Apresentação de um livro

11.1.1958[br][br]Aurélio Buarque de Hollanda, nascido há um século, teve seu trabalho analisado em prefácio destacado pelo caderno

Augusto Meyer, O Estado de S.Paulo

01 de maio de 2010 | 00h00

Lá pelas seis horas da tarde, dos fundos da Livraria São José, levantou-se grande vozearia; era uma acalorada discussão, verdadeira justa poética, entre o poeta Murilo Araujo e o professor Aurélio Buarque de Hollanda Ferreira.

Aurélio Buarque de Hollanda, que já traz as mesmas tônica no seu nome, defendia com unhas e dentes um decassílabo de Artur Azevedo, cujos acentos secundários caem na quarta e na sétima sílabas métricas:

Por um capricho, por uma tolice...

Murilo Araujo, enojado e arrepiado, repelia o aleijão, alegando a desenvoltura com que o autor deslocara o acento medial da sexta para a sétima, a casa da vizinha, com grave quebra da sugestão melódica e da fluência do verso. Aurélio Buarque de Hollanda, acudindo em defesa do ausente, combatia com sólidos argumentos aquela intransigência normativa, que já vem de longe e entre nós foi adotada pelos parnasianos.

A cada argumento mais gritado, voltavam-se cabeças curiosas, narizes indagadores surgiam por cima dos volumes compulsados; os furungadores de livros não viam com bons olhos a discussão rítmica, coisa que sempre cheira a bizantina. Mas ali estava a melhor prova de que a Poesia não morreu, e tudo aquilo, que até parece uma sessão da Academia dos Esquecidos, envolve um convite ao aprofundamento estudo de tão magna questão. Com o decassílabo, que nasceu feito e armado para a guerra, não se brinca.

*

Serve também o episódio para retratar num flagrante o autor destes estudos, pelo menos um dos Aurélios mais simpáticos que se integram na generosa pessoa do professor Buarque de Hollanda Ferreira: o amador, o degustador, o maníaco de poesia. São os Aurélios desta tempera que garantem a perenidade da magia poética, o seu cultivo consciente, os seus direitos de conquista na posse do território Lírico.

O que os caracteriza é o amor desinteressado pelo sortilégio poético, a intuição da poesia acima de tudo, mas, ao mesmo tempo, o estudo dos textos, a pesquisa minudente, a incansável paciência de reler, sentindo e amando, analisando e perquirindo, reler mil vezes para compreender bem a intenção do poeta à luz do estudo estilístico. (...)

Nos estudos que em boa hora a Editora Cruzeiro resolveu coligir (Território Lírico), logo verá o leitor como pode confiar na capacidade interpretativa desse arejado Aurélio, sempre atento aos mais delicados matizes da expressão poética.

O SENHOR DICIONÁRIO

Aurélio Buarque de Hollanda Ferreira nasceu em Alagoas no dia 3 de maio de 1910. Ao morrer (em 28/2/89), era sinônimo de dicionário, graças à obra que lançou nesse gênero em 1975 (no segundo semestre, ela terá uma edição comemorativa publicada pela Positivo, de Curitiba). O poeta gaúcho Augusto Meyer (1902-1970) seria companheiro de Aurélio na Academia Brasileira de Letras (ambos foram eleitos no início dos anos 60).

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