Aquele jantar fatídico

Paris, 1925. Gil Pender embarra num jantar com William Faulkner e encanta-se com uma observação do escritor sobre a onipresença do passado. Pender é aquele delirante roteirista de cinema que na comédia de Woody Allen, Meia-Noite em Paris, viaja no tempo até a Paris dos anos 1920. Faulkner não fazia parte da turma de Hemingway nem aparece no filme, mas como passou alguns meses na capital francesa justamente no ano em que Fitzgerald lá se estabeleceu, não soa absurdo que Pender (Owen Wilson) o tenha ouvido dizer de viva voz a frase que usaria como argumento para justificar seu obsessivo interesse pela Geração Perdida: "O passado não está morto; na verdade, nem sequer passou".

SÉRGIO AUGUSTO,

03 de novembro de 2012 | 03h53

 

Allen a extraiu de uma obra menor do escritor, Requiem for a Nun (aqui, Réquiem Para uma Negra), editada em 1951. Ou melhor, adaptou-a. Em sua forma original, o passado "nunca morre" (is never dead), está sempre a nos cobrar coisas, é "algo como uma promissória". O alter ego de Allen, portanto, emprestou-lhe outro sentido. Até por ser sutil, a diferença não configura falta grave.

 

Inclusive por tê-la tirado de seu contexto, o cineasta irritou a sociedade que administra os direitos autorais do escritor, a Faulkner Literary Rights, que há oito dias abriu um processo no Mississippi contra a Sony Pictures Classics, distribuidora do filme, e dezenas de exibidores, acusando-os de haver infligido os direitos do autor, apropriando-se de sua obra sem pedir autorização. No filme, o protagonista cita Faulkner nominalmente e não lhe sonega a autoria da frase. Poderia tê-la atribuído a um escritor anônimo, livrando-se de uma eventual acusação de plágio, já que Faulkner, afinal de contas, escreveu algo que não corresponde ao conceito captado pelo passadista Pendel, naquele fatídico jantar, mas, honestamente, não o fez.

 

Frívolo, mal-intencionado e estapafúrdio, o processo contra Meia-Noite em Paris desrespeita o direito à citação, a licença poética, e é passível de um revertério, com a Sony e os demais imputados movendo uma ação indenizatória contra os representantes dos herdeiros, que deles exigem reparação em dinheiro, um bom quinhão dos US$ 116 milhões que o filme faturou até agora.

 

Por que os advogados da família Faulkner (hoje reduzida a três netos e uma sobrinha) demoraram 17 meses para entrar com o processo? Presumo que ficaram esperando o comportamento do filme nas bilheterias, e que se Meia-Noite em Paris não tivesse feito tanto sucesso, aceitariam de bom grado a homenagem ao escritor, como fizeram quando Barack Obama, em 2008, citou a mesma frase num discurso sobre o racismo na América.

 

Até porque foi homem de cinema, roteirista em Hollywood quando não estava inteiramente de porre, Faulkner morreria de vergonha do que os advogados de seus herdeiros aprontaram com a Sony. Recentemente eles levaram aos tribunais a empreiteira Northrop Grumann, por "apropriação comercial" de outra frase do escritor, num anúncio de página inteira publicado no Washington Post, também incluído na ação judicial. É preciso ser muito obtuso para nivelar os interesses comerciais de uma empreiteira com os interesses artísticos de um diretor de cinema.

 

Quem dirige a Faulkner Literary Rights é um produtor de filmes sem pedigree chamado Lee Caplin, há tempos envolvido numa adaptação para a tela de Enquanto Agonizo (As I Lay Dying). Deveria entender melhor a diferença entre citação e apropriação indébita. Allen faz muitas citações em seus filmes; se obrigado a pedir autorização para cada uma delas, suas produções andariam a passo de cágado e em alguns casos se inviabilizariam. A menos que só citasse autores em domínio público, como, por exemplo, Shakespeare, de quem Faulkner, aliás, chupou sem problemas o título de O Som e a Fúria.

 

Encerrada essa patética disputa forense, Allen bem que poderia nos brindar com uma sátira à cupidez dos que vivem da gigolagem de direitos autorais, de direitos de imagem, quase sempre faturando muito mais com a obra do defunto do que este quando a produzia. No mundo artístico, herdeiro virou sinônimo de parasita, de sanguessuga. É praga universal, que pelo menos um ensaio em forma de livro já inspirou - Familles, Je Vous Hais!, Les Héritiers d’Auteurs (Famílias, Eu Vos Odeio!, Os Herdeiros de Autores) -, escrito por um especialista em propriedade intelectual, Emmanuel Pierrat.

 

Já que herdeiro virou profissão, o bibliófilo José Mindlin sugeriu que os familiares de escritores se identificassem como tal no cartão de visitas. O grau de parentesco é irrelevante. Viúvas, filhos, netos, sobrinhos, todos querem mamar; e costumam brigar mais entre si que os Karamazov. No afã de preservar e explorar seus copyrights ao máximo, acabam prejudicando o protegido e a difusão de sua obra. Entre nós, virou um bicho de sete cabeças reeditar os livros de Guimarães Rosa, Monteiro Lobato, Nelson Rodrigues, Oswald de Andrade, Graciliano Ramos, Manuel Bandeira, Cecília Meireles, ou montar um simples catálogo sobre a obra de Volpi e Di Cavalcanti.

 

Há quem diga que as viúvas são ainda mais gananciosas que os filhos. E quanto maior a diferença de idade entre elas e os falecidos, maior a cobiça. A reedição da obra completa de Borges pela Pléiade recebeu marcação cerrada de Maria Kodama. A viúva do espanhol Camilo José Cela, morto há dez anos, passou a perna na primeira mulher e no filho do escritor, e embolsou tudo. A segunda mulher do espanhol Rafael Alberti conseguiu alijar a filha do poeta, Aitana Alberti, do espólio familiar. A viúva de Stieg Larsson é uma exceção. Foi passada para trás pelo sogro e pelo cunhado, os únicos a se beneficiar do sucesso póstumo do escritor sueco.

 

s.augusto@estadao.com.br

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