Apresentar armas. E iPods

Entre tiros e pânico, soldados dos EUA não só ouviram muita música como também criaram suas próprias obras

João Marcos Coelho, O Estado de S.Paulo

22 de maio de 2010 | 00h00

Existe uma diferença entre ouvir e cantar/tocar músicas dos outros e produzir sua própria música. A música que emerge dos corações e mentes dos soldados americanos no Iraque seria menos manipulada que as de guerras anteriores, em que visões externas, de terceiros, impunham modos de se encarar a guerra que nem sempre correspondiam ao dia a dia dos soldados? Jonathan Pieslak, autor do livro Sound Targets - American Soldiers and Music in the Iraq War, com histórias de soldados que faziam música no Iraque, não se diz convencido disso. "Os soldados no Vietnã expressavam suas opiniões de modo tão direto quanto os de hoje no Iraque. A maior diferença está no desenvolvimento das tecnologias de gravação, que possibilitaram aos soldados gravar música no próprio campo de combate - o que era impossível no Vietnã. A música pode ser gravada hoje com um simples microfone e um laptop."

De fato, um dos pedidos mais insistentes dos soldados entrevistados por Pieslak para o livro era um equipamento básico, o iPod. Ele mesmo se envolveu com a guerra e acabou por escrever o livro a partir de doações de discos que fez às tropas em 2003, no início dos combates. Ao saber que os CDs haviam circulado por praticamente toda a tropa em MP3, sentiu que estava diante de um fato novo. Assim nasceu Sound Target, um livro publicado no ano passado, mas atualizado constantemente no site do autor: www.jon.pieslak.com. Lá você encontra entrevistas com os músicos integrantes do livro e outras mais recentes.

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O soldado Colby Buzzell, da infantaria, que serviu no Iraque em 2003/4, possuía em seu iPod mais de 30 mil canções trocadas com os companheiros de tropa, num total de 932 horas de música. A dupla de soldados Nick Brown e David Schultz fez muito sucesso como compositores e letristas de canções que gravaram com acompanhamento de violão e repassaram para a grande maioria dos soldados no Iraque em 2004/5. Eles chegaram a gravar um CD, Iraq Unplugged, com canções cujos títulos já revelam tudo: All I Really Miss Is You (O Amor Distante), When Daddies Don"t Come Home (Quando os Pais não Voltam para Casa, falam aqui os filhos dos soldados mortos no Iraque; The Ballad of Ahmed Razooki (que conta a história de um iraquiano tentando preservar sua família da violência ambiente); e Blame it on the ING (bem-humorada canção sobre as dificuldades de se trabalhar com a Guarda Nacional do Iraque).

O sargento William Thompson, soldado da força-tarefa de contrainteligência do Exército, que também serviu no Iraque em 2004, levava consigo sempre um laptop, um teclado eletrônico e um microfone de plástico, "desses de 10 dólares". Formado em piano e jazz na Universidade de New Orleans e músico profissional antes de ser convocado, "ele comprou um Mac Powerbook G4 e um software musical, que usou para compor eletronicamente", diz Pieslak. "Acredite, ele usou o microfone do seu iPod para gravar sons do campo de combate. Incorporou, então, estes sons." Tudo ficou registrado no CD Baghdad Music Journal, lançado comercialmente nos Estados Unidos em 2006. Na faixa Follow Our Orders, ele manipula samples de diálogos em árabe de um CD entregue aos soldados norte-americanos ao chegarem a Bagdá, para que eles aprendam frases simples na língua local. As falas combinam-se com piano, percussão e sons gerados em computador. Em Post Elections News, de 2004, mistura transmissões de rádio, com estática, falando da reeleição de George W. Bush.

O poder da música

"O papel da música para o homem na guerra é mais intenso do que no nosso dia a dia normal", diz ele ao Estado. Até como ferramenta de tortura. Em seu livro, Pieslak afirma que os interrogatórios de iraquianos presos pelo exército norte-americano no Iraque são regados a "hard rock/heavy metal" para facilitar confissões. Isso lembra, é claro, Kubrick e o modo como se usa a Nona de Beethoven como instrumento de tortura. E também Edward Said dando conta de que os israelenses costumam manter durante dias e noites seguidos seus prisioneiros ouvindo as sinfonias de Beethoven em volume altíssimo, para quebrar o moral.

A música é mesmo perigosa, já dizia o filósofo grego Platão. "Nesse tipo de situação, a música é usada de dois modos", responde Pieslak. "Primeiro, pode ser usada no começo do interrogatório para irritar ou frustrar o preso. Quem sabe, amedrontá-lo, como no caso de fundamentalistas, quando os colocam frente a algo que lhes é proibido. Ela funciona como uma forma de antagonismo cultural. O segundo e mais severo método é combiná-la com a privação de sono. Aí não importa o gênero. Pode ser Beethoven, Metallica, Britney Spears, dá no mesmo." A lamentar, apenas, que Pieslak não esboce o menor sinal de reprovação a isso. Nem na entrevista nem no livro.

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