Apreender o clima de apreensão

Em Blanco Nocturno, novo romance do argentino Ricardo Piglia, a narrativa dos acontecimentos apreensivos que magnetizam os moradores duma comunidade rural dos pampas, nos anos 1970, resulta do esforço do artista para revelar tudo o que é tido como corriqueiro na província. Ao apreender o clima de apreensão por que passa a cidade depois da chegada dum forasteiro gringo, Tony Durán, o texto retrata o comum e o torna inteligível. Por olhar o dia a dia pela ameaça do forasteiro, a escrita ficcional evidencia isolamento, atraso e os delírios induzidos pela especulação imobiliária e pela industrialização no campo. A partir dum desenho, onde se pode ver ou o bico proeminente de pato ou as orelhas longas de coelho, o romance teoriza: "Descobrir é ver de outro modo o que ninguém percebeu". Se o espectador atentar para o bico, descobre o pato no desenho de coelho, para as orelhas, o coelho no desenho de pato.

SILVIANO SANTIAGO, O Estado de S.Paulo

08 de janeiro de 2011 | 00h00

Por escapar ao ramerrame da comunidade, os acontecimentos apreensivos são saltitantes e descontínuos e tornam o comum romanceável. Autoritários, questionam o senso comum. Não o deixam arvorar-se em bom senso comunitário. O fato apreensivo é o pizicato revelador da monótona e viciada melodia dos pampas argentinos.

A vida comum é, pois, uma "farsa". Só receberá o estatuto de ficção, se se desdobrar em realidades paralelas. Uma delas, a hegemônica, é visível a olho nu e enrustida, e o será até o dia em que for bombardeada pelo seu avesso melodramático, os acontecimentos apreensivos. Já o título do romance acentua o disparate do avesso que atesta sobre a inautenticidade do lado aparente. Como aconteceu durante a guerra das Malvinas, o branco se deixou ver à noite pelos óculos infravermelhos dos soldados ingleses. Os óculos "permitiam ver na escuridão e disparar num branco noturno".

Não teria sido a reaparição súbita na comunidade dum "zambo" (mestiço de índio e de africano) que ateia o fogo entre os pacatos europeus enraizados no campo argentino? Tony Durán, o forasteiro norte-americano, não é ianque, é porto-riquenho. Latino e mulato, Tony fala com sotaque caribenho, mas parece nascido em Corrientes ou no Paraguai. Sem ser da região, Tony o é, como o são os irlandeses da elite nativa. Suas amantes argentinas, Ada e Sofia Beladona, são irmãs gêmeas e ruivas. Por elas deixa a boa vida na costa leste dos Estados Unidos para se embrenhar pela província de Buenos Aires. Foram elas que naturalizaram apreensivamente nos pampas os ganhos comportamentais metropolitanos (minissaia, pílula anticoncepcional, maconha, cocaína...). No presente da ação, as gêmeas trazem Tony para os pampas e, com a ajuda dele, a valise com os misteriosos e cobiçados dólares da herança dos Belladona.

É a descendência masculina dos Belladona, com destaque para Luca, o bastardo, que naturaliza apreensivamente nos pampas a modernização industrial primeiro-mundista. A importação do know-how técnico é salientada por processo de apreensão semelhante ao comportamental. "Copiar-adaptar-enxertar-inventar", explicita o romance, bem na tradição brasileira iniciada por JK e o Iseb. No delírio empresarial de Luca estão também embutidos os óculos infravermelhos. Através de Tony, das gêmeas e de Luca, o leitor passa a enxergar o "branco noturno"? O enigma do subdesenvolvimento platino nos anos 1970 e suas múltiplas e delirantes versões.

Os fatos apreensivos persistem. O ménage à trois que Tony o mulato compõe com as gêmeas o define sexualmente e intriga as ruivas em (incomum dos comuns!) relações incestuosas. O delegado Croce, doublé do intuitivo filósofo italiano, encontra as provas do crime e o resolve ao acaso de constatação aleatória: "Sua intuição era tão extraordinária que parecia um ato de adivinhação". O porteiro do hotel é de origem japonesa. Filho de oficial do exército imperial, só entende o "japonês das mulheres". Convive com o forasteiro gringo. Embora "todos tivessem motivo para matar o porto-riquenho", ele é tido como o assassino. O que é válido para a absolvição do nissei (a culpa é de todos) teria sido para a absolvição de Tony, o gringo. Pergunta-se: "Quem vai denunciar Tony por ter trazido a valise com dólares, se todos fazem parte do negócio?" Qualquer juízo policial depende do ponto de vista. A culpa é de um ou de todos. Todos são honestamente corruptos (pato), ou corruptamente honestos (coelho).

À galeria se acrescenta um velho conviva de Piglia (se me permitem, seu alter ego), o jornalista Emilio Renzi, que deixa Buenos Aires para cobrir o assassinato de Tony Durán. Renzi surge no romance para surpreender a comunidade, revelando-a ao leitor. Entra às escondidas (ou em itálico) no texto e, já transcorrido um terço do livro, é que perde o anonimato. O antigo personagem está em vias de rejuvenescimento. Ao final, deixa-se embalar pelas palavras místicas dum ex-seminarista, Schultz. Renzi desconstrói a apreensão episódica que toma conta dos pampas. Leiam-se, para tal, as notas de pé de página assinadas por ele e por Schultz. (Assim como as notas de pé de página de O Beijo da Mulher Aranha, de Manuel Puig, levam o texto a desconstruir o que é tido e dito como a identidade evidente e falsa da homossexualidade, aqui também as notas atestam sobre o fundo visível e ideológico da vida financeira nos pampas.)

Por o fato apreensivo ser o que, ao pertencer ao comum, dele se libera para lhe dar corda, a trama do novo romance de Piglia teria de ser agilizada por um forasteiro familiar. Figura dizimada durante a colonização europeia dos pampas, o zambo (cafuz, em português), revive em Tony. Apenas episódico no campo argentino, ele é, no entanto, o fantasma da eterna apreensão. Temido e amado, dele todos fogem assustados para que o comum continue a dar sentido à província: "El pueblo siguió igual que siempre...", assim se encerra a narrativa. No retorno da História, Tony Durán é o bode expiatório. Quem o assassinou a facadas? Alguém e todos, está dito na "ficção paranoica" idealizada por Piglia. Na vida comum provinciana, o coletivo dispensa o alguém, embora seja ele que, em última instância, enxergue o "branco noturno".

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.