Apostas arriscadas

NOVA JERSEY - Certa tarde, em uma reunião de família durante as férias, em San Diego, a cunhada de minha mulher mencionou, de passagem, que alguns anos antes tinha ido a Tijuana comprar drogas, para aumentar a fertilidade quando teve dificuldade de engravidar de um segundo filho. As drogas eram muito mais baratas ao sul da fronteira, ela explicou. A sala ficou em silêncio. Depois daquilo, ela tivera gêmeos, um menino e uma menina, e a menina nascera com um tumor cerebral. Hoje, com 10 anos, a menina sobreviveu. Mas cada dia seu é uma dádiva.

Lee Siegel,

03 Fevereiro 2013 | 02h10

Descobri posteriormente que a família soubera do tratamento para fertilidade, mas não que as drogas tinham sido compradas em Tijuana. A questão que imediatamente ocorreu a cada um naquela tarde foi se as drogas, compradas numa farmácia de Tijuana, teriam sido de algum modo adulteradas. Por trás dessa pergunta há uma outra que os vem perseguindo há anos: seriam as drogas, adulteradas ou não, carcinogênicas? Como a cunhada de minha mulher havia realizado seu sonho de ter mais filhos - por milênios, uma aspiração impossível para mulheres com baixa ou nenhuma fertilidade -, o tema nunca era discutido. Ante a possibilidade de realizar seu desejo, ao risco de um preço excruciante, ela decidiu pelo risco. A família aceitou sua decisão e depois se resignou angustiada ao resultado doloroso.

Esses dilemas, em que a promessa de algum resultado quase milagroso tem como contrapartida consequências potencialmente terríveis, tornaram-se rotineiros, ao menos para os americanos. Nós os aceitamos como o produto de nossa era de maravilhas científicas - realidades novas e sem precedentes que são acompanhadas pelo espectro de efeitos colaterais pavorosos.

Não há nada de novo, contudo, em fazer pactos sacrificiais com as forças desencadeadas pela ciência e pela tecnologia. Escolhas como estas estão de tal forma entranhadas na história e na experiência humanas que já deram origem a uma lenda esclarecedora. Como todos sabem, elas são chamadas de "barganhas faustianas", em referência ao sábio feiticeiro real do século 16, que pode ou não ter se chamado Fausto. Tendo esgotado todo o conhecimento humano, ele teria invocado o Diabo, ao qual empenhou sua alma em troca de poder absoluto e conhecimento supremo. A transação teve um final famosamente infeliz, já que Fausto dilapidou as dúbias dádivas do Diabo em prazeres materiais e sensuais antes de mergulhar na danação eterna numa nuvem de fumaça mefítica.

Em todas as variantes da lenda - de Goethe a Balzac, Oscar Wilde e Thomas Mann -, Fausto manteve sua ressonância como história educativa sobre o preço a pagar pela libertação dos segredos da natureza e a recusa a nos rendermos às nossas limitações físicas.

Em nosso tempo, porém, a história perdeu seu poder admonitório. O suplício faustiano é comum, corriqueiro. A barganha faustiana é hoje uma alegoria para experiências que todos nós vivemos, já que nossos incontáveis exercícios de compensação pelo bem de vitalidade e saúde nos defrontam com a possibilidade de nossa própria destruição.

A cada dia, ciência e tecnologia recuperam a ordem do caos, e dia após dia enfrentamos nossos dilemas faustianos. Temos as bebidas energéticas carregadas de produtos químicos tóxicos, e temos os herbicidas e pesticidas. Temos as estatinas saídas diretamente do livro de mágicas do feiticeiro que impedem doenças cardíacas, mas podem destruir o fígado, e temos os aparelhos de tomografia computadorizada e de radioterapia que nos matam lentamente enquanto preservam nossas vidas. Temos os esteroides que batem recordes atléticos e arruínam carreiras de atletas - e podem causar câncer - e as drogas para aumentar a fertilidade que, como a cunhada de minha irmã tristemente descobriu, talvez contenham perigos terríveis.

Temos os telefones celulares com seus perigos desconhecidos, os inaladores salvadores de vida que podem causar pneumonia, os suplementos dietéticos que podem evitar o câncer e podem causar o câncer, os antidepressivos que protegem contra a depressão pós-parto e têm o potencial de prejudicar o feto no útero.

E temos também todos os procedimentos, o labirinto interminável de procedimentos médicos de duas faces, faustianos. Minha mulher e eu passamos semanas para decidir se, grávida aos 42 anos, ela devia fazer uma amniocentese que poderia nos tranquilizar, hastear a bandeira vermelha de um "resultado negativo", como os médicos o chamam, ou causar um aborto que poderia nos tirar nossa última preciosa chance de um segundo filho. (Nós recusamos o pacto. A criança está ótima).

A figura faustiana emblemática de nosso tempo talvez seja Lance Armstrong, cujo uso intenso de esteroides pode ter causado o seu câncer, e que depois derrotou o que poderiam ter sido os efeitos físicos dos esteroides para ser destruído por suas consequências morais - e legais. Mas embora tenha apostado alto, Armstrong recebeu uma fortuna em troca.

O caso do ciclista caído em desgraça foi raro. Poucas pessoas hoje em dia ganham tanto em suas barganhas faustianas quanto o que põem em risco. Como a barganha faustiana se tornou corriqueira, a relação entre recompensa e risco ficou assimétrica. Temos a aluna do secundário ou universidade que usa esteroides para se igualar às suas colegas. Temos o garoto de escola elementar que foi tratado com Ritalina (possíveis efeitos colaterais: convulsões, ansiedade, síndrome de Tourette, hipertensão, parada cardíaca) porque não estava alcançando as notas draconianas preconizadas por testes padronizados.

Temos todas aquelas pessoas despejando antidepressivos (possíveis efeitos colaterais: insonia, disfunção sexual, ganho de peso, convulsões, hipertensão, problemas respiratórios, pesadelos, impulsos suicidas) em seus sistemas só para saírem da cama pela manhã e trabalharem por medo de serem consideradas doentes e perderem seus empregos. Temos a mulher, da idade que for, apoiando-se na tecnologia tóxica de produtos "de beleza" femininos, tentando sobreviver numa cultura que anatematiza as imperfeições do envelhecimento ou da aparência em mulheres. A lista de barganhas entre efeitos quase milagrosos e efeitos colaterais destrutivos - a danação eterna de nossos dias - não para aí. Mas não há nenhuma grandeza romântica nesses pactos desesperados. Diferentemente de Fausto, que recebeu o poder absoluto e o conhecimento supremo pelos quais pactuou, o que recebemos para nossas apostas arriscadas é apenas mais um dia no jogo. Se tivermos sorte.

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