Imagem Humberto Werneck
Colunista
Humberto Werneck
Conteúdo Exclusivo para Assinante

Aquelas duas

Voltei lá faz uns meses, para um papo literário, e, mal chegado, a memória regurgitou lembranças mais do que cinquentenárias.

Humberto Werneck, O Estado de S.Paulo

17 de maio de 2016 | 02h00

Era a segunda vez que eu subia as escadarias de mármore do vetusto casarão, belo-horizontino, mas provido de colunas gregas, antiga residência do Dr. Borges da Costa, hoje sede da Academia Mineira de Letras. A conversa, sobre crônica, aconteceria ao lado, num belo prédio moderno, mas antes os anfitriões quiseram me proporcionar uma visita ao casarão.

Na primeira vez, eu tinha lépidos 16 anos e, num contraste cômico, envergava a sisudez de um smoking talhado para corpo bem mais ancho, empréstimo do tio Renato para que o sobrinho não destoasse na pompa daquela festa de 15 anos.

O ano era 1961 e, à semelhança deste de 2016 (curiosa dança de algarismos: 61, 16), estava condimentado por solavancos cívicos. Comparada com a de hoje – literalmente, pois escrevo na madrugada do ainda mal nascido e já histórico 12 de maio –, a crise institucional de então poderia até parecer branda. Não era: renúncia de Jânio, resistência da direita em dar posse ao vice João Goulart, parlamentarismo arrumado às pressas para aplacar golpistas.

Mas não era em nada disso que eu pensava quando, naquele smoking ajustado pela mãe ao corpo adolescente, subia as escadarias da mansão da Rua da Bahia, onde me esperava a festa de debutante da bela Sandra, neta do falecido Borges da Costa. Coisa fina. Café society, como se dizia, e com toda a cafeína que pudesse haver.

Encontraria ali um clima cuja memória o tempo recobriu de sépia, mas que uma foto, revista agora, vem recompor com nitidez. Na velha imagem há três moças, na verdade três e meia, pois de uma, a Maria Inês, só se vê metade, todas elas contidas em castos decotes mineiros e equilibrando cabeleiras volumosas que só muito laquê mantém armadas.

Todas empunham taças – que, obedientes à etiqueta vigente, são baixas e de boca larga, com bordas douradas –, nas quais borbulha, bebida de moça, champanhe demi-sec. Fossem rapazes e seus copos conteriam a heresia repulsiva do uísque com guaraná.

Uma das moças, bela, séria, olhos arregalados, não sei dizer quem é. No lado direito, meio de perfil, resplandece a aniversariante. No centro, ligeiramente mais alta que as demais, cabelos escuros e colar de pérolas, olhos postos nas taças que tilintam em brinde, está Dilminha, Dilma Vana Rousseff.

Salvo aquela que não reconheço, são meninas da minha turma de bairro, moradoras na Major Lopes, a mesma rua onde, mais adiante, vive o futuro Frei Betto, filho da dona Stela, fabulosa mestre-cuca que nos anos 1970 reunirá a suma de suas artes e manhas no best-seller Fogão de Lenha. Betto, por aquela época, andou tentando me atrair para a JEC, a Juventude Estudantil Católica, sem êxito, visto que eu, sendo pouco estudantil e menos ainda católico, só preenchia, das três, a condição de jovem.

Na casa da Sandra, ouvi pela primeira vez Ray Charles. Na da Dilma, quase em frente, Major Lopes 442, só me lembro de ter entrado para o velório de Seu Pedro Rousseff, cuja condição de búlgaro fazia dele uma anomalia nos preconceituosos domínios da Tradicional Família Mineira. Talvez por isso não houvesse ali “horas dançantes”, os bailinhos belo-horizontinos, nem serenatas, habituais sob as janelas de outras moças da turma, num tempo em que nenhum de nós morava em apartamento.

Bem mais tarde, quando Lula a escolheu para sucedê-lo, fiz um texto galhofeiro lamentando nunca ter tirado a Dilma para dançar, iniciativa que, na dependência de improváveis desdobramentos galantes, poderia ter credenciado o moço para entrar na História como O Pai do PAC. Veio a ser minha eleita, mas noutro sentido. Também não chegamos a nos cruzar na amplidão do Colégio Estadual, onde, cada um à sua maneira, começamos a nos interessar pela política. A futura guerrilheira era já de esquerda? Na foto de 1961, ainda está no centro.

Quem mais me impressionou naquela noite foi outra dentucinha, a Ângela Diniz, já engatilhando o bote para ser aos olhos do País a “Pantera de Minas”. Na revisita ao casarão, não deixei de subir, peregrino, ao terraço onde há mais de meio século a vira cintilar.

Ninguém, entre os convidados da Sandra, irá transitar tão pública e vertiginosamente entre Céu e Inferno quanto aquelas duas. Ângela, libérrima e desafiadora, famosa e falada, 15 anos depois será abatida com 4 tiros por um namorado ciumento. Dilma enfrentará prisão e tortura no regime militar, e, nas culminâncias do Estado, aonde chegou pela vontade de 54 milhões de brasileiros, será alvo de implacável tiroteio, cuja munição incluirá o machismo mais desinibido de homens e mulheres, antes de ser, minutos atrás, sob foguetório, abatida com 55 votos no Senado da República.

Mais conteúdo sobre:
Humberto Werneck

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.