Aprendizado inicial a partir dos versos

João Pacheco identificava no jovem autor de Música de Câmara uma influência decisiva da poesia de alguns simbolistas franceses

JOÃO PACHECO, O Estado de S.Paulo

08 de janeiro de 2011 | 00h00

James Joyce, que viria a consagrar-se como o mais surpreendente virtuose da prosa, começou, entretanto, pela poesia - a mostrar, afinal das contas, que a iniciação nas letras pela poesia não é apenas vezo nosso. Pronto em 1904, "Chamber Music" só conheceria a publicidade em 1907, citado por Elkin Mathews. Nas composições que então reuniu, aparece evidente a marca simbolista. Informa Herbert Gorman que Joyce, ao tempo dos seus estudos na Universidade, traduziu muito Maeterlinck, Verlaine e outros poetas de lingua francesa. Dessas traduções divulga o biografo a de "Chanson d"Automne", de Verlaine, que se conservou:

A voice that sings

Like viol strings

Through the wane

Of the pale year

Lulleth me here

With its strain.

Quase pelo mesmo tom se afinam os poemas de "Chamber Music", muitos dos quais foram musicados. Como se sabe, Joyce possuia excelente ouvido e a sua voz de tenor tinha fama entre os seus amigos, chegando mesmo a fazê-lo pensar em tentar a carreira lirica. O que o seduz, pois, em "Chamber Muisic" é a musicalidade da linguagem, mais no aspecto melodico do que no harmonico, para o qual se voltaria mais tarde. Por enquanto, fica ele na melodia:

Strings in the earth and air

Make music sweet:

Strings by the river where

The willows meet.

Tudo é emoção nos versos, nos quais nunca se insinua um conceito, e quase todos de tom lirico e evocativo. O ritmo é simples e correntio, vai a uma complexidade um pouco maior em "I hear an army charging upon the Iand" selecionado por Pound para a sua primeira "Imagist Anthology", e ainda em uma ou outra composição. Publicado "Chamber Music", que teve pouca repercussão, Joyce abandonou o verso, a que ainda voltou esporadicamente nos anos imediatos mas que acabou por deixar definitivamente. O que ficou desses retornos foi reunido mais tarde sob o título de "Tomes Penyeah", cujo diapasão geral não difere muito do tom melodico de "Chamber Music".

Após quase dez anos de luta e espera, de decepção e expectativa, que duraram de 1906 a 1914, de marchas e contra-marchas com editores, nas quais muitas vezes foi submetido a humilhações e teve de sujeitar-se a concessões, Joyce conseguiu trazer a publico o seu "Dubliners" uma coleção de contos com que estréia na ficção.

(...)

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