Ar blasé e roubo dos óculos marcam tour pela europa

Jonathan Franzen, de fato, age como um amador. Em sua passagem pela Europa na semana passada, teve os óculos furtados em uma recepção em Londres e brincou de falar com Deus, em Frankfurt. Em todos os momentos, mantinha intacta a expressão de garoto assustado, como se não soubesse o que se passava ao seu redor.

Ubiratan Brasil, O Estado de S.Paulo

10 de outubro de 2010 | 00h00

Desde que Freedom foi escolhido por Oprah Winfrey (foto) em seu programa, no mês passado, Franzen entrou para o clube das celebridades, aquele em que basta sua presença para arrastar pequenas multidões. Foi assim na sexta, na Feira do Livro de Frankfurt, em que o autor participou de um programa de televisão gravado em meio ao público do evento, que forma uma plateia espontânea.

Como Franzen morou em Berlim entre 2007 e 2008, a apresentadora sentiu-se à vontade para falar em alemão. Com ouvido apurado, o escritor compreendia as perguntas, mas, ao responder, tropeçava na colocação das palavras, além de não evitar longos silêncios. Quando se rendeu e decidiu falar em inglês, descobriu que o programa mantém um tradutor simultâneo que, com um microfone mais potente, traduz rapidamente suas palavras e as fala em voz alta.

O primeiro momento foi engraçado. Entre assustado e surpreso, Franzen olhou para cima e brincou, dizendo que Deus lia seus pensamentos. Mas, a cada intervenção do tradutor, ele voltava a falar em alemão, truncando a conversa que teria apenas meia hora. Nos momentos em que conseguiu articular alguma ideia, disse que considera a escrita de um romance como um ato humanista. "Por conta disso, cada frase deve ser pesquisada até seu âmago. Só assim, o autor poderá dizer que ela está pronta."

Franzen citou também o austríaco Thomas Bernhard (1931-1989) como uma de suas inspirações ao escrever Freedom. Bernhard era dono de uma prosa caracterizada por uma talentosa musicalidade no uso das palavras que, como em uma sinfonia, retornam com variações enriquecidas, garantindo o ritmo e respeitando a inteligência de uma história nada ordinária.

É essa perfeição que o escritor americano busca em seus textos. Franzen já confessou sua admiração por Stendhal que, antes de escrever A Cartuxa de Parma, passou anos viajando pelo mundo e, quando voltou, resolveu o problema em apenas 53 dias. O americano passou os últimos dias viajando, mas a agenda lotada e a atitude blasé que adotou no coquetel em sua homenagem em Frankfurt não parecem inspiradoras.

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