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Ignácio de Loyola Brandão
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Aquele apartamento em Lisboa

Quando entrei na suíte 205, fiquei pasmo, ela era dedicada a José Saramago. Senti um arrepio

Ignácio de Loyola Brandão, O Estado de S. Paulo

15 de março de 2019 | 02h00

Para Pilar del Río e José Carlos de Vasconcelos

 

Póvoa de Varzim, Portugal - Encontrei-me com Pilar del Río pela primeira vez no restaurante do hotel Axis no final de um pequeno almoço, como se diz aqui. Ela se aproximou e deu-me um abraço reconfortante com um sorriso cálido. Então essa é a Pilar, pensei. E ela: “Me lembre de contar como te conheci”. Assombrado, fiquei me perguntando quando e como isso teria ocorrido, eu jamais estivera frente a frente com a mulher de José Saramago. Eu a conhecia por fotos, filmes, notícias, reportagens, documentários. Retruquei: “E eu preciso te dizer da dívida que tenho com José”.

Depois nos desencontramos por alguns dias. Porque na 20.ª edição das Correntes d’Escritas circularam nada menos do que 140 escritores de nomeada da língua portuguesa e espanhola, vindos do mundo inteiro. É o mais importante acontecimento desse gênero na Europa. Enquanto Marcelo Rebelo de Sousa, presidente de Portugal, e Jorge Carlos Fonseca, presidente da República de Cabo Verde e também da Conferência de Chefes de Estado e de Governo da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa, nos deliciaram com falas articuladas, cultas, me envergonhava na poltrona ao lembrar dos tuítes insensatos e rasteiros de nosso presidente. 

Por uma semana seguida o que se viu? Uma azáfama sem cessar entre o hotel, o Teatro Garret, as escolas do município, as Galerias Euracini, a longa avenida da praia e alguns deliciosos restaurantes. E se observava aqui dois prêmios Camões a conversar e ali três prêmios Cervantes dialogando com um prêmio Casino da Póvoa. (Casino aqui é com um S só, mesmo!) E prêmios de poesia, de prosa, da Fundação Dr. Luís Rainha, prêmio Papelaria Locus. Luis Diamantino, vereador da cultura da cidade, e uma das molas mestras das Correntes, cargo que equivale aos nossos secretários de Cultura, disse: “Aqui não há estrelas. Todos são igualmente importantes nesse evento que tem como objetivo promover o livro e a leitura”. 

Víamos o tempo inteiro a onipresente – ou onisciente – Manuela Ribeiro, a pessoa mais procurada, requisitada, quebra-galhos, administradora, psicanalista, cuidadora, conselheira, salva-vidas, confidente, consolatrix aflitorum, que, à frente de uma equipa (gostei do equipa) de 60 assessores, coadjuvantes, parceiros, coligados, acólitos, braço direito, esquerdo, quantos braços ela possa necessitar (a cada instante ela cria um novo) passa o ano, e vem passando há muitos, a estruturar tudo nessas Correntes que são consideradas uma “família”, com centenas de pessoas lotando as plateias, sentadas no chão, nas escadas, em cima de cadeiras, banquinhos nas costas de alguém, amontoadas onde houver um centímetro, a ouvir falar de literatura, criação, livros, imaginação, política, ficção e realidade.

Brasileiros éramos quatro, Nélida Piñon, a homenageada deste ano, Milton Hatoum, Alexandre Marques Rodrigues (que lançou seu livro Parafilias ao meu lado) e eu. Mal nos víamos, os horários das falas às vezes eram simultâneos. Uma tarde, estávamos no palco principal, Valter Hugo Mãe, como mediador, doce figura quando necessário, incisivo e severo, quando não sarcástico; Pilar del Río e eu e nosso tema era o verso de Sophia de Mello Breyner “Porque os outros se calam mas tu não”. Falamos, não nos calamos, mesmo porque Pilar é jornalista, escritora, tradutora, presidente da Fundação José Saramago em defesa e difusão da Declaração Universal dos Direitos Humanos e dos problemas do meio ambiente

Quase a terminar estourado nosso tempo, Pilar confessou: “Eu via um canto da estante de Saramago lá em casa, onde havia muitos livros de um mesmo autor, e volta e meia chegava ou ele trazia um novo. Quem é esse?, perguntei um dia. Assim fiquei sabendo quem você era e como ele te estimava”.

Poderia ter me levantado e feito uma reverência, como aquelas que Leilane Neubarth faz ao iniciar seu GloboNews. Só respondi: “E saiba que eu estava encalacrado no final de meu romance Desta Terra Nada Vai Sobrar... (*) quando me lembrei de A Jangada de Pedra, que sempre me impressionou demais! Que início de livro! Foi uma iluminação. Usando o mesmo artifício – e admitindo – escrevi a cena final do meu livro, quando o Brasil se esfacela, explode. Quando pensar em Saramago, momento desses, por favor, Pilar, diga obrigado, é grande a minha dívida”. Saibam leitores que não estraguei o final para quem ainda não leu, a surpresa vem depois.

Agora, me digam se há acasos, coincidências, simultaneidades ou o quê? Pequenos enigmas. O que a vida apronta? Segui para Lisboa para participar da mesa final das Correntes na Instituto Cervantes. Lá estariam Sergio Ramirez, Mempo Giardinelli, Maria Quintans, Filipa Martins e eu. Minha reserva foi em um hotel novo e muito especial, o Eurostar das Letras, na Rua Castilho. Ao fazer o check-in, o concierge me avisou: “Estava a te colocar em um apartamento, não sei o que me ocorreu, vou te dar outro, o 205”. Quando entrei, fiquei pasmo. Cada suíte é dedicada a um grande escritor da literatura mundial. O meu era o do Saramago. Na cabeceira da cama, sobre a grande foto de um oceano revolto estavam as frases iniciais de A Jangada de Pedra. Senti um arrepio.

(*) A edição portuguesa do romance foi publicada pela Editora Teodolito de Carlos da Veiga, grande sujeito que vem arriscando em brasileiros.

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