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Ignácio de Loyola Brandão
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Aquela casa do Cosme Velho

Nesta casa, no final de 1976, foi redigido o Manifesto dos 1.046 intelectuais que ousaram repudiar a censura que corria solta

Ignácio de Loyola Brandão, O Estado de S. Paulo

29 de março de 2019 | 02h00

Não demoro, coloco a primeira frase. Eu a tenho usado dezenas de vezes. Para mim, não existem acasos, coincidências ou o que se chama agora simultaneidade. A vida traça pontos e, quando percebemos, eles estão ligados. Comecemos pela casa do Cosme Velho, no Rio de Janeiro. No dia da eleição, o candidato à Academia Brasileira de Letras deve estar naquela cidade para esperar o telefonema do presidente da ABL, que irá comunicar sua eleição para a vaga pretendida. Em seguida, um grupo de acadêmicos se dirige ao local para os cumprimentos, sendo recebidos com um coquetel. É o cerimonial da celebração.

Quando a eleição se aproximava, e como moro em São Paulo, veio a questão: onde esperar o chamado? Quando a editora Global pensava em alugar um espaço ou reservar hotel, recebi um e-mail de Cicero Sandroni, também acadêmico e amigo de muitos anos. Ele me disse: “Dois eleitos esperaram o anúncio aqui em minha casa, Nelson Pereira dos Santos e José Murilo de Carvalho. Ela, a casa, está à sua disposição. Laura e eu vamos ter o maior prazer se você aceitar”. Ora, adoro Laura Sandroni, das maiores especialistas em literatura infantil deste Brasil e presidente emérita da Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil (FNLIJ). Respondi sim e a Global preparou a festa.

No dia, chegamos cedo ao Rio de Janeiro, fomos para o hotel e as horas não passavam. Deveria chegar no máximo às 16h30 à casa de Laura e Cicero, no Cosme Velho, bairro onde morou Machado de Assis. No táxi, inquietos, Marcia, Rita e eu, nos vimos envolvidos pelas manifestações pró-Marielle (esta sim, tornada mito) no aniversário de sua morte. Tudo parado, o motorista tentava se desviar, mas não há muitas variáveis no trânsito do Rio. 

De repente o telefone tocou, era Marco Lucchesi, o presidente da Academia me comunicando: “Vitória unânime. Já estamos indo ao seu encontro”. E eu não estava lá. Apesar do ar condicionado, ansioso, comecei a suar dentro do carro. E se não chegasse antes? Quebraria o ritual? Estava começando mal? 

Chegamos. A casa de Cicero e Laura, aconchegante, fica numa encosta de morro, rodeada de verde. Entrei atordoado, pareceu-me atravessar uma névoa, fui abraçando, reconhecendo as pessoas, tirei fotos com todo mundo, fui levado por fotógrafos, puxado por cinegrafistas, pessoas amigas chegavam, também atrasadas, contentes, a festa rolou. Por horas, aquela família Sandroni, Laura, Paula, Luciana, Cicero e Dudu foram a minha família, eram anfitriões e como que parentes. Pura emoção.

Então, tudo ficou claro. Minha vida tinha muito a ver com esta casa onde eu nunca tinha entrado. No entanto, ela fez parte de minha vida em um momento dos mais importantes para o País, para a cultura e para mim. Aqui nasceu um dos movimentos na luta contra a ditadura militar (essa que Bolsonaro diz não ter existido). Nesta casa, no final de 1976, foi redigido o Manifesto dos 1.046 intelectuais que ousaram repudiar a censura que corria solta. Tudo feito em sigilo, como era necessário, para evitar represálias, prisões e outras coisas desagradáveis (que nosso presidente admite serem necessárias) que costumavam acontecer na época.

No Manifesto, entre outros, figuram nomes como os de Antonio Candido, Sergio Buarque de Holanda, Jorge Amado, Antonio Callado, Carlos Heitor Cony, Otto Maria Carpeaux, Carlos Drummond de Andrade, Otto Lara Resende. 

Foi, desde 1968, a maior manifestação de intelectuais, contra o golpe militar de 1964. Na “sequência de inexplicáveis arbítrios”, diz o documento, “a censura proibira os livros Feliz Ano Novo, de Rubem Fonseca, Aracelli, Meu Amor, de José Louzeiro, e Zero, de Ignácio de Loyola Brandão. O documento destinava-se a frear o trator dos censores, acentuando com veemência: “Nós, para quem a liberdade de expressão é essencial, não podemos ser continuamente silenciados. O nosso amordaçamento há de equivaler ao silêncio do próprio Brasil e à sua inequívoca conversão em país que muito pouco terá a dizer brevemente”.

Zero, escrito durante dez anos, me lançou primeiro nacional e internacionalmente. Graças à coragem de Lygia Jobim, uma editora audaciosa, saiu no Brasil, foi proibido, liberado, está até hoje circulando. Sem ele, não seria o que sou hoje. Nada teria acontecido. Caminhei pela casa do Cosme Velho, ali tinham se reunidos defensores da liberdade de expressão, da cultura, da fala, das opiniões contrárias. Tudo que parece ameaçado de novo outra vez.

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