Aprendendo com a epidemia

Uma das nossas virtudes é a de ganhar sabedoria de experiências negativas

Marcelo Rubens Paiva, O Estado de S.Paulo

04 de abril de 2020 | 03h00

Pragas estão entre nós desde tempos bíblicos. Quando os primeiros homens e mulheres decidiram seguir o Norte, rodear o Mediterrâneo, se dividir em levas a caminho do Oriente e Ocidente, levaram junto seus companheiros mais íntimos, adaptados por conta de milhões de anos de evolução em contato com outros animais, que continuavam em estado de mutação: caspas, piolhos e vírus. 

Rotas da seda geravam comércio de especiarias e doenças. Quando Constantinopla foi invadida enfim pelos turcos, interrompendo o comércio mundial, as caravelas portuguesas avançaram pelo Atlântico Sul e Índico e, pela primeira vez, juntaram biomas do Hemisfério Norte e Sul e de três florestas tropicais, a do Sudeste da Ásia, a africana e a brasileira. 

Com isso, os vírus de um ambiente viajaram pelas entranhas em caravelas pelos continentes e contaminaram povos distantes ou há milhares de anos isolados. Malária, febre amarela e a mortal, que se transformou em arma de guerra, varíola, até a caspa, atacaram os nativos. 

Os indígenas do Novo Mundo foram dizimados por uma arma mais letal que ferro e chumbo de conquistadores espanhóis e portugueses: o vírus da varíola, além da cólera, gripe, sarampo, tifo, peste bubônica. Conquistadores deixavam roupas imundas para os indígenas levar. Nelas, doenças.

A aglomeração urbana é sinônimo de epidemia. Em Londres, pessoas de um bairro, que colhiam água de uma mesma fonte, começaram a morrer. Era a cólera, entre 1817 e 1823, herdada de colônias como a Índia, doença que por sinal continua ativa e visitou o Brasil anos atrás. 

O saneamento passou a ser prioritário em cidades esvaziadas como Paris e Londres, o Estado se fortaleceu, nasceu uma burocracia fortemente ligada à saúde pública. Os talheres e a etiqueta nas refeições, antes restritos a aristocratas, viraram obrigação.

Em 1917, e sobre ela muito tem se falado, a gripe espanhola, que começou numa base militar americana, varreu a Europa durante a Primeira Guerra, levada por soldados ao front de batalha. Embalagens descartáveis, garrafas e enlatados. No fim dela, o mundo viveu um desbundo: Era do Jazz, República de Weimar. Tudo era possível. Sexo livre, festas, drogas, porres, poesia no ar. Sobrevivemos? Bora, curtir.

Tivemos sífilis e tuberculose. Temos dengue, febre amarela e malária. Recentemente, tivemos contato com novos inimigos, vindos da África e Ásia, como HIV, ebola, H1N1, Sars, chicungunha, zica. Vivemos sob a ameaça constante de uma pandemia avassaladora. Sobrevivemos a todas elas, e o mundo muda, na geopolítica e nas nossas cabeças. 

O HIV trouxe dilemas morais. Sua principal via de contato é o sexo e a seringa de uma agulha. Homossexuais e viciados foram punidos, como os idosos hoje, como se fossem os responsáveis pela doença. “Problema deles que são degenerados”, pensavam os seguidores de Reagan. A Guerra Contra as Drogas, que não deu em nada, começou ali. Hoje se diz: “Problema deles que são velhos e têm doenças preexistentes”. 

O mundo já mudou. No começo da crise da covid-19, vejo gente se perdoando, reatando amizades, valorizando o menos, repensando a economia global, a desigualdade. Vejo pais que se voltaram aos filhos, aos livros. Vejo gente se dedicando a afazeres domésticos antes terceirizados, reaprendendo a cozinhar, valorizando cada grão de comida, gole de bebida. 

A arqueóloga portuguesa Joana Freitas explica: “O homem é um exemplo de superação nas linhas evolutivas. Não éramos fisicamente dominadores, nem estávamos no topo das cadeias alimentares. Éramos caçadores, mas presas fáceis também. A evolução do nosso cérebro, as capacidades intelectuais e de cognição, deu-nos a vantagem. Durante milênios, feitos de avanços e retrocessos, a espécie humana prosperou e ocupou os quatro cantos do planeta. A uma capacidade adaptativa gigante juntou-se a sobrevivência assente na coesão de grupo. Há cerca de 10.000 anos, começam a aparecer as primeiras sociedades sedentárias possíveis pela domesticação, embora incipientes de plantas e animais. Aqui, nesse preciso momento, o homem assinava com o destino. Populações crescentes e fixas num local, convivência diária com os animais domesticados e todos os parasitas a eles associados, formaram as condições perfeitas para as primeiras epidemias”. 

Joana lista as pandemias que mudaram o curso da História, e mortais, e entre elas está a peste bubônica, em Roma, entre 527-565 d.C., sob o comando do imperador Justiniano. Resultado. O império romano entrou em colapso. Nunca mais foi unificado. A data representa o início da era negra da época medieval. O medo da realidade mergulhou o Ocidente no transcendental e na idade das trevas, a Idade Média. Deus castigava aqueles que não tinham fé ou adotavam uma religião pagã. A Igreja Católica se expandiu. Deu na Inquisição.

A peste negra, entre 1343 e 1351, atacou a Ásia e Europa e matou, segundo Joana, cerca de 80 milhões de pessoas. Afetou toda a economia mundial. Porém o caminho foi oposto. A medicina rompeu os tabus do catolicismo e passou a tratar o corpo humano como algo a ser investigado, não como a face de Deus. Deu na Renascença. 

Epidemias trouxeram trevas e iluminismo. Escureceu e acendeu. Nos bloqueou ou nos expandiu. Uma das nossas virtudes é a de ganhar sabedoria de experiências negativas. Nós vamos superar essa, com união e serenidade. E deixemos a estupidez falando sozinha.

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