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Fábio Porchat
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Aracy Lispector

Saiu pela editora Rocco um livro que reúne todos os contos da escritora Clarice Lispector – Todos os Contos, inclusive é o nome dele. A forma com que ela escreve é tão forte que sempre sou sugado pelas suas palavras que me jogam para aquele mundo. Nunca me encontro vivendo a minha vida ao lê-la, estou o tempo todo vivendo aquilo que ela relata. Estou dentro do livro. Tudo não é mais aqui, é lá. As histórias são simples, curiosas e te capturam. Como num flash, você já não é mais você. A primeira vez que eu li Clarice, eu não li, ouvi. Escutei um audiobook de contos da Clarice lido/interpretado pela atriz Aracy Balabanian. Foi das coisas mais fortes que já ouvi na vida. Aracy nos conta as histórias não como uma relatora, mas como testemunha ocular de tudo que acontece ali. É como se você fosse um cego e ela a sua guia. Nunca vi coisa tão potente como a voz da Aracy sob a batuta da Clarice. Ou vice e versa. As duas se tornam uma só. Todas as palavras tem significado. Todas as frases são imbuídas de sentimento. Todo parágrafo nos move adiante. Como ator então, me apaixonei duplamente. Tranquila, suave, firme, absolutamente consciente de cada vírgula, Aracy consegue um entendimento tamanho daquilo que lê, que tudo acontece diante dos nossos olhos. E ouvidos. Não há esforço em sua voz, ela não tenta contar uma história, ela não interpreta, ela não lê, ela simplesmente é Clarice Lispector diante de nossos tímpanos. Como uma avó amorosa que conta a história da chapeuzinho para seu neto, Aracy nos dá uma Clarice límpida e completa. Que prazer é poder aprender assim. Entender o que é atingir a maestria de uma profissão que escolhi pra mim. Quando me lembro da confusão que aconteceu quando Maria Bethânia teve a ideia de gravar 365 poesias de língua portuguesa e disponibilizá-las gratuitamente na internet fico triste. Pessoas falando bobagem, boa parte da mídia criando intrigas e a ignorância, interromperam um trabalho que teria sido precioso. Como o mundo seria melhor se tivéssemos obras de arte em nossa língua disponível para todo o mundo. Que maravilha seria ouvir Bethânia nas escolas de todo o país. Ensinando. Tomara que ela retome esse projeto algum dia, para o bem de todos nós. Enquanto isso, pelo menos ainda temos Clarice. Ainda temos Aracy.

Fábio Porchat, O Estado de S.Paulo

05 de junho de 2016 | 02h00

P.S.: Outro áudio book brilhante é o do Paulo Autran lendo/interpretando/recebendo Carlos Drummond de Andrade. No meio do caminho, tinha uma pedra e eu consegui imaginar exatamente que pedra era essa. Tente você também.

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