Apupos e ovação

Na abertura da mostra, palmas para o rock, vaias para a ministra

LUIZ ZANIN ORICCHIO / BRASÍLIA, O Estado de S.Paulo

28 de setembro de 2011 | 03h08

Foi a apoteose que se esperava. Teatro Nacional lotado, frisson do público, emoção e palmas no final. Assim que Rock Brasília - A Era de Ouro, documentário de Vladimir Carvalho apresentado fora de concurso, bateu na tela tudo o mais foi esquecido (e havia muito para ser esquecido). Compreende-se. Em nenhum outro lugar o filme deve ter a recepção que ganhou em sua terra. É um trabalho de memória e amor à cidade e seus personagens, no caso, as bandas Legião Urbana, Capital Inicial e Plebe Rude. Não por acaso, Vladimir encerrou seu (longo) discurso com a frase: "No fundo fiz o filme para dizer: Brasília, eu te amo!". Bom, festivais de cinema são assim. Epidérmicos, grandiloquentes, redundantes.

Os trabalhos da noite foram iniciados por um discurso dos mais extensos do apresentador José de Abreu. O texto dava a entender que se está diante de um marco zero, de um turning point absoluto na história do festival. Tinha cunho político (o governador Agnelo Queiroz é do PT) e citou Dilma e outros figurões da República. Deu a entender que o processo por que passa o festival é o da democratização, levando o cinema a um maior número de pessoas. De fato, além das tradicionais exibições no Cine Brasília, situado no Plano Piloto, haverá sessões simultâneas em cidades satélites como Sobradinho, Ceilândia e Taguatinga.

Vladimir também falou demais e cometeu o erro de agradecer à ministra da Cultura Ana de Hollanda. Houve vaia. Nova citação, e mais vaia, mostrando que a "popularidade" da ministra, detectável em todo o País, é compartilhada na capital federal.

No fim deu tudo certo. Na plateia, integrantes ou ex-integrantes das bandas como Philippe Seabra, Loro Jones, Fê e Flávio Lemos, e familiares, como Carmem Manfredini, irmã de Renato Russo, e Briquet Lemos, pai dos roqueiros. O filme, premiado como melhor documentário no Festival de Paulínia, entra em cartaz dia 21 de outubro.

As pessoas, em geral, saíram satisfeitas com o que viram no Teatro Nacional. Com reparos. Algumas lamentaram a excessiva duração do filme. "Faria bem a ele um cortezinho de uns 15 ou 20 minutos", disse uma espectadora. Outro se queixou de que havia muita fala e pouca música.

As observações são procedentes. E talvez tenham a ver com o fato de que o diretor veja o rock de uma posição um tanto externa ao movimento. Expressão de jovens, o rock talvez tenha exigido de mestre Vladimir uma elaboração tortuosa para captar-lhe o sentido. Daí o excesso de palavras para cercar um fenômeno que se dá na ordem das pulsões, da adrenalina, da intuição, mais que no da razão.

Mas nem tudo era festa no Planalto. Ao clima comemorativo se mesclava certa tensão. A nova coordenação do festival encontra-se em guerra com uma parcela de cineastas da cidade, e o diretor Adirley Queirós, em protesto, retirou seu longa A Cidade É Uma Só? da mostra Primeiros Filmes. "Exibir meu filme no festival seria legitimar posturas autoritárias e arrogantes", justificou Queirós em nota.

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