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Aquários de Proust

Ela notou que Proust usara o aquário como metáfora da falta do sentido de visibilidade e das distâncias

Milton Hatoum, O Estado de S.Paulo

23 de julho de 2021 | 03h00

Numa noite fria de junho, aproveitei os últimos minutos do nosso encontro para perguntar a Irma se a memória dela ainda estava afiada. 

Minha amiga respondeu sem titubear:

“Quando o sono leva uma pessoa para longe do mundo habitado pela lembrança e pelo pensamento, através de um éter onde essa pessoa estava sozinha, mais que sozinha, sem nem mesmo esse companheiro em que é possível reconhecer-se a si mesmo, é sinal de que essa pessoa estava fora do tempo e de suas medidas.” 

Tomou fôlego e acrescentou:

“Mas o duro é quando o sono acaba numa curva súbita e a gente abre os olhos para a realidade assustadora. Porque o prazer do sono não se renova durante o dia, ainda mais nesses dias de tanta ira e de tantas mentiras.”

Irma talvez seja a mais proustiana das minhas amigas; ela cita em tradução libérrima e voz comovida passagens de Sodoma e Gomorra. Inspirada, acrescenta palavras ou frases que lhe vêm à mente. 

Desde o século passado, quando ficamos amigos, Irma me humilha com sua memória prodigiosa, que parece mais elástica com a passagem do tempo, pois há anos nós dois já ultrapassamos a linha do Equador. 

Quando digo que ela tem a memória de Funes - o personagem borgiano capaz de se lembrar de tudo com todos os detalhes -, Irma sorri com ironia: 

“É a releitura, mon cher. O que mais pode fazer uma aposentada? Reler bons livros, rever filmes, fazer uns bicos e ajudar os necessitados.”

Nasceu numa família humilde de Ribeirão Preto; estudou, batalhou e, como se diz, subiu na vida. Subiu tanto, que alcançou um cargo importante num banco, onde trabalhou por décadas. Não teve filhos; nunca teve carro. Fez viagens ao exterior a trabalho, e andou por muitos lugares do Brasil, para conhecer nossas graças e desgraças. 

E a Trovoada, vai bem? 

“Por enquanto, ignora a velhice”, ela riu. “Ainda late, salta, brinca e morde. Você conhece minha companheira. A idade dela equivale à minha. E agora tenho quatro gatos.

Não sentem falta de afeto nem de comida.” 

Comprou um apartamento em Perdizes e, mesmo aposentada, dá consultoria a pequenos e médios investidores; não é preciso dizer que fez uma poupança gorda. Agora faz centenas de sanduíches por semana e os distribui aos pobres. 

“Sei que é um paliativo. Mas uma família na miséria, com pai e mãe sem emprego, não sobrevive com 250 reais por mês. Vale o paliativo. Vale todo tipo de ajuda...

Sanduíches, dinheiro, cobertor, roupa, livros para crianças...” 

Ela se lembrou do passeio noturno da Trovoada e se apressou a voltar a Perdizes. A caminho do metrô, a gente parou diante de um restaurante com janelões de vidro; na sala cheia, a luminosidade era um pouco menos exagerada que as gargalhadas; na calçada, uma mulher e duas meninas esperavam alguma sobra. 

“Você se lembra da cena do aquário?”, perguntou.

Cena de um filme?

“Não, de um livro, do meu querido autor francês.”



Tirou da bolsa duas cédulas, entregou-as à mãe das crianças e se agachou para conversar com elas. Depois mencionou uma cena do romance de Proust: o restaurante cheio de comensais elegantes, e os pobres na calçada parisiense, olhando através da vidraça o jantar.

Não me recordava desse aquário proustiano, mas sim de outro, talvez no Sodoma e Gomorra. 

“Bem lembrado”, disse Irma. “É uma das cenas com o barão de Charlus. Esse aristocrata é o personagem mais excêntrico, mais cômico e um dos mais perturbados... E quanta desgraça!”

Perto da estação, Irma ainda falava do barão, difamado por parentes e amantes. Ela notou que Proust usara o aquário como metáfora da falta do sentido de visibilidade e das distâncias. 

“Charlus, Charlus”, repetia Irma. “Memé para os íntimos, lembra? O barão é como um peixe que quer nadar além de seu aquário, enganado pelo reflexo do vidro na água. O atormentado Memé não vê ao lado dele um piscicultor, o sujeito todo-poderoso que tira o peixe de seu meio natural para trancafiá-lo sem piedade num cárcere de vidro.” 

Foram as últimas palavras da minha amiga, antes do adeus. 

No caminho de volta, parei por uns segundos diante do restaurante-aquário, tão pleno de luz e risadas. Reparei numa parede um colar de lâmpadas miúdas, que emitiam um brilho de pérolas falsas. Olhei a calçada: a mulher e suas filhas, ausentes. 

Onze graus, neblina, céu sem estrelas. Andava devagar na noite gelada de junho; pensava na filantropia de minha amiga, no difamado barão de Charlus, nos que estão dentro e fora dos aquários, em Paris, aqui, por toda parte... 

É ESCRITOR E ARQUITETO, AUTOR DE ‘DOIS IRMÃOS’ E ‘CINZAS DO NORTE

 

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