Apresentação do trabalho de Aurélio Buarque de Holanda

Leia a íntegra de prefácio destacado no 'Suplemento Literário' de 11 de janeiro de 1958, sobre obra do autor

30 de abril de 2010 | 17h48

Augusto Meyer

 

SÃO PAULO - Lá pelas seis horas da tarde, dos fundos da Livraria São José, levantou-se grande vozearia; era uma acalorada discussão, verdadeira justa poética, entre o poeta Murilo Araujo e o professor Aurélio Buarque de Hollanda Ferreira.

 

Aurélio Buarque de Hollanda, que já traz as mesmas tônica no seu nome, defendia com unhas e dentes um decassílabo de Artur Azevedo, cujos acentos secundários caem na quarta e na sétima sílabas métricas: Por um capricho, por uma tolice...

 

Murilo Araujo, enojado e arrepiado, repelia o aleijão, alegando a desenvoltura com que o autor deslocara o acento medial da sexta para a sétima, a casa da vizinha, com grave quebra da sugestão melódica e da fluência do verso. Aurélio Buarque de Hollanda, acudindo em defesa do ausente, combatia com sólidos argumentos aquela intransigência normativa, que já vem de longe e entre nós foi adotada pelos parnasianos.

 

A cada argumento mais gritado, voltavam-se cabeças curiosas, narizes indagadores surgiam por cima dos volumes compulsados; os furungadores de livros não viam com bons olhos a discussão rítmica, coisa que sempre cheira a bizantina. Mas ali estava a melhor prova de que a Poesia não morreu, e tudo aquilo, que até parece uma sessão da Academia dos Esquecidos, envolve um convite ao aprofundamento estudo de tão magna questão. Com o decassílabo, que nasceu feito e armado para a guerra, não se brinca.

 

Serve também o episódio para retratar num flagrante o autor destes estudos, pelo menos um dos Aurélios mais simpáticos que se integram na generosa pessoa do professor Buarque de Hollanda Ferreira: o amador, o degustador, o maníaco de poesia. São os Aurélios desta tempera que garantem a perenidade da magia poética, o seu cultivo consciente, os seus direitos de conquista na posse do território Lírico.

 

O que os caracteriza é o amor desinteressado pelo sortilégio poético, a intuição da poesia acima de tudo, mas, ao mesmo tempo, o estudo dos textos, a pesquisa minudente, a incansável paciência de reler, sentindo e amando, analisando e perquirindo, reler mil vezes para compreender bem a intenção do poeta à luz do estudo estilístico. Assim, por exemplo, no caso do pobre verso de Artur Azevedo, em vez de reagir como o seu contendor com a dura rejeição de um preceptista intransigente, Aurélio repetia não sei quantas vezes o verso / Por um capricho, por uma tolice /, mudava de inflexão, sondava-o por todos os lados, auscultava-o pacientemente e, reintegrando-o afinal no quadro orgânico do soneto, sentia-se inclinado a interpretar a sua aparente arritmia como quebra intencional de uma cadencia. Para corrigir a frieza da perfeição estática, cedera decerto o autor a um impulso de desequilíbrio dinâmico.

 

Já o velho Castilho, na quarta edição de seu Tratado, dizia: "Um pequeno poema em nossa língua armado todo de decassílabos pausados na quarta, sétima e décima, poderia sair muito aprazível e sobremodo acomodável ao canto". E era que pese a opinião de Bello, Cifuentes e Bejarano; dos mesmos recursos valeu-se um ouvido fino como Garcilaso, com grande proveito para a harmonia do verso.

 

Nos estudos que em boa hora a Editora Cruzeiro resolveu coligir, logo verá o leitor como pode confiar na capacidade interpretativa desse arejado Aurélio, sempre atento aos mais delicados matizes da expressão poética. Reconheço nestas páginas em primeiro lugar o bom leitor, ao mesmo tempo agudo e ingênuo, que tantas vezes me surpreendeu ao dizer versos de Manuel Bandeira, Carlos Drummond, Cecilia Meireles, sem falar nos santos da nossa devoção. Foi o Nobre dos Males de Anto que me revelou, no Aurélio em prosa, digamos, no professor que eu já conhecia e estimava, um outro Aurélio, todo ele traduzido em verso, possuído da loucura de Orfeu e capaz de transformar o texto impresso num canto perturbador e imprevisto.

 

Em meu gabinete da Praia de Botafogo, na esquina mais barulhenta do Rio de Janeiro, entramos assim certa vez a recordar, a recitar, a comentar, e não sei de outro intérprete que me revelasse, com a modéstia e segurança de sempre, mais novidade num poema remoído, mais espírito na letra de fôrma... Tal era o eu poder sugestivo ao dizer, a leveza melódica arrancava de tamanha gravidade, que o poema, renascendo ao calor da sua voz, parecia volver ao próprio movimento criador do verbo que lhe dera vida, antes de esfriar na triste brancura da página...

 

Se é certo que a poesia latente num poema, espécie de Bela Adormecida no Bosque, espera cem anos às vezes pelo seu príncipe eleito - o leitor ideal - para começar a viver enfim o seu destino, despertando e palpitando, ali estava esse leitor ideal, sob a forma de um homem corpulento, de cabeça leonina, loura juba atormentada, com nervos de folha sensível à mais leve aragem.

 

Como observei, a um só tempo é agudo e ingênuo; ingênuo bastante para entregar-se à comoção lírica, sem a qual não há capacidade de recriar, vibrando, mas, de outro lado, agudo também, isto é, capaz de interpretar com pleno conhecimento de causa as intenções do poeta, considerado como artífice.

 

Para comprovação imediata, vá direto o leitor ao texto e consulte a página intitulada: "Os cavalinhos correndo...", onde o Aurélio ingênuo, defendendo os direitos da ingenuidade lírica, sustenta: "Também na poesia, que é vida, e vida funda, há da parte do leitor o direito de querer torcer a direção das coisas, para ajeitá-las ao mundo particular da sua sensibilidade. O leitor de poesia pode muito bem não querer que o poema tenha acabado assim... E pode até não querer que o poeta haja sentido ou pensado assim como pensou ou sentia..." Mas veja logo a seguir como o agudo analista acompanha passo a passo o devaneio do leitor-poeta, medindo-lhe a emoção, sofrendo os seus impulsos, traduzindo em linguagem conceitual a reticência do verso. Bom exemplo é a finíssima análise rítmica de um soneto de Camilo Pessanha: "O fonógrafo". Quem, depois de lido o comentário tão sóbrio, deixará de sentir, na aparente desconveniência, na simulada arritmia do poema, o canto interior que obedeço a uma rigorosa lógica estrutural? O crítico emprestou ao leitor incauto os seus olhos de vidente. E assim terá sido em "O prosaísmo poético e O Major", em "Drummond e melodia", em "Originalidade", em outros momentos do livro.

 

Nem falta, à experiência manifestada nestas páginas, um delicado sentimento de pudor, quando se impõe a consciência do mistério poético; leia-se o trecho introdutório ao ensaio "A Poesia e o pássaro". Destacarei apenas o seguinte parêntese, com sabor a solilóquio: "O mundo poético, arisco e solitário, refugia-se nas dobras de si mesmo; encaramuja-se. E como faz rir a vaidade dos frios hermeneutas da poesia, que buscam estereotipar em rígidas equações lógicas um todo esquivo e mobil como nenhum outro!".

Todos os que lidam com o exercício da verdadeira crítica, isto é, com a crítica aplicada ao estudo e interpretação dos textos, e não apenas com a vaga teoria da literatura, tropeçam desde logo no grave problema das limitações do conhecimento crítico. Se acaso foram dotados de alguma sensibilidade compreensiva diante da efusão criadora de arte, ou tentaram eles mesmos a experiência da criação literária, aprendem a hesitar, a duvidar, a acautelar-se. Depois de um longo e paciente esforço de análise, desmontado e remontado o poema, persiste a viva intuição da inefabilidade do encanto poético, e ao ouvido interior do crítico ressoam agora, numa surdina irônica de paródia, todos os bons argumentos e preceitos de que se valeu para interpretar a obra. Entre o objeto de pesquisa e a mesma pesquisa, entre o puro estado receptivo, em que apenas se vibra com a beleza da obra, e o reiterado esforço de explicar e reconstituir a sua gênese e factura, interpõe-se um vazio necessário e inevitável: a essência mesma da criação poética.

 

Caberia muito bem aqui a advertência de Maritain, em Art et Scolastique, que tentarei adaptar, para uso do leitor. O conhecimento poético, diz ele, mais experiência que conhecimento, será cognoscitivo só por modo de inclinação, por efeito de ressonância em quem o experimenta. Sendo de tipo operativo, pois tende a exprimir-se numa obra, a rigor não será nunca um conhecimento conceptualizavel; e, como se mantém essencialmente factivo, não podendo resolver-se em conceito ad intra, só encontra realização numa obra ad extra. Enquanto simples experiência, é no essencial inconsciente. Em tal conhecimento, o objetivo criado, a obra feita, seja poema, quadro ou sinfonia, desempenha o papel de verbo mental e juizo no conhecimento especulativo.

 

Com a maior curiosidade, venho acompanhado, na pessoa de Aurélio Buarque de Hollanda, o diálogo de poeta-leitor com o zeloso professor, armado de escrúpulos e métodos. O professor e o poeta não se acotovelam dentro dele, disputando espaço, que aliás não falta num tão largo espírito, voltado para todos os dons da vida, e em perfeita correspondência com o arcabouço do corpo.

 

Não devemos esquecer que o seu nome completo - nome que todos conhecem da folha de rosto do Pequeno Dicionário Brasileiro da Língua Portuguesa - é Aurélio Buarque de Hollanda Ferreira. Aurélio é o poeta, o fino leitor, o autor de Dois Mundos, reeditado agora pela mesma editora, o homem de fantasia e sensibilidade; Buarque é o professor; Hollanda, logo se adivinha, é o alagoano transbordante de vitalidade, o sanguíneo apreciador de pitéus, canções e anedotas, o guloso de viagens e imprevistos, capaz de passar um dia inteiro entregue à sua facúndia perdulária; Ferreira, enfim, penso eu, é um senhor ponderado, grave, atento aos deveres, que ouve, pesa, fala pouco, ou só fala para dentro, personagem que de vez em quando vem à tona...

 

O professor merece, não só menção honrosa neste prefácio, como nota máxima, com distinção e louvor; que o digam os seus alunos. E quem não conhece os seus trabalhos lexicográficos? Quem não sabe dos seus namoros com mil e um vocábulos não dicionarizados, da sua frequente consulta aos falares regionais?

 

De braço dado, numa colaboração fecunda, o professor e o poeta-leitor há longos anos vêm capinando no duro chão da Filologia, a serviço da Estilística. E desde já, prelibando "grandes quimeras de gosto" como diria Bernardes, imagino as delícias que nos dará ao publicar os seus trabalhos sobre Eça e Machado de Assis...

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