Vânia Laranjeiras/Divulgação
Vânia Laranjeiras/Divulgação

Arancam tenor em ascensão

Cantor brasileiro, apadrinhado por Plácido Domingo, conquista espaço no mercado

João Luiz Sampaio, O Estado de S.Paulo

18 de setembro de 2011 | 00h00

ENVIADO ESPECIAL / RIO

O tenor Thiago Arancam mal saíra do palco do Teatro da Paz, em Belém, quando foi abraçado pela avó, feliz com o prêmio de revelação que o neto acabara de ganhar no Concurso Bidu Sayão. Ainda sob o impacto da notícia, ele não conseguia falar com a imprensa, já abordado por alguns dos empresários internacionais que faziam parte do júri. A cena se deu em maio de 2004. Sete anos depois, na noite de quarta-feira, ele saía agora do palco do Teatro Municipal do Rio, onde desde a semana passada cantou o papel de Cavaradossi, na Tosca, de Puccini, ao lado de um elenco de estrelas internacionais.

Do prêmio que lançou seu nome à volta ao Brasil para a Tosca, Arancam, hoje com 29 anos, percorreu um longo caminho. No fim de 2004, foi aceito na Academia do Scala de Milão. Ao longo de dois anos, estudou e cantou em cerca de 40 concertos e recitais, na Europa e na Ásia, até ganhar seu primeiro papel principal em Mântua, na ópera Le Villi, de Puccini. Talento e sorte costumam formar uma combinação explosiva: no meio do caminho, Arancam foi ouvido pelo tenor Plácido Domingo, que o apadrinhou - e logo ele faria sua estreia americana, cantando Don José na Carmen, de Bizet, na abertura da temporada 2008 da Ópera Nacional de Washington, da qual Domingo era diretor.

Arancam começou no canto, diz, por acaso. Aos 7 anos, fez a prova para entrar no coral da escola que frequentava em São Paulo. O professor, lembra, gostou da voz e começou a incentivá-lo. O repertório tinha desde Parabéns a Você até cenas famosas, como o coro Va Pensiero, do Nabucco, de Verdi. Mas o interesse pela ópera, lembra o tenor, viria mais tarde, na adolescência, quando o canto lírico passaria a ser uma possibilidade profissional concreta. "Eu não tinha ideia do que era ópera, não é algo que eu ouvisse em família, por exemplo. Mas com o tempo comecei a estudar e descobrir que todo um universo estava à disposição", diz. A vitória no Bidu Sayão foi um divisor de águas e abriu portas importantes - a principal delas, os contatos internacionais que lhe garantiriam a vaga no Scala. "De cara você fica espantado com a competição, o rigor técnico e percebe que, se quer mesmo seguir esse caminho, precisa se aperfeiçoar constantemente", acrescenta.

Antes de mudar-se para a Europa, Arancam gravou um disco no qual interpretava célebres árias para tenor, elogiado nas páginas do Estado pelo crítico Lauro Machado Coelho. "Arancam ainda tem muito a desenvolver, mais no domínio estilístico do que propriamente da emissão, que é ampla e forte. É um cantor ao qual um futuro interessante parece prometido", escreveu ele em 2004. Tenor lírico spinto, Arancam tem um repertório que costuma ser feito por cantores mais velhos. E não foram poucos aqueles que lhe sugeriram esperar um pouco antes de encarar papéis como Don José ou mesmo Cavaradossi. "Nesse sentido, o contato com Plácido Domingo foi fundamental", ele explica. "Mesmo com o aval da Academia do Scala, é difícil encontrar um espaço no mercado internacional - e ele ter apostado em mim me ajudou bastante. Além disso, foi ele que me tranquilizou com relação aos papéis, me mostrando que o importante é ficar atento à própria voz, ao que é melhor para minha vocalidade. Domingo é um cara especial, é muito bom saber que temos novos projetos juntos. É uma pessoa verdadeira, sólida, em que se pode confiar."

A Tosca foi a primeira ópera completa cantada por ele no Brasil. Em novembro, ele faz Carmen em São Francisco. E, depois de estrear em 13 papéis em pouco mais de quatro anos, já faz planos para o futuro. Em um ano, pretende estar pronto para Manon Lescaut, de Puccini; em seguida, Andrea Chenier, de Giordano. "O segredo é seguir respeitando aquilo que minha voz permite que eu faça, deixá-la amadurecer, sempre de uma maneira natural. E não parar de me aperfeiçoar, essa é a realidade dessa profissão."

Carreira

Os próximos compromissos do tenor incluem Carmen, em São Francisco, e Il Tabarro, na Ópera de Lyon

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