Amanda Perobelli/Estadão
Amanda Perobelli/Estadão

Arcênico: 'O teatro foi desprofissionalizado e vive uma anemia criativa', diz Cacá Rosset

Fundador do Teatro do Ornitorrinco volta em maio com o musical 'Ornitorrinco Canta Brecht e Kurt Weill'

João Wady Cury, O Estado de S.Paulo

06 Abril 2017 | 02h00

Carlos Eduardo Zilberlicht Rosset, o Cacá Rosset, fundador do Teatro do Ornitorrinco, não é um doente imaginário, mas tem lidado com duas diverticulites e um problema no manguito rotatório no ombro. Fora dos palcos desde 2009, volta em maio com o musical Ornitorrinco Canta Brecht e Kurt Weill, na Casa de Francisca, peça dos primórdios da trupe. É uma forma magérrima de comemorar 40 anos do Ornitorrinco. Sempre debochado, muda o tom quando fala do que mais gosta: “O teatro foi desprofissionalizado, vive uma anemia criativa e uma ‘motelização’ dos espaços”.

Desistiu do teatro? 

Nunca, a primeira opção sempre foi ter o meu grupo, dirigir e escolher os melhores papéis pra mim, claro. Mas gastar 80% do meu tempo com burocracia e produção e somente 20% com criação não tem sentido. Estou numa entressafra. Hoje, vivemos uma desprofissionalização do teatro, as leis de incentivo inflacionaram o mercado, apesar de eu ser parcialmente favorável a elas. O resultado é ter peças com carreira curta, que acabam na noite de estreia, no coquetel para o patrocinador.

Desprofissionalização?

 

O TBC profissionalizou o teatro nos anos 50 e tornou uma atividade cotidiana em que se trabalhava pelo menos cinco vezes por semana. Nos anos 1980 e 90 eu fazia sete apresentações teatrais de mais de duas horas de duração por semana, com duas sessões aos sábados e domingos. Houve uma ruptura em que a temporada diminuiu, tirou-se a terça, depois a quarta, agora a quinta. Hoje, as grandes produções fazem duas ou três apresentações semanais. É uma insanidade. O teatro se tornou uma atividade diletante. É como o cara que gosta de jogar bridge com os amigos às quintas.

E certamente isso afeta a qualidade das peças. 

Claro! Como consequência, o teatro se tornou anêmico do ponto de vista de repercussão social, artística, política, de provocação, de reflexão. Não mexe mais com as pessoas, seja entretenimento, seja existencialmente. O teatro virou pit stop. Hoje, o grande evento é comer e o teatro é um aquece para a noite.

Temporadas curtas, peças anêmicas. Poderia ser pior?

Sim, o que chamo de ‘motelização’ dos espaços teatros. Você rapidamente descobre que há 14 peças simultaneamente em cartaz no mesmo teatro. Já contei no Teatro Folha, por exemplo, 14 peças. E isso ocorre com muitos outros teatros. Os donos de teatro me pedem para que minhas peças tenham cenários mais simples para que possa montar e desmontar com facilidade e às favas com os critérios artísticos. E ainda tem que criar peças curtas, de 45 minutos. É como se fosse para o cara se livrar rápido daquilo e ir para casa.

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