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Sérgio Augusto
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Aquela Copa do Mundo

O Mundial a caminho nos remete fatalmente à Copa de 50, e a Copa de 50 me remete automaticamente ao jornalista e crítico de cinema Paulo Perdigão (1939-2006), seu mais apaixonado arqueólogo e exegeta. Em sua crônica desta semana, Arnaldo Jabor referiu-se a essa paixão e ao livro por ela gerado, Anatomia de uma Derrota (L&PM), leitura indispensável para quem quiser reviver o que aconteceu no Maracanã na histórica tarde de 16 de julho de 1950 e entender o que a perda do Mundial significou para nosso futebol, para nosso complexo de vira-lata, e, por fim mas não por último, para a psique do autor. 

Sérgio Augusto, O Estado de S.Paulo

30 de maio de 2014 | 22h20

Mesmo quem não liga para futebol encontrará em suas páginas o prazer que as obras que transcendem com maestria sua limitação temática sempre proporcionam. Porque Anatomia de uma Derrota é mais que um minucioso estudo sobre nossa mais traumática experiência numa Copa do Mundo; é uma análise catártica de “um mito fabuloso que se conserva e se agiganta na imaginação popular”. Se O Negro no Futebol Brasileiro, de Mário Filho, é o Casa Grande e Senzala da bola, o ensaio de Perdigão é Os Sertões do “Maracanazo”. 

Tragédia grega do 3º Mundo, Waterloo dos trópicos, Crepúsculo dos Deuses tupiniquim, metáfora dos malogros da sociedade brasileira no campo social e econômico—a vários epítetos grandiloquentes a derrota para a seleção uruguaia no jogo final da 4ª Copa do Mundo já se prestou. Nenhum, a meu ver, hiperbólico. Maior provação coletiva e sem vítimas fatais de nossa história contemporânea, o 16 de Julho de 1950 mexeu com milhões de pessoas, até com estrangeiros que vieram cobri-la e também davam de barato o triunfo de nossos deuses da pelota no olimpo adrede erguido para sua glorificação. 

O escritor e ex-seminarista Carlos Heitor Cony deixou de crer em Deus depois daquele Götterdammerung. Não por causa da derrota em si, mas por não haver encontrado uma só pessoa que descrevesse da mesma maneira o cristalino lance do segundo gol uruguaio, com apenas quatro protagonistas: Ghiggia, Bigode, Juvenal e o goleiro Barbosa. “Como então acreditar na versão de meia dúzia de apóstolos, aos poucos que viram Cristo ressuscitar, meio na penumbra, num local ermo e obscuro?”, perguntou-se Cony, para em seguida tornar-se um ateu ou, no mínimo, um agnóstico praticante.

É com esse testemunho que Perdigão abre sua narrativa, fluida, emocionada e enriquecida pelo que aprendeu lendo Freud, Kierkegaard, Sartre, Camus e Heidegger, referências infrequentes em livros sobre o esporte das multidões, porém inevitáveis numa reflexão sobre um sonho desfeito diante de 200.000 espectadores, entre os quais se encontrava um menino de 11 anos chamado Paulo Roberto Browne Perdigão, que a tudo assistiu das cadeiras cativas compradas pelo pai para toda a família. O fatídico gol de Ghiggia, aos 34 minutos do segundo tempo, aconteceu bem diante de seus olhos. 

Quando nos tornamos amigos, em 1960, sua maior obsessão parecia ser o western Os Brutos Também Amam (Shane). Assim ao menos pensavam os que não o conheciam com mais intimidade. Identificara-se com Joey, o menino que Shane deixava na “orfandade” na cena final, e desenvolvera mirabolantes teorias a respeito do filme, sobre o qual escreveria um belo ensaio, editado em livro também pela L&PM, e faria um vídeo, no qual, em determinado momento, assumia o papel de Joey, salvando o herói de um tiro pelas costas. 

Logo em minha primeira visita ao apartamento em que solteiro morava com os pais, na Avenida Atlântica, descobri que Shane era apenas a mais visível de suas obsessões. A debacle de 16 de julho de 1950 já lhe tomara pastas e mais pastas de recortes, fotos e anotações. Estranhamente não se interessava por futebol. Torcia por torcer pelo Vasco (“por causa de Ademir”), chegou a compor comigo uma dupla de ataque no time da revista Fatos & Fotos que aos sábados disputava peladas na Escola Naval, circa 1969, mas preferia mesmo o sedentário futebol de botão. 

Era o primeiro a reconhecer que os motivos de sua fixação no “Maracanazo” pudesse desvelar uma neurose, como se o 16 de Julho fosse algo do qual não conseguia se afastar e ao qual ciclicamente retornava, na suposição de que nele residia um grande segredo que, se revelado, poderia mostrar o que ele, Perdigão, era, “por inteiro e sem disfarce”. 

Considerava sua anatomia da derrota uma purgação de seus próprios fantasmas, que complementou com um vídeo intensamente niilista (o gol de Ghiggia embalado pela Sinfonia Manfred, de Tchaikovski, como os clímaxes melodramáticos das antigas novelas da Rádio Nacional) e um conto influenciado por H.G. Wells e pelo Ray Bradbury de O Som do Trovão, no qual um alter ego do autor viaja, numa máquina do tempo, até a manhã de 16 de julho de 1950 para uma missão impossível: impedir que a Seleção Brasileira leve o segundo gol. O conto, publicado na revista Ele Ela e incluído no livro, foi adaptado ao cinema por Jorge Furtado, com Antonio Fagundes como o viajante no tempo que descobre ter sido o grande culpado pela tragédia que tentara reverter. Freud explica.

Como também explicaria a complicada relação de Perdigão com o pai, que a certa altura é comparado a Obdulio Varela, o “assustador capitão” do time uruguaio. Dr. Silvio era engenheiro da Prefeitura, de aspecto grave e temperamento autoritário, sempre sério, de terno e gravata, voltado exclusivamente para o trabalho. Nunca o vi sequer esboçar um sorriso. No filho inspirava respeito e, acima de tudo, medo. “Diariamente, até a hora em que costumava chegar do trabalho”, confessou Perdigão, “minha vida em casa era uma coisa. Com a presença dele, era outra: o rigor, a disciplina, o quase pânico de não corresponder aos seus códigos de dono da casa.” Dr. Silvio me lembrava Adam Trask, o severo pai de A Leste do Paraíso (no cinema, Vidas Amargas), embora Perdigão, ao contrário de Cal Trask, o hostilizado filho de Adam, não tivesse qualquer problema de relacionamento com a irmã, alguns anos mais velha.

Ir com o pai, a mãe e a irmã ao Maracanã foi uma hora do recreio que culminou com uma “negação brutal” da felicidade transitória e assinalou, para Perdigão, o fim da infância. A volta ao lar foi terrível. Descendo a rampa do estádio, após a derrota, sentiu a asfixiante seriedade paterna alastrar-se na multidão, imersa, como ele, numa “tristeza sem consolo”. A Copa fora embora que nem Shane. Deixando a inconsolável certeza de que nunca mais o Brasil ganharia a Copa de 50.

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