vitalidade e honestidade, coisa que, curiosamente, só aconteceu mesmo em outro grande show, The Who. Esses redescobriram o atalho para o início e, já sessentões, fizeram um daqueles shows que o Brasil vai lamentar eternamente não ter posto em sua rota. Com os auxílios luxuosos de Pino Paladino e do baterista Zak Starkey (filho de Ringo Starr, dos Beatles), os veteranos Roger Daltrey (cantor) e Pete Townshend (guitarra, sem se barbear, um velho roqueiro desleixado e genial) recolocaram o rock em seus eixos. Inacreditável seu show, que começou com Can´t Explain e explodiu numa sequência de canções eternas que culminou com Pinball Wizard, da ópera-rock Tommy. Será que ainda dá tempo?

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