Apresentar Armas!

Enquanto o rap racha entre os que riem e os que esbravejam, BNegão faz os dois de forma genial

EMANUEL BOMFIM, O Estado de S.Paulo

14 de julho de 2012 | 03h08

É só dar o play para se dar conta de como fez falta. BNegão ficou quase nove anos sem apresentar novidades da matriz que projetou sua carreira pós-Planet Hemp, ao lado dos Seletores de Frequência. O reencontro não poderia ser melhor: Sintoniza Lá, novo capítulo da saga do rapper que melhor combina discurso e musicalidade.

O longo hiato entre o genial Enxugando o Gelo (2003) e este não se deu por motivos aleatórios nem existenciais. BNegão estava na "ralação", como o próprio gosta de dizer. "Foi excesso de trabalho mesmo. Nos últimos quatro anos eu fiz mais show do que no auge do Planet Hemp. Tudo isso misturado com a falta de patrão", diz e ri ao telefone, em simpática conversa com a reportagem do Estado.

Nas contas dele, o novo disco precisou só de três meses para ficar pronto. "Mas não foi de uma vez, foi por espasmos", revela, antes de soltar mais uma das boas gargalhadas. Neste método parcelado de criação, as composições fluíram sem entraves com a banda, diferente do processo mais engenhoso das letras. "A dificuldade é justamente essa: conseguir fazer uma letra pertinente, interessante e que não se repita. Isso é muito complicado. Achei que eu tinha um defeito de fabricação, mas depois vi que o Chico Buarque pensa do mesmo jeito. Aí eu fiquei feliz", diz.

A minúcia na formatação poética encontra respaldo na representação estética: nenhuma das onze faixas do álbum passa dos quatro minutos de duração. É a síntese da imensa paleta black já vivenciada pelo cantor - do rap, funk, reggae, dub, soul e samba - , em fusão com um lirismo politizado. "Propus que este disco não tivesse músicas tão lentas, que fosse mais pra frente, próximo do impacto do show, bastante enérgico", descreve. Mas avisa: o clima de baile não quer "emburrecer" ninguém.

"Não tenho dificuldade de pensar e dançar. A galera tem essa coisa de achar que música pra pensar é música para se ouvir parado com a mão no queixo. Os grandes mestres, como o Public Enemy, fazem música para pensar e mexer o corpo ao mesmo tempo. O Bob Marley e o James Brown também eram assim. É uma parada que eu acredito e faço questão de levar em frente", defende.

Assim como na estreia, com Enxugando o Gelo, BNegão colocou Sintoniza Lá para download gratuito no site oficial da banda. Se hoje a prática já não é mais nenhuma novidade, no início dos anos 2000 era motivo de celeuma entre artistas, produtoras e gravadoras. O rapper foi amado e odiado pela atitude, mas sentiu na pele o poder "globalizante" da rede. "Eu coloquei na internet como uma resposta política, principalmente quando teve aquele monte de artistas defendendo a prisão para quem pirateava. Acabou que o nosso som ficou conhecido mundialmente, tocamos na Europa, chegando a fazer show em Barcelona para dois mil pagantes", lembra.

Sem neuras com a web, BNegão comemora a sedimentação da cena underground, bem mais segura financeiramente hoje do que há vinte anos, quando começou. Cita Criolo e Emicida para mostrar a evolução de um rap que hoje é consumido por milhares de pessoas, mesmo quando ele não é "mainstream" na sua essência. "Veja o ConeCrew. É completamente underground, mas é imenso", ressalta.

Não por acaso, o lançamento oficial de Sintoniza Lá será no templo indie paulistano, o Cine Joia, no próximo sábado, 20 de julho. A mesma imensidão deve abraçar BNegão num show de rigor estético impressionante. A banda irá tocar as faixas do novo disco na mesma ordem proposta para o produto fonográfico. É o êxtase calculado que promete contaminar a cabeça e balançar o corpo.

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