Nikolaus Karlinsky/Divulgação
Nikolaus Karlinsky/Divulgação

Aquarela Sonora

Para Angelika Kirchschlager, cantar é como usar um pincel atento a cada colorido

João Luiz Sampaio, O Estado de S.Paulo

01 de agosto de 2011 | 00h00

Em meados de julho, a meio-soprano austríaca Angelika Kirchschlager subiu mais uma vez ao palco do prestigiado Festival de Verbier, na Suíça, para uma apresentação do oratório Elias, de Mendelssohn. Via internet, o concerto foi transmitido ao vivo para todo o mundo. Maravilhas da tecnologia, certo? "Eu preciso confessar uma coisa: a ideia não me agrada nada", diz ela, sorrindo. "Depois de um tempo como cantor, você aprende que, de uma hora para outra, tudo pode falhar. Ao menos, quando se está no palco, em um teatro, cria-se uma comunhão com a plateia, somos todos parte de uma mesma atmosfera, há um desejo comum, uma respiração conjunta que tranquiliza. Mas, quando se imagina que há gente em todo o mundo te assistindo... É pressão demais!"

Kirchschlager, grande nome do canto lírico da atualidade, está no Brasil desde o fim da semana passada. No sábado à noite, fez concerto no Municipal do Rio e, amanhã e quarta, canta na Sala São Paulo como solista da Camerata Bern, atração do Mozarteum Brasileiro. É sua primeira vez no País, do qual diz conhecer muito pouco. E montou um programa que tem como objetivo mostrar aquilo que, acredita, sabe fazer de melhor. Na primeira parte, árias de Haendel; na segunda, canções de Schubert. "Esses autores são parte fundamental da minha vida", diz ela por telefone, de Buenos Aires, onde esteve antes de embarcar para o Rio. "E cantar com uma orquestra de câmara, em vez de ser acompanhada apenas pelo piano, oferece a possibilidade de ouvirmos essas orquestrações maravilhosas para as canções, feitas por grandes músicos, tão diferentes entre si, como Brahms e Reger."

Nascida em Salzburgo, Kirchschlager foi aluna de Walter Berry. Surgiu ao mesmo tempo no palcos da ópera e dos recitais. Cantou em todos os principais teatros do mundo, do Metropolitan de Nova York ao Musikverein, de Viena, passando pela Ópera de Paris e o Scala de Milão.

Na juventude, mudou-se para a capital austríaca, onde completou sua formação e vive até hoje com sua filha de 11 anos. Estudar na cidade onde viveram Mozart, Beethoven, Schubert, interferiu na percepção que tem da música deles? "É uma questão que já me coloquei e, depois de muito pensar, cheguei à conclusão de que não. Há sim algo de especial em se viver a um quarteirão da casa onde viveu Mozart. Mas não sei quanto isso de fato me influencia."

No que diz respeito a Schubert, o que mais a fascina - e isso serve para todo o repertório de canções - é a possibilidade de pintar a música com um "pequeno pincel", atenta a detalhes, a cada cor do texto e no modo como ela se transforma ao se combinar com a música. "Recentemente, montei um programa no qual interpretava canções de vários autores a partir de um mesmo poema. É fascinante perceber como as palavras se transformam e comportam diversas interpretações."

E como definir as versões de Schubert, há algo em comum, uma marca que o defina? "Veja um autor como Liszt: sua música está repleta de paixão, de poder dramático, mas tudo é um pouco óbvio. Com Schubert, é o contrário. Tudo é complexo, até as passagens de maior simplicidade. Há uma sutileza que, como intérprete, nem sempre é fácil captar, não acontece de primeira. Mas é prazeroso o desafio de compreender o quão profunda é a mente humana, os dramas que ela é capaz de criar."

O interesse pelas nuances da criação musical, diz Kirchschlager, acabou por afastá-la, nos últimos tempos, da ópera. Foi uma opção amadurecida com os anos. "Não tenho nada contra a ópera, cantei em grandes produções, com colegas incríveis, por quase 20 anos e tive experiências que me marcaram muito", ela se apressa em esclarecer. "Mas o business que ronda o gênero é cansativo. Você tem que ser uma estrela, todo mundo precisa ser uma estrela. Tudo deve ser grandioso. Com o tempo, deixei de enxergar a música no meio dessa bagunça. E a idade e a experiência trazem ao menos essa vantagem: não faço mais o que não quero. E o que quero é fazer música. O segredo do cantor, dono de um instrumento tão delicado e pessoal, é aprender a ouvir aquilo que você é, o que a sua mente e seu corpo estão constantemente lhe dizendo. É isso que leva na direção certa. E, ao menos para mim, nesse momento, o que me dá prazer é estar com minha família, minha filha, poder passar tempo com ela e fazer música da maneira em que acredito. Se isso não me render manchetes, paciência. Estou feliz no meu canto."

ANGELIKA KIRCHSCHLAGER E CAMERATA BERN

Sala São Paulo. Praça Júlio Prestes, 16, telefone 3815-6377. 3ª e 4ª, às , 21 h.

R$ 80/ R$ 220.

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