Apóstolos de um mundo sem deus

A experiência francesa de Todorov tem sido uma luta pela perfeição moral. Foi com 24 anos que o filósofo decidiu se fixar em Paris, onde obteve o doutorado na Sorbonne sob orientação de Roland Barthes. Suas obras históricas e seus ensaios, desde então, totalizam 21 livros, que conduzem a uma revisão cuidadosa do século 20 e promovem um acerto de contas com o passado totalitário da Bulgária. Em 1956, quando os tanques soviéticos invadiam a Hungria, Todorov tentava estudar artes na Universidade de Sofia. Para sua surpresa, as informações transmitidas por seus professores búlgaros não conferiam com a história ensinada nos países do bloco ocidental, sendo adulteradas para servir aos dogmas do regime. Orwell puro.

Antonio Gonçalves Filho, O Estado de S.Paulo

09 Abril 2011 | 00h00

Não sem razão, sua maior contribuição à história da literatura é seu ensaio sobre o fantástico - evento regido por uma outra lógica, que solapa a percepção dos leitores e, por extensão, também a dos hesitantes personagens de ficção, muitas vezes assombrados com a confusão entre o real e o imaginário, como nos livros de Bulgakov e Hoffmann.

Se cabe a nós decidir o que é verdadeiro e o que é ficção, também é nossa atribuição encontrar uma caminho que conduza a um estado de plenitude num mundo sacudido pela obsessão materialista e a descrença. Essa é a tese de A Beleza Salvará o Mundo, um livro tão bom e original como A Literatura em Perigo, lançado há dois anos pela mesma editora Difel. Crítica dura à hegemonia de certas teorias, seu livro anterior atinge particularmente as que insistem em analisar o texto literário como uma entidade autônoma, desconsiderando a vida de seus autores. Nele, o ex-estruturalista critica não só o estruturalismo como provoca um curto-circuito no meio acadêmico: a literatura está em perigo justamente por dizer pouco à experiência pessoal dos leitores.

Em A Beleza Salvará o Mundo, o que está em perigo é o desejo de pensar e viver o absoluto numa sociedade hedonista em que a frase-título, extraída por Todorov do clássico O Idiota, mais parece slogan de produto cosmético. Não é desse tipo de beleza que fala Dostoievski. Muito menos Todorov. Para ele, a frase do autor russo nunca foi tão atual: trata-se de ordenar a vida de uma forma harmônica num planeta caótico, histriônico. Todorov não prega o sacrifício pelo "belo ideal". Para ele, como para muitos de nós, a arte seria a continuação do sagrado por outros meios, parafraseando o filósofo francês Marcel Gachet.

Talvez não seja preciso lembrar que o foco dos estudos históricos de Todorov seja o Iluminismo. Ele suspeita que o absoluto religioso, Deus, tenha sido trocado por ideais coletivos que impõem outros tipos de idolatria. Todorov cresceu numa família em que a referência ao divino era nula. Ele nunca dispôs de um absoluto divino e, diz, perdeu a fé no absoluto terrestre coletivo - ou seja, nos políticos. No entanto, não reitera o postulado de lorde Henry, o cínico amigo de Dorian Gray no romance de Oscar Wilde, para quem o objetivo da vida é o florescimento de si.

Todorov não é um individualista como o mentor de Dorian, que vende sua alma em troca da eterna juventude. Para ele, lorde Henry tem uma ideia "bem estreita" da beleza, negligenciado a via moral e as relações sociais. Foi após a publicação de O Retrato de Dorian Gray (1890) que Wilde, segundo o autor, retoma e amplifica seu programa da vida "bela e boa", tomando emprestado um bordão de Ibsen: "Seja você mesmo".

Ao sair da prisão, em 1897, condenado por sua conduta moral, Wilde mudou sua escrita, renunciando aos ornamentos sintáticos, observa Todorov, embora a experiência do cárcere não tenha garantido a transformação que desejava. Se Dostoievski deixou a cadeia gênio, Wilde saiu dela marcado pelo silêncio. Sua existência assumiu uma dimensão cada vez mais romanesca e ele, segundo o autor, conseguiu fazer de sua vida uma obra de arte, como havia projetado, embora não exatamente aquela que imaginou. Nem mesmo quando fala de Jesus, um modelo em De Profundis, Wilde se afasta do paradoxo. Cristo, segundo ele, seria "o mais supremo dos individualistas".

As contradições de uma vida dedicada à busca do absoluto se aplicam também a Rilke, que proclamou a renúncia a todo juízo como um dever do poeta - submetido a uma "ordem superior". Ele não seguiu o próprio conselho. Para justificar sua admiração estética por Mussolini, Rilke abjurou teses de sua obra e aderiu à retórica fascista. Salvou-o a fórmula filosófica de Spinoza - de que a um deus não se pode cobrar correspondência amorosa. Rilke, que ainda tomou Rodin como equivalente do Messias, foi salvo por sua prosa. As cartas do poeta, que falam de sua incapacidade de criar, constituem, paradoxalmente, uma obra "plenamente realizada", segundo Todorov.

No caso da poeta Marina Tsvetaeva, que traduziu Cartas a Um Jovem Poeta para o russo, mesmo que Rilke vivesse no mundo do passado, o poeta alemão teria muito a ensinar a ela em matéria de poesia e beleza futuras (ela chegou a receber uma carta de Rilke na primavera de 1926). Mas o que teria um homem consumido pela depressão e a leucemia a ensinar a uma mulher cuja filha morreu de fome e o marido foi fuzilado? Pouco.

Tsvetaeva, analisa Todorov, segue o caminho oposto: não é pelo sacrifício, mas pela via da renúncia que se chega ao absoluto. Viver e escrever são sinônimos para ela. A poesia, enfim, não é só uma questão de palavras, mas de experiência do mundo. Pena que essa seja outra lição esquecida. Para Todorov, o sentido da vida não está nem em sacrificar a arte em seu nome, como o fez Wilde, nem imolá-la no altar da arte, como Rilke. Tampouco separar ser e existir, como Tsvetaeva, "mas tornar bela a vida comum". O absoluto, fabricado a cada instante, é apenas um outro nome para a perfeição.

RAINER MARIA RILKE

"Rilke não compartilha da fé dos cristãos - nem a dos católicos, nem a dos protestantes, nem a dos ortodoxos. O que lhe é particularmente estranho, no cristianismo, é a ideia de um mediador que vem perturbar o face a face entre Deus e os homens."

MARINA TSVETAEVA

"Tsvetaeva compartilha da preocupação dos românticos de preservar a autonomia da arte, de não submetê-la ao poder da política e da moral. A poesia não deve servir a nada além dela - é a busca da própria perfeição."

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