Aprendendo a amar Yoko

Defensora de Yoko Ono, que faz 80 anos hoje, Lisa Carver fala sobre a polêmica obra da artista

ROBERTO NASCIMENTO , O Estado de S.Paulo

18 Fevereiro 2013 | 02h06

Yoko Ono faz 80 anos hoje. Mais da metade desses foi passada rompendo paradigmas, seja no underground nova-iorquino dos anos 1960, ou como a mulher mais detestada do planeta: a namorada feia de John Lennon, culpada pelo fim da banda mais querida de todos os tempos, uma viúva acusada de oportunismo e mesquinharia ao cuidar do espólio de seu marido.

Nesses 80 anos, Yoko produziu uma extensa e respeitável obra que inclui filmes, arte performática e peças para dança. Protestou contra a violência em uma cama de hotel. Compôs canções feministas que chocaram o status quo. Liderou - com e sem John Lennon - uma das bandas experimentais mais influentes dos anos 70, a Plastic Ono Band, respeitada em círculos de vanguarda até hoje. Atualmente, desenvolve uma linha de roupa masculina.

Mas um currículo desse calibre não foi suficiente para dar a Yoko, em 80 anos, o reconhecimento merecido. Esta é a opinião da autora Lisa Carver, que escreveu, no ano passado, o livro Reaching Out With No Hands: Reconsidering Yoko Ono, em defesa de Yoko. O Estado a entrevistou sobre a vida e obra da artista.

Sua defesa de Yoko Ono parte do princípio de que ela está sempre na contramão de nossas expectativas. Como desenvolveu essa tese?

Me pediram para escrever algo sobre Yoko, e esse texto transformou-se em um livro. Sempre me interessei por Yoko. Ela não é normal. Foge de qualquer concepção comum de o que é ser um artista. Yoko não faz arte, usa a imaginação dos outros para fazê-la. Não é bonita, não é fácil. Os quadros dela são incompreensíveis, a voz dela não é melódica. Seus filmes não têm roteiro, seus Happenings não fazem sentido. Sua arte é ausente, mas é positivamente negativa. Já temos muita coisa. Não precisamos de tanto.

Seu livro traça um paralelo interessante entre sua arte e a ausência em sua vida particular. Como foi que Yoko desenvolveu este apreço pelo nada?

Quando se perde o que se tem continuamente, passa-se a se preocupar com o que está lá. Mas se você cria algo que não está lá, então não há como perder esta coisa. Nunca se perde o que não se tem. Por isso acho que, inconscientemente, Yoko se concentrou em não ter. O primeiro marido dela, o compositor Toshi Ichiyanagi, se distanciou. Aconteceu o mesmo com o segundo, o produtor Tony Cox, mas ele fugiu com a filha deles, Kyoko, e juntou-se a um culto religioso. A inexistência na arte dela anda de mãos dadas com a ausência em sua vida particular.

E porque tanto antagonismo perante sua pessoa?

Acho que é uma questão de vanguardismo. Até mesmo outros artista não conseguem entender Yoko, ou legitimá-la. A arte dela é toda errada. Ela te manda passar um ano tossindo. Manda você capturar o luar em um balde d'água. Manda os politizados darem uma chance à paz.

O que acha da lenda pop de que Yoko é culpada pelo fim dos Beatles?

É uma ideia incrivelmente estúpida. Acho até um insulto aos Beatles achar que a banda mais famosa de todos os tempos se desintegraria por causa de uma namorada. Mas todo mundo, do mecânico ao gerente de banco, tem essa ideia de que Yoko era má. Se ela realmente tivesse esse poder, quase uma bruxaria, de romper uma banda, isso seria terrivelmente interessante. Não acha? Mas na realidade, o que aconteceu é que, além de machismo na sociedade do pós-guerra, havia preconceito com japoneses. Ela foi vítima disso - além de ser uma mulher que nunca foi submissa, era japonesa e falava o que pensava.

Ao mesmo tempo isto fez com que se tornasse um ícone do feminismo...

Sim, mas Yoko é um ícone feminista porque não trabalha como uma mulher. Muitas mulheres bem-sucedidas pensam demasiadamente em status perante a sociedade. Ser aceita e desejada é o papel tradicional. Mas o feminismo de Yoko engloba apenas o fato de que gosta do que faz. Às vezes, ela se envolve em questões relacionadas à mulher, mas seu trabalho não se limita a isso. Ela pensa em tudo. Pensa em homossexualidade, ou em um inseto, ou uma árvore, tanto quanto pensa em feminismo.

O que acha sobre algumas de suas atitudes questionáveis, como lançar um disco com os óculos de John Lennon quebrados na capa, depois de já morar com outro homem, ou de não dar dinheiro ao primeiro filho de seu marido?

Não me importo. Todos fazemos coisas incompreensíveis. Mas é interessante esse episódio da capa. Nada sabemos sobre o que ela estava pensando, o que aquela capa significou para ela. Ela certamente não faria nada sem pensar. Para ela, não interessa o que o público acha.

Outro ponto interessante é que Yoko teve aprendizado clássico, mas ignora isso completamente em sua produção musical.

Ela cresceu em uma família rica, na alta sociedade japonesa. Depois da guerra, virou mendiga. Mas, antes disso, havia recebido a educação convencional que garotas ricas recebiam. Fez aulas de piano, canto. Foi a primeira mulher a ser aceita na faculdade de filosofia de Tóquio. Ela escolheu romper com todas essas coisas. Certa vez, fez uma coreografia, ensaiou os dançarinos, e desligou a luz na hora da apresentação. É realmente impressionante. Fez isso para que a plateia projetasse a dança em sua imaginação. É quase o oposto de assistir TV. Muitos podem achar que é besteira, mas só seria se ela não soubesse o que faz. Se você quer ser um mestre zen, tem que aprender a fazer tudo para conseguir jogar tudo no lixo e ser zen.

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