Aquele impeachment

Éramos esperançosos no final dos anos 1980. Novas ideias surgiam, na volta das trincheiras da Guerra Fria. A Constituinte mobilizava o País. O debate estava amadurecendo: nasciam editoras, coleções, as tiragens aos domingos dos grandes jornais passavam de um milhão.

Marcelo Rubens Paiva, O Estado de S.Paulo

09 de abril de 2016 | 02h00

Movimentos sociais, essenciais numa democracia, renasciam num novo formato. Índios, negros (quilombolas), sem-teto, sem-terra, minorias (deficientes, mulheres e homossexuais), sindicatos livres, centrais sindicais e uniões estudantis voltaram a ter influência nos Três Poderes.

Era comum nos encontrarmos pelos corredores do Congresso, fazer lobby e agregar: construir um projeto de Nação e costurar uma nova Constituição. Em 1989, teríamos, enfim, a eleição direta para a Presidência. A última fora em 1960, em que um populista aventureiro, Jânio Quadros, de um partido sem expressão (PTN), cabelos despenteados com caspas cuidadosamente expostas, ganhara uma eleição disputadíssima de um turno com 48,26% dos votos; menos da metade do eleitorado.

O mote da campanha, o combate à corrupção. O símbolo, a vassoura. O jingle, uma marchinha: “Varre, varre vassourinha, varre, varre a bandalheira, que o povo já está cansado, de sofrer dessa maneira, Jânio Quadros é esperança, desse povo abandonado”.

Jânio não conseguiu governar. Sua aliança política era ilusória. O vigésimo segundo presidente do Brasil renunciou em agosto de 1961, sete meses depois. O Brasil mergulhou numa grave crise institucional. Um novo regime surgiu para acabar com a corrupção e o comunismo. A corrupção só aumentou.

Em 1989, um desconhecido político de Alagoas, de família muito rica, resgataria o estilo Jânio. Também de um partido obscuro (PRN), cabelo com gel, seu lema de campanha era “governar para os descamisados”.

A candidatura do Caçador dos Marajás, como foi apresentado pela Veja, corria por fora. Concorria com as maiores lideranças políticas do País – Mário Covas (PSDB), Brizola (PDT), Ulysses Guimarães (PMDB), Lula (PT) e Paulo Maluf (PDS). Adotado pelo empresariado, ruralistas e, especialmente, pela Rede Globo, que temia um governo alinhado com a esquerda, Collor, que tinha uma retransmissora da emissora, largou em último (5%), foi ao segundo turno com Lula, que recebeu apoio de Brizola, Covas e Ulysses, aliança hoje impensável.

Venceu o “Sapo Barbudo” (apelido dado por Brizola) por uma diferença de 5,71%, num país rachado: 50,01% votaram nele. Na sexta-feira, 16 de março de 1990, a nova ministra Zélia Cardoso de Mello entrou com uma hora de atraso no auditório do Ministério da Economia para apresentar o plano de frear a inflação galopante.

Numa entrevista coletiva, anunciou que confiscara todo dinheiro aplicado em contas correntes. Poderíamos retirar apenas 50 cruzados novos: “Não há nenhuma penalização aos 60 milhões de brasileiros que ganham menos do que cinco salários mínimos, nem à classe trabalhadora, aos pequenos poupadores. Ganha a sociedade brasileira, pois teremos um país com mais justiça social”.

Anarquizaram as leis básicas da economia. Mexeram numa instituição brasileira intocável, a Caderneta de Poupança. O Estado paralisou. O comércio paralisou. O dinheiro dos brasileiros ficaria retido no Banco Central por 18 meses, com correção e 6% de juro ao ano. No caso dos fundos de curto prazo, o resgate era mais limitado.

O congelamento brutal de recursos equivalia a 30% do PIB. Claro que os 60 milhões foram os mais atingidos. O Plano Collor decretou controle de preços e salários por 45 dias, aumento das tarifas de energia elétrica, telefone e transportes urbanos, e extinguiu estatais como Portobrás, Siderbrás, EBTU e Embrafilme.

O País mergulhou na maior recessão de sua história até então. A economia retraiu 4,3%. Em 1990, a inflação chegou a 1.620%. Em 1991, recuou para 472%. Em 1992, voltou a passar dos 1.000%. Em 1993, bateu os 2.477%. Era o quarto plano econômico em quatro anos. Os anteriores também fracassaram.

Entramos num dos piores momentos culturais da história. O cinema acabou. Na literatura, a autoajuda dominava as prateleiras. Leitores precisavam de palavras reconfortantes e místicas para suportar as incongruências do dia a dia. Axé, pagode, sertanejo desempregou a brilhante geração Cazuza & Renato Russo.

O Poder virara uma festa irresponsável afogada em Logan, produtos importados e gravatas Hermes. Denúncias começaram a surgir. Collor não conseguia governar. Nenhum movimento social o defendia. Quando pedia apoio da população, o efeito era contrário: ela saía espontaneamente em massa, de preto, exigindo a renúncia. Pelo Datafolha, quando tomou posse, 71% dos eleitores tinham uma expectativa de que o governo federal fosse “ótimo” ou “bom”. Depois do Plano Collor, caiu para 36%.

Seu irmão, Pedro Collor, revelou o esquema de corrupção que envolvia o ex-tesoureiro da campanha, Paulo César Farias. Em 2 de setembro de 1992, foi aberto o processo de impeachment na Câmara proposto por Barbosa Lima Sobrinho. No fim do mês, por 441 a 38 votos, votou-se pelo impeachment. O 32.º presidente do Brasil renunciou em 29 de dezembro de 1992, horas antes de ser condenado pelo Senado por crime de responsabilidade.

O risco de se ter um aventureiro excêntrico que “diz a verdade”, de um partido sem expressão, é constante até em democracias maduras. Depois da Mani Pulite (Operação Mãos Limpas), que esmigalhou os partidos tradicionais italianos, Silvio Berlusconi, milionário midiático, subiu ao poder com um novo partido, Força Itália. Il Cavaliere (O Cavaleiro) colecionou escândalos. Nos EUA, Donald Trump ainda lidera a corrida republicana. Pelas pesquisas, derrota Hillary Clinton.

Todos eles, Jânio, Collor, Berlusconi e Trump, têm muito em comum, além da preocupação extra com a cabeleira: são populistas pós-modernos, “desreferencializados”, não alinhados à política tradicional, que se dizem além da velha dialética direita versus esquerda e se apresentam como os escolhidos para reformar um Estado corrupto e inoperante. Papo que seduz os despolitizados.

Não terminaram bem seus mandatos, muito menos a corrupção. Porque talvez não seja um líder messiânico ou uma fileira de tanques que acabará com ela. É a velha política de baixo para cima que precisa ser reformada. É o Estado que precisa ser revisado. Sugestão? Recomeçarmos e retomarmos. A proposta de uma nova Constituinte que movimente as reformas paralisadas não deve ser desprezada. Uma que não engane ninguém: a luta de classes é o fundamento de qualquer nação.

 

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