Aprendizado de Joyce

Texto do Suplemento Literário de 11 de outubro de 1958

João Pacheco, O Estado de S.Paulo

07 de janeiro de 2011 | 23h27

James Joyce, que viria a consagrar-se como o mais surpreendente virtuose da prosa, começou, entretanto, pela poesia - a mostrar, afinal das contas, que a iniciação nas letras pela poesia não é apenas vezo nosso. Pronto em 1904, "Chamber Music" só conheceria a publicidade em 1907, citado por Elkin Mathews. Nas composições que então reuniu, aparece evidente a marca simbolista. Informa Herbert Gorman que Joyce, ao tempo dos seus estudos na Universidade, traduziu muito Maeterlinck, Verlaine e outros poetas de lingua francesa. Dessas traduções divulga o biografo a de "Chanson d'Automne", de Verlaine, que se conservou:

A voice that sings

Like viol strings

Through the wane

Of the pale year

Lulleth me here

With its strain.

Quase pelo mesmo tom se afinam os poemas de "Chamber Music", muitos dos quais foram musicados. Como se sabe, Joyce possuia excelente ouvido e a sua voz de tenor tinha fama entre os seus amigos, chegando mesmo a fazê-lo pensar em tentar a carreira lirica. O que o seduz, pois, em "Chamber Muisic" é a musicalidade da linguagem, mais no aspecto melodico do que no harmonico, para o qual se voltaria mais tarde. Por enquanto, fica ele na melodia:

Strings in the earth and air

Make music sweet:

Strings by the river where

The willows meet.

Tudo é emoção nos versos, nos quais nunca se insinua um conceito, e quase todos de tom lirico e evocativo. O ritmo é simples e correntio, vai a uma complexidade um pouco maior em "I hear an army charging upon the Iand" selecionado por Pound para a sua primeira "Imagist Anthology", e ainda em uma ou outra composição. Publicado "Chamber Music", que teve pouca repercussão, Joyce abandonou o verso, a que ainda voltou esporadicamente nos anos imediatos mas que acabou por deixar definitivamente. O que ficou desses retornos foi reunido mais tarde sob o título de "Tomes Penyeah", cujo diapasão geral não difere muito do tom melodico de "Chamber Music".

Após quase dez anos de luta e espera, de decepção e expectativa, que duraram de 1906 a 1914, de marchas e contra-marchas com editores, nas quais muitas vezes foi submetido a humilhações e teve de sujeitar-se a concessões, Joyce conseguiu trazer a publico o seu "Dubliners" uma coleção de contos com que estréia na ficção.

Ainda evidentemente não é o artista que viria impor-se em "Ulysses", mas as suas histórias fogem à craveira do genero, a principiar pela liberdade de tema e de linguagem, que chocaria o puritanismo da epoca e constituiria uma das dificuldades para a publicação. A outra seria talvez a propria característica dos contos, isto é, a ausencia de enredo em que então se via o fulcro do genero e cuja falta subtrairia o interesse à obra. Nas objeções dos editores a Joyce, não aparece essa alegação, mais preocupados aqueles em não ferir o puritanismo do que em apreciar literariamente o livro: mas certamente não deixaria ela de pesar na balança, pelo menos me parece cabivel presumi-lo, tão claro é que aquela característica repugnaria ao gosto medio do leitor e teria influencia desfavoravel na aceitação do livro.

Não tem o conto de Joyce o lirismo das historias curtas de Tchecov ou de Katherine Mansfield, nem se dilui em uma atmosfera difusa em que matizes e contornos se esbatam. Ao contrario realiza-se em um plano objetivo, em que não se faz sentir a personalidade do autor, quer diretamente, quer através de algum personagem. As suas criaturas, trata-as o escritor a igual distancia, como se pode ver em "Ivy Day in the Committee Room" ou em "Two Gallants", duas de suas produções pelas quais não escondia Joyce predileção. (Letters, 02). Não adota aí o ponto de vista de nenhum dos personagens, antes vendo-os do exterior, a não ser talvez quando, Lenehan ficando só, nos abre o autor uma curta clareira no intimo de sua criatura. "He would be thirth-one in November. Would he never get a good job? He thought how pleasant it would be to have a warm fire to sit by and a good dinner to sit down to." (Completaria trinta e um anos em novembro. Nunca obteria um bom emprego? Pensou como lhe seria agradavel ter um fogo acolhedor de que se acercar e uma boa mesa a que se abancar".

Não seria quem sabe facil enquadrar os personagens de "Dubliners" na classificação de E. M. Forster, que os divide em seu "Aspects of the Novel" em "planos" ("flat") e "concavos" ("round"). Não se ajustam nos "planos", porque não são "tipos" a que esses se reduzem; nem se amoldariam nos "concavos", porque carecem de maior densidade ou misterio. Joyce em "Dubliners" traz uma nova concepção de personagem: o homem apanhado em sua quotidianidade de incaracteristica. Acrescente-se que pode haver "concavidade" no quotidiano - e Joyce o provaria mais tarde com Bloom. Mas aqui ele se limita a flagrantes, que não nos dão senão uma visão parcial do personagem: essa visão não o abrange todo por fora nem o define internamente.

Naturalmente há gradações entre os personagens. Há aqueles de que o autor não nos apresenta senão um rapido relance, em que mal os vislumbramos. Outros há em cujo retrato se demora ou cuja vida interior nos permite entrever. Em "The Dead" estamos em pleno baile de que não há senão uma descrição linear, passando a alcance de nossa visão a dona da casa, os pares a dançar, os convidados a entrar ou sair, tudo num mesmo plano. Pouco a pouco, começa a destacar-se um dos personagens, Greta, em cujo espírito uma canção vem atirar uma ponta de melancolia. O estado depressivo não passa despercebido ao esposo, Gabriel, a quem a nova disposição da mulher, envolvendo-a de misterio, vem a intrigar. De regresso a casa, Greta, ante a insistência do marido, cai em prantos e acaba por confessar que a canção lhe trouxera a recordação de um ardente admirador - um menino que julga ter morrido por ela. A súbita revelação, ao final de um episodio em que só contavam as aparencias do mundo exterior, lança nesse mundo um véu de misterio, que o torna obscuro e separa dolorosamente os espiritos. "So she had that romance in her life: a man had died for her sake. It hardly pained him now to think how poor a part he, husband, had played in her life". ("Assim ela tivera aquele romance na vida: um homem morrera por ela. Doía-lhe agora cruelmente pensar que parte tão pequena ele, seu marido, havia representado na vida dela". Esta, "The Dead", é a historia em que a analise de Joyce mergulha mais fundo e a Greta talvez não falte aquilo em E.M. Forster exige para os caracteres "concavos", a capacidade de surpreender, quer dizer, que contenham em si "a imprevisibilidade da vida - a vida que possa existir dentro das paginas de um livro".

Nos contos como, aliás, nas demais obras de Joyce, o autor, no começo da narração, nunca vem ao proscenio para traçar um painel ou preparar a ação, fazendo aparecer depois os personagens. O leitor é jogado de chofre na ação: quando vemos, os personagens estão em nossa frente, falando, contando, agindo. "Once upon a time and a very good time it was there as a moocow coming down along the road and this moocow that was down along the road met a nicens little boy named baby tuckoo... His father told him that story: his father looked at him through a glass: he had a hairy face". (Era uma vez e que bela vez era, havia uma vacamuu que vinha descendo ao longo da estrada e essa vacamuu que vinha descendo ao longo da estrada encontrou um lindo pequerrucho chamado Nenê Chuca-Chuca.. O pai contava-lhe essa historia: o pai fitava-o através de um vidro: tinha um rosto cabeludo". Assim tem inicio " A Portrait of the Artist as Young Man" - lançado pela primeira vez, em Nova York, no ano de 1916 - dando-nos acesso direto ao proprio cerebro de Stephen menino, o personagem central da narrativa.

Em " A Portrait" existe a mesma falta de enredo que havia caracterizado "Dubliners" - pelo menos do enredo em seu sentido tradicional. Os acontecimentos são extraidos do quotidiano e Stephen nos é descrito em sua vida de todo dia. O autor não o torna presa de nenhum sentimento tenso, que lhe domine e defina a personalidade, simplificando-a e ao mesmo tempo intensificando-a - como por exemplo, a Peri a paixão por Cecilia - nem o lança em peripecias dramaticas, em que a ação acabe por prevalecer sobre o psiquico. Aqui tambem predomina o fluxo de consciencia - não por certo o fluxo de consciencia levado ao infinitesimal a que chegará em "Ulysses" e em que buscará apreender além do consciente - mas numa captação mais à superficie em que, servindo-se de meios de expressão mais discursivos, permanecerá de ordinário no racional.

Já o seu processo começa a fazer-se alusivo, nunca descendo às explicitações em que os naturalistas viam a propria essencia do romance. "A Portrait" é caracteristicamente "one angled novel", em que o ponto de vista - para cuja importancia na ficção Perey Lubbock em "The Craft of Fiction" chamou a atenção geral da critica - procede de um unico angulo, o do personagem central, através de quem são vistas as coisas. Deixou o romancista de ser onisciente, como o queria Flaubert, para restringir o seu conhecimento das coisas a uma unica visão, aplicando ao mundo romanesco, como o julga necessario Sartre, a teoria da relatividade. Se perde em objetividade, ganha em poesia, porque se nimbará de misterio tudo o que escape ao conhecimento.

Mas Joyce, se renunciou à onisciencia de Flaubert, mantém a sua impessoalidade, pois, como o criador de "Mme. Bovary", pensa que "romancista não tem o direito de emitir a sua opinião sobre o que quer que seja". Evidente a equidistancia do autor em relação a Stephen e demais personagens, embora entre aqueles e estes haja a diferença que vai de um personagem visto do interior e personagens vistos do exterior.

Se, nas primeiras páginas de "A Portrait", Stephen é apenas uma criança, está transformado em adulto, ao final. Pinta-nos, pois, o retrato de um espirito desde o momento em que a sua personalidade se encontra ainda no limbo até o instante em que, após crises e embates, ela se plasma e se define. Há assim na novela um defluir de tempo, de que, entretanto, não temos conhecimento direto. Percebemo-lo através dos acontecimentos e sobretudo através do amadurecimento do espirito de Stephen, numa reconstituição mais psicologica do que objetiva que é, neste livro, uma das provas admiraveis do talento inovador de Joyce.

A criança a quem o pai contava historias de fada é um homem que já definira a sua atitude perante a vida: "I will not serve that which I no longer believe, whether it call itself my home, my fatherland, or my church: and I will try to express myself in some mode of life or art as freely as I can and as wholly as I can, using for my defence the only arms I allow myself to use - silence, exile and cunning". ("Não servirei aquilo em que não mais creio, chame-se isso meu lar, minha patria ou minha igreja: e tentarei expressar -me em algum modo de vida ou arte tão livremente quanto possa e tão completamente quanto possa, usando para minha defesa as unicas armas que permito a mim mesmo utilizar - silencio, exilio e astucia". Não o conseguirá, todavia, antes de forte crise mística e após desencanto amoroso. Abandonará também o culto da "epifania", cuja definição vem em "Stephen Hero" (pag. 211), "uma subita manifestação espiritual, seja na vulgaridade de uma conversa ou de um gesto ou em uma fase memoravel do espirito mesmo" e de que se poderia ver uma mostra em "A Portrait": "Towards dawn he awoke. O what sweet music His soul was all dewy wet... His mind was waking slowly to a tremulous morning, knowledge, a morning inspiration. A spirit filled him, pure as the purest water, sweet as dew, moving as music". ("Pela madrugada acordou. Que musica suave! Sua alma estava toda umida de orvalho. ... A sua mente despertava pouco a pouco para um tremulo conhecimento da manhã, para uma inspiração da manhã. Um espirito o inundava todo, puro como a mais pura agua, doce como o orvalho, movel como a musica".

Antes de elaborar "A Portrait", escrevera o que hoje esta publicado com o titulo de "Stephen Hero", parte salva pela esposa das chamas a que o autor arremessara o manuscrito, desesperado com a devolução dos originais pelo editor a que os submetera. Em linhas gerais obedece ao mesmo espirito e processo em que fôra vazado. " A Portrait", com a diferença, porém, de que este apresenta evidentemente melhor acabamento artístico. Enquanto no ultimo a forma é mais concisa, roçando a alusão, por vezes, em "Stephen Hero" é mais explicita e direta, menos artistica, portanto, e menos poética.

Imediatamente após completar "A Portrait" e antes de empreender "Ulysses", Joyce produzira "Exiles", uma peça de teatro que andou nas cogitações de Jouvet mas que não chegou a ser encenada, que eu saiba, a não ser por amadores. De todas as obras do escritor é a unica que se considera inteiramente malograda. Nela diz o editor não ter Joyce encontrado o 'objetivo correlativo" que T.S. Eliot reclama para a perfeita realização da obra. Mas Eliot também nega o "objetivo correlativo" a "Hamlet" e deste não se irá dizer que não possua efetividade cênica.

Porque o que parecem negarem todos a "Exiles" é essa efetividade cenica, isto é, capacidade de contaminar o espectador, estabelecendo intimo e misterioso contacto entre a representação e a platéia. Mas a peça não será capaz de contaminar todo e qualquer espectador ou apenas o espectador comum? A falta de dramaticidade caracteristica de toda a obra literaria de Joyce desta também afasta o leitor comum. Nem por isso, contudo, se afirmará dela que carece de valor.

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