'Après Mai': os impasses da juventude segundo Assayas

O que ficou da "quase revolução" de maio de 1968? É o que se propõe investigar o cineasta francês Olivier Assayas em seu belo e dilacerado Après Mai (Depois de Maio), que competiu no Festival de Veneza. Assayas vem se dedicando ao cinema político - é dele o magnífico Carlos, filme oceânico, de mais de quatro horas de duração sobre o controvertido Carlos, o Chacal, o venezuelano hoje preso na França.

AE, Agência Estado

26 Outubro 2012 | 10h45

Em Après Mai, Assayas dedica-se a um tema mais próximo. Fala de sua própria juventude. Ele, que nasceu em 1955, era apenas um garoto quando os enragés de 1968 quase depuseram o governo de Charles De Gaulle. Era um tempo de palavras de ordem como "A imaginação no poder" ou "Seja realista: exija o impossível". Tempo de união entre estudantes e operários, barricadas no Quartier Latin, e uma imensa fé no futuro - que acabou não se concretizando.

Os anos 1970, nos quais o futuro crítico dos Cahiers du Cinéma e cineasta se engajou, já eram diferentes, embora conservassem alguma coisa da década anterior. "Sobrava ainda o idealismo mas, ao mesmo tempo, constato que aquela geração foi se tornando mais e mais dogmática, rígida e sufocante", disse, em conversa com a reportagem durante o Festival de Veneza. "Este filme é de fato sobre os sobreviventes de 1968. Sempre é difícil assumir sua própria identidade na adolescência. E é ainda mais complicado quando você tem de assumir também uma identidade política, como foi o caso da época."

Na história, os jovens personagens são herdeiros de uma revolução interrompida. Ainda acreditam na mudança do mundo. Mas o tempo histórico já é outro. A época tem outros ingredientes e atrativos, como as drogas e a viagem mística ao Oriente. Como resultado, o confronto com a esquerda dogmática e conservadora do ponto de vista do comportamento. Num filme coral, de muitos personagens, Gilles (Clément Métayer) se destaca como alter ego do diretor. É um garoto tomado pela política, mas tenta também desenvolver uma trajetória artística como pintor.

Os pontos de contato são óbvios: "Pintei durante a juventude", diz Assayas. "Mas, depois, o trabalho da pintura, muito solitário, tornou-se insuportável." O cinema lhe surgiu como caminho para um trabalho "coletivista", como se dizia na época.

Mesmo assim, para certos grupos, o cinema era visto com desdém. "Havia toda uma discussão entre o espírito coletivo e o individualismo. Um filme hoje clássico, como A Mãe e a Puta, de Jean Eustache, foi considerado pequeno-burguês. Estamos falando de um dos mais belos e radicais filmes do cinema francês. Uma revista como a Cahiers du Cinéma também foi acusada de apoiar filmes individualistas e alienados. Não é fácil ser jovem numa época dessas e acho que o personagem Gilles expressa bem essa complicação."

O filme tem essa pulsão, essa urgência jovem. Mas nada tem de idílico. Pelo contrário, inclui a angústia nas vidas jovens que descreve. "Não queria dar a impressão de uma juventude idealizada, mesmo porque a minha não foi assim. Havia o amor, a ternura, e tudo se inclui na história. Havia também o peso do compromisso político, a carga de responsabilidade que sentíamos em relação à classe operária. A ideia da revolução funcionava como uma espécie de superego para a nossa geração", diz.

APRÈS MAI - Cine Livraria Cultura - Hoje, 23h. Reserva Cultural -

Amanhã, 23h. Cinemark Eldorado - Domingo, 19h. Cinemark Metro Santa Cruz - 2ª, 21 h.

As informações são do jornal O Estado de S.Paulo.

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