APOSTA NO HUMOR Ele é um homem do teatro a serviço do espetáculo

Tim Rice defende o riso como um elemento essencial para o sucesso dos musicais adultos

UBIRATAN BRASIL, CLAUDIO BOTELHO É TRADUTOR, DIRETOR, PRODUTOR DE MUSICAIS AO LADO DE CHARLES MÖELLER , UBIRATAN BRASIL, CLAUDIO BOTELHO É TRADUTOR, DIRETOR, PRODUTOR DE MUSICAIS AO LADO DE CHARLES MÖELLER , O Estado de S.Paulo

16 de março de 2013 | 02h12

Na continuação da entrevista, Tim Rice comenta sobre o rompimento da longa parceria que manteve com Andrew Lloyd Webber, rebate críticas a Evita e adianta um pouco de seu novo trabalho, adaptação de A Um Passo da Eternidade, que estreia em Londres no dia 9 de outubro.

O seu estilo de trabalhar varia de acordo com o parceiro do momento?

Sim, alguns compositores são mais românticos, outros ligeiramente mais cômicos, há ainda os dramáticos. Mesmo que não queira, você é obrigado a se adaptar ao estilo do criador das melodias. Sempre tentei escrever letras que têm um sentido quando lidas. É quase como um teste ler a letra de uma música para ver se é convincente.

O senhor iniciou sua carreira ao lado de Andrew Lloyd Webber, mas depois ficou mais espaçada a parceria. O que houve?

Depois de Evita, que fizemos em 1976, ele decidiu fazer Cats, que não exigia letra especialmente composta pois utilizava a poesia de T.S. Eliot. Uma decisão acertada, pois o musical se tornou um imenso sucesso - talvez não tivéssemos a mesma sorte em nossas carreiras se ficássemos juntos.

Há algum arrependimento em relação ao seu trabalho? Pergunto isto por causa de Evita, que foi um trabalho muito contestado.

Evita foi algo muito positivo. Claro que não imaginava isso no começo, pois foi um trabalho muito exigente, só tive a certeza no final, com o sucesso garantido. Gosto especialmente de Não Chore por Mim, Argentina. Fiquei muito feliz com a letra. A principal crítica no caso era de que havia uma série de clichês. Mas foi escrita como uma cena de um espetáculo e não como um single pop.

Os musicais são produções cada vez mais caras, com efeitos especiais. Qual a sua opinião?

Musicais serão mais populares, especialmente em teatros. E a explicação é simples, mas verdadeira: porque são espetáculos encenados ao vivo, com música executada na frente do espectador. Isso oferece uma experiência cada vez mais sensorial ao público, mais acostumado a dispor de material digital. Aliás, creio que esse pode ser o risco do cinema no futuro, já que um show apresentado ao vivo é diferente a cada dia, oferece uma experiência única, o que sacia o tipo de plateia que temos hoje em dia, cada vez mais ávida por novidades e exclusividades.

O senhor ainda costuma assistir a musicais?

Sim, gosto muito de ver novos projetos, mas sempre alternando com peças do repertório tradicional. Ultimamente, porém, tenho me dedicado mais à ópera. Recentemente vi todo o Anel de Wagner, mais de 15 horas de puro prazer.

E como vai sua adaptação para musical do filme clássico A Um Passo da Eternidade?

Trata-se de uma adaptação do romance de James Jones, de 1952, que inspirou o filme de Fred Zinnemann. Como todos devem saber, conta histórias de amor e tensão entre soldados americanos que estavam no Havaí, em 1941, quando aconteceu o ataque japonês que ficou conhecido como Pearl Harbor. Há muita tensão na trama entre os soldados e, como alguns deles eram gays, a versão do cinema não pôde mostrar isso por conta da censura da época. Eu preferi me manter fiel ao original, conservando esse tipo de amor que, muitas vezes, era latente. É um espetáculo adulto, mas com muito humor.

Análise: Claudio Botelho

Tive a oportunidade de escrever versões em português para as belas letras de Sir Tim Rice em Evita e A Bela e a Fera. Evita foi um trabalho complicado. Rice é, mais que apenas um letrista, um dedicado dramaturgo. Suas letras podem ser de extrema ternura e singeleza, como é o caso de You Must Love Me, terem bastante humor e forte ironia como em Buenos Aires, e ao mesmo tempo o letrista dá lugar ao homem que pensa a cena em diversos recitativos funcionais, que servem à ação da peça, mas não são exatamente 'letras de música'. No original são estruturais e convincentes (embora muito explicativas), mas apresentam um desafio ao tradutor por requererem exatidão na nova língua, ao preço de se desvirtuar o foco da história se não forem encontradas soluções completamente fiéis ao que estava em inglês. Rice é isso: um homem de teatro a serviço do espetáculo.

Já em A Bela e a Fera, sem o gesso da chamada "ópera-rock" de Andrew Lloyd Weber, Rice tem a chance de brilhar naquilo que faz com maestria: a canção, pura e simples, sem recitativos e preocupações com dramaturgia. Há muito humor e verve nas novas canções que ele criou para a versão de palco do desenho da Disney, continuando o trabalho feito por Allan Menken (música) e Howard Ashman (letrista do filme, falecido quando a produção de teatro foi criada). Como Menken é muito mais leve e humorado que Weber, Rice vai na onda e deita e rola com as possibilidades da história e dos personagens lúdicos.

Não há dúvida de que Tim Rice é filho do musical inglês, sem a genética de um Noel Coward ou um Lionel Bart, mas mais precisamente um representante da fase que começa nos anos 70/80 e que deu o tom do que reinava mesmo na Broadway até meados de 1990. É um teatro pensado para ser todo cantado, com muita repetição de temas musicais que grudam nos ouvidos da plateia, e exige do letrista muito mais trabalho para tornar novo e convincente o que já foi ouvido diversas vezes na peça.

No entanto, com a decadência deste formato (Sir Andrew não emplaca nenhum musical desde O Fantasma da Ópera), Rice conseguiu com outros parceiros a chance de se expressar em seu máximo potencial. É com Elton John que ele realmente cria obras-primas: as canções de O Rei Leão. São páginas de um lirismo encantador como Circle of Life, e números impagáveis de comédia como Hakuna Matatta. Uma dupla e tanto.

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