Aquarelas de uma natureza acolhedora e misteriosa

Não é tão difícil imaginar o que erapara cientistas dos séculos 18 e 19 aportar num mundoinexplorado de beleza, conhecimento e aventura. Neste início deséculo 21 ainda há muito o que descobrir e decifrar, mas o quenão daria um biólogo contemporâneo para ter diante de si umcontinente inteiro de espécies ignoradas e muitas vezesexuberantes? Que o diga (e disse) Charles Darwin, quecircunavegou a América do Sul em 1831-36 a bordo do Beagle, comum volume de poesia de John Milton às mãos, e percebeu em suanatureza a superposição dos tempos e a multiplicação dasespécies - o paraíso achado da nova ciência. Para os artistas não era nem poderia ser diferente.Graças a eles, por sinal, é que podemos captar um pouco dasurpresa sentida pelos naturalistas europeus em face do NovoMundo. No caso brasileiro, livros e exposições como O Brasildos Viajantes organizados por Ana Maria Belluzzo em 1994, játrataram do tema, para não falar naqueles dedicadosexclusivamente a um artista - em especial, os holandeses AlbertEckhout e Frans Post (tema do livro recém-lançado de Pedro e BiaCorrêa do Lago) e os franceses Debret e Rugendas. Mas agora, coma exposição na Pinacoteca (vinda dos Correios, no Rio) e o livroO Rio de Janeiro na Rota dos Mares do Sul, de Pedro da Cunha eMenezes, além dos Diários de Viagens de Oswald Brierly, ambosda editora Andrea Jakobsson Estúdio, vemos que ainda há muitopor ver e ler. Os artistas britânicos que faziam a rota para a Oceaniapelos mares do Sul, entre 1768 e 1867, não conseguiam passarpelo Rio sem deixar de retratá-lo. Os ventos recomendavam escalana Guanabara; a paisagem completava a sedução. Era o tempo emque a Revolução Industrial dava combustível para a expansão dosingleses para todos os cantos do globo, e o romantismo dominavaas artes com sua mistura de admiração e aversão pelo progresso.As paisagens do Rio, com suas curvas e perspectivas amplas esuas cores intensas, sugeriam um olhar encantado e espantado. As aquarelas de Brierly, Conrad Martens (o pintor abordo do Beagle), Owen Stanley e Augustus Earle, em destaque,abrem-se para os céus numa chave lírica, em que a graduação decores revela uma intenção maior que a de um simples registrovisual: é um olhar de deleite, uma sensação de que a naturezaali é ao mesmo tempo acolhedora e misteriosa. Mesmo os desenhosde George Angas, a grafite, combinam precisão com atração.Quando chegamos aos retratos humanos, porém, a redução aoexótico domina, ainda que seja interessante notar que Earle nãoadoça como Debret a realidade social - vemos capoeiristas sendoabordados pela polícia e negros sendo chicoteados em público - eque algumas cenas de Martens e Jacob Jansson mostram o cotidianode forma mais neutra. Os diários de Brierly, que em uma de suas viagens tinhaa companhia do grande naturalista e escritor Thomas Huxley,trazem em verbo a mesma mescla de observações naturais e sociaisAs montanhas cônicas e verdes que emolduram a baía o fascinam;samambaias de sete metros lhe dão compulsão de desenhar; elereclama do calor, enquanto desenha pássaros e peixes, além debromélias da Mata Atlântica. Descreve também o estado precárioda cidade, a agressividade dos habitantes, a pobreza das ruas -e lamenta tal contraste com o que vira do navio. Mas, comoDarwin, o que levaria na mente era um novo mundo depossibilidades. Que muitas delas não tenham sido cumpridas não éculpa sua.

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